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Detalhe de afresco de Giotto mostrando a ressurreição de Cristo.
Detalhe de afresco de Giotto mostrando a ressurreição de Cristo.| Foto: Reprodução/Domínio público

A Páscoa é um dos dois dias do ano em que mais forte se coloca a luta entre a Fé cristã e a superstição moderna. No Natal tenta-se trocar o nascimento do Messias por Papai Noel. Já na Páscoa a refrega é ainda mais brutal; afinal, nascer todo mundo nasce, mas ressuscitar só Ele mesmo. E tome chocolate, e coelhinho, e ovo, e todos os símbolos lateralíssimos a que se tenta dar centralidade – em detrimento de seu rico sentido simbólico – para que se possa convenientemente esquecer a razão da festa.

O mais triste é a enorme medida de sucesso de tais medidas nesta sociedade tão desenraizada quanto decadente, tão pobre quanto ignorante. Perpetua-se uma ficção mitológica tão delirante que em nenhum outro momento da vastíssima história humana houve mais que um ou dois filósofos malucos a pregar sandice semelhante. Para deixar ainda mais arrevesada a fábula, inverte-se a sinalização e chama-se “superstição” a tudo o que não encaixa nela. A lorota em questão é o reducionismo dito cientificista, que toma a matéria e suas qualidades mensuráveis (jamais sua essência, claro) pela totalidade da realidade. Algo que não pode ser pesado ou medido, finge-se, não existe nem poderia existir.

Veja-se bem que isto não é nem ciência nem método científico. A ciência (mero “conhecimento” em latim; daí a palavra “ciente”, por exemplo), antes dita filosofia natural, restringe seus estudos ao mensurável exatamente como a botânica restringe os seus ao reino vegetal: para que se possa tratar sem confusão de uma determinada categoria de coisas. Se os zoólogos se metessem a tratar de horticultura e os botânicos de pinguins ou girafas, suas especializações seriam uma piada. Em outras palavras, ao ater-se ao mensurável a ciência de verdade não nega a realidade do que não é mensurável. Aliás, seria impossível viver sem levar em conta as tantas coisas importantíssimas em nossas vidas que não têm nenhum elemento material. “Bom” e “mau”, “certo” e “errado”, “amor” e “ódio”; nada disso é mensurável, ao menos diretamente, por pura ausência de matéria a medir.

No Natal tenta-se trocar o nascimento do Messias por Papai Noel. Já na Páscoa a refrega é ainda mais brutal; afinal, nascer todo mundo nasce, mas ressuscitar só Ele mesmo. E tome chocolate, e coelhinho, e ovo, e todos os símbolos lateralíssimos a que se tenta dar centralidade para que se possa convenientemente esquecer a razão da festa

A superstição cientificista, contudo – que está para a ciência como a proverbial esposa do comandante que quer mandar nas esposas de seus subordinados está para seu esposo –, acaba sendo enfiada nas cabecinhas das crianças desde a mais tenra idade por maus mestres, sendo ainda reiterada em todo o seu absurdo pela mídia, e assim passa por realidade. Ao menos enquanto, claro, não se para um pouco para pensar ou – melhor ainda – se estuda ciência de verdade, reconhecendo seus limites e avançando de verdade no conhecimento da Criação. É por isto que se diz que pouca ciência afasta de Deus, mas muita nos aproxima d’Ele.

É curioso, diga-se de passagem, como o cientificismo persiste em afirmar que a maior parte da realidade “é coisa da nossa cabeça”, jogando para a psicologia praticamente tudo o que não se pode medir. Disso decorre, diga-se de passagem, um tremendo desprezo à psicologia, que bem estudada é parte de um real conhecimento do homem. Ao contrário dos bichos e seus instintos, convenhamos, nós pensamos, pensamos elaboradamente os pensamentos, reagimos emocionados a eles e racionalizamos a emoção, até que criemos um baita emaranhado mental de que cachorro algum jamais sofreu.

A superstição cientificista, todavia, faz com que o que deveria ser o ponto fulcral da vida de todo ser humano, e mal que bem sempre foi reconhecido como tal em qualquer sociedade minimamente funcionante – a religião, a re-ligação do homem com seu Criador –, vire apenas mais uma irrelevância subjetiva a habitar mentes individuais. Nega-se a objetividade do que sempre foi percebido como mais objetivo que qualquer outra coisa, e com isso perde-se toda e qualquer chance de reconhecer a objetividade até mesmo de juízos cruciais para a vida. O Louco de Nietzsche urrava que Deus teria morrido; ao menos, no entanto, ele percebia o tamanho do despropósito que pregava:

“Nós o matamos, eu e vocês! Somos Seus assassinos! Mas como o fizemos?! Como pudemos beber o mar?! Quem nos deu uma esponja com que apagar todo o horizonte?! Que fizemos, ao desprender esta Terra do Sol?! Aonde ela vai agora?! Aonde vamos todos? Para longe de todo sol? Não estamos correndo de lá para cá sem cessar, para trás, para a frente, para os lados, em todas as direções? Haverá ainda um acima e um abaixo? Não estamos zanzando por um nada infinito? O espaço vazio não nos bafeja a nuca? Não está mais frio? A noite não vem agora continuamente, cada vez mais negra?! Não teremos que acender luzes pela manhã?!”

Pois, realmente, pouco ou nada pode ser mais absurdo que a ideia de fazer de Deus uma fantasia subjetiva; mais fácil seria beber o mar ou apagar o horizonte, e com que esponja se o faria?! A negação de Deus – pois Sua morte é absurda, sendo Ele o autor da vida – só pode levar a um nada infinito, a uma noite que a cada momento escurece mais. Sem Quem tenha dado ordem a todas as coisas toda ordem é arbitrária; todo criminoso pode ser tido por herói, todo estuprador por virtuoso, todo louco ou idiota por sábio.

Amanhã, na Sexta-Feira da Paixão, beijamos o Senhor Morto e reconhecemos que O matamos. Toda missa, aliás, começa assim, reconhecendo-nos indignos. E indignos somos, na medida em que mesmo se cada um de nós fosse crucificado, o tanto de maldades que cometemos não teria tido expiação bastante

Por outro lado, mesmo a loucura moderna – ao contrário d’Ele – passa. Pode vir a ter sido, e provavelmente será, a mais louca de todas, o delírio mais fantasioso, o espavento mais alucinado. Mas, como tudo o que não é o Eterno, é coisa breve e fugidia. Podemos hoje estudar, na história egípcia, a “heresia” monoteísta de Aquenaton. Apreciamos a arte que inspirou, traçamos conexões com o surgimento do monoteísmo hebraico e tudo o mais que a ciência nos permite. A vasta maioria da humanidade, todavia, nasce, cresce e morre sem jamais ter ouvido o nome do faraó herético e sem ter tido oportunidade de aplaudir a beleza da arte de Amarna. O mesmo, por certo, ocorrerá com nossos tristes tempos, que provavelmente terão como referência arqueológica os vastos lixões e a fina camada de plástico com que estragamos e dilapidamos aquilo que deveríamos custodiar.

Noutra coisa, ainda, estava certo o Louco: “nós O matamos”. Não como alguém que fosse mais poderoso que Deus – o que seria uma contradição em termos –, mas como amados de Deus que somos. Ele mesmo fez-Se homem; o Infinito tornou-Se bebezinho e nasceu no Natal, o Todo-Poderoso deixou-Se manietar e crucificar por nós. Morreu por nós, quase 2 mil anos atrás, e igualmente por nós e para nós, tendo adotado nossa natureza, ressuscitou pela Páscoa. É isto – não o chocolate... – que celebramos.

A negação de Deus – pois Sua morte é absurda, sendo Ele o autor da vida – só pode levar a um nada infinito, a uma noite que a cada momento escurece mais

É, primeiro, um reconhecimento de nossa culpa, de termos, como nos acusou o Louco, assassinado o Criador. Amanhã, na Sexta-Feira da Paixão, beijamos o Senhor Morto e reconhecemos que O matamos. Toda missa, aliás, começa assim, reconhecendo-nos indignos. E indignos somos, na medida em que mesmo se cada um de nós fosse crucificado, o tanto de maldades que cometemos não teria tido expiação bastante. Já no domingo, o Terceiro Dia, celebramos que nossa torpeza tenha sido respondida com amor: Ele ressuscitou. Disto, da vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, é que nos vêm os tantos símbolos de que hoje se abusa. O ovo, tal como o coelho, simboliza a vida na forma de fertilidade. Para os citadinos de hoje, que acham que os ovos nascem na geladeira do mercado para serem comidos e os coelhos da vida real são versões mais fofas do Pernalonga, pode ser necessário explicar as coisas. Juntando-se (contem a eles, por obséquio) um coelho e uma coelha e mantendo os bichinhos alimentados e sadios, é espantosa a quantidade de coelhinhos que surgirá. De duas vidas inúmeras outras surgem. Do mesmo modo, chocados pela mãe-pássaro, os ovos se abrirão para que deles nasçam outros passarinhos a enfeitar o mundo. É a vida que se perpetua, numa escala de tempo muito menor que a nossa. Enquanto via de regra só temos filhos após coisa de pelo menos duas décadas de vida, os coelhos, pássaros e inúmeros outros bichos são bisavós antes que um bebê humano da mesma idade saiba andar. Já o chocolate, doce e nutritivo, nos dá alegria e força: em outras palavras, vida.

A Páscoa é muito maior que a Sexta-Feira da Paixão, mas sem ela não ocorreria. “Feliz culpa”, canta o antigo hino, porque quando Deus Se fez homem O matamos, mas só porque Ele Se deixou matar por amor a nós. E, abrindo-nos caminho, ressuscitou e subiu aos Céus, donde há de vir em glória para julgar os vivos e os mortos.

Todos nós, ao negar em ato a Boa Nova, somos culpados do pior de todos os crimes: matar a Deus. Todos nós, contudo, somos por Ele e com Ele, nossa vítima, chamados ao arrependimento e, por tal via, à Sua misericórdia, perdão e ressurreição

Ao contrário da negação desvairada do cientificismo, isto sim é objetivo. É por ser objetiva a Boa Nova que raros foram os povos que não a abraçaram ao recebê-la. É por ser objetiva a Boa Nova que de sua negação nascem tantos e tão graves males. É, finalmente, por ser ela objetiva que ela tanto medo inspira àqueles que querem fazer o mal, matar, roubar, mentir. Foi negando-a que o comunismo ceifou tantas dezenas de milhões de vidas, que o nazismo dividiu os povos e pôs-se a assassiná-los ou escravizá-los conforme a parte que lhes coube na nefanda divisão. Sendo objetiva, ela pode também ser negada objetivamente, ou seja, em ato. Não importa que doces palavras e mentiras possam sair da boca de quem atira bombas atômicas ou mesmo “normais”, chacinando inocentes no atacado: quem o faz está negando a Vida, e negá-la, tentar sonegar-lhe a vitória, é negar a Boa Nova. Igualmente o faz quem rouba dos pobres usando o doce Nome de Deus, o nome acima de todo outro nome. Quem se aproveita de Sua santa Palavra para abusar dos menores dentre nós. Quem mente. Quem rouba. Quem trai.

Todos nós, em maior ou menor medida, na verdade, o fazemos. Todos nós, ao negar em ato a Boa Nova, somos culpados do pior de todos os crimes: matar a Deus. Todos nós, contudo, somos por Ele e com Ele, nossa vítima, chamados ao arrependimento e, por tal via, à Sua misericórdia, perdão e ressurreição. Nada disso é mensurável; tudo isso é o que de mais valioso pode haver.

Façamos de nossas orações neste santo Tríduo Pascal nossa participação objetiva, tremendamente objetiva, nesse Mistério tremendo. E assim, por nossos atos, mais que por nossas palavras, peçamos a Deus pelas tantas vítimas dos que O negam em ato nas medonhas guerras que ora assolam o mundo; peçamos-Lhe a paz, a Paz que só Ele nos pode dar.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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