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Capitães da Areia tem bons momentos, mas não dá conta da dimensão do romance

Adaptar para o cinema um romance clássico, lido por sucessivas gerações, é sempre arriscado. As comparações são inevitáveis e, com frequência, tendem a reforçar a ideia de que o livro é, invariavelmente, melhor do que o filme, salvo raras exceções. Por isso, há que se louvar a coragem de Cecília Amado ter enfrentado o desafio de transpor para a tela grande Capitães da Areia, uma das mais populares obras de seu avô, o escritor baiano Jorge Amado (1912-2001).

Publicado em 1937, Capitães da Areia retrata o cotidiano ao mesmo lúdico, violento e trágico de um bando de garotos que sobrevivem de pequenos furtos e golpes aplicados nas ruas de Salvador. Moram todos juntos nas ruínas de um casarão à beira-mar, em um lugar que chamam de Trapiche. Têm como líder o audaz Pedro Bala, que, embora seja um pequeno contraventor, tem o papel de herói do romance de Amado, que sobreviveu bastante bem ao tempo, graças à atualidade da trama, que lida com mazelas sociais que continuam a afligir o país mais de 70 anos após o lançamento da obra.

Cecília, que também é coautora do roteiro, ao lado de Hélio Fernandes, acerta, todavia, ao não trazer a trama para os dias atuais. Embora a marginalidade juvenil continue a ser um flagelo nas grandes cidades brasileiras, atualizar o enredo de Capitães da Areia forçaria os roteiristas a incluir elementos contemporâneos, como, por exemplo, o uso de drogas como crack, que talvez acabassem por roubar da história original um de seus traços fundamentais: a visão romântica, ainda que pretensamente realista, das aventuras e desventuras do bando de Pedro Bala, vivido com desenvoltura pelo adolescente Jean Luis Amorim

Divulgação
Jean Luis Amorim vive o protagonista Pedro Bala.

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O respeito da jovem cineasta pela obra do avô, entretanto, também tem lá seus efeitos colaterais. Na ânsia de não omitir subtramas, de manter em cena todos personagens centrais, o filme peca por uma certa falta de fluidez narrativa e pelo fato de algumas dessas histórias paralelas serem mal desenvolvidas, chegando até mesmo a confundir o espctador.

Exemplo disso é o golpe aplicado pelos meninos em uma abastada família soteropolitana. Um dos capitães, o amargurado Sem Pernas (Israel Gouvêa), que enfrenta dificuldades de locomoção por conta de um defeito físico, é adotado por um casal em luto depois da morte de seu único filho. Apesar de ser recebido com todo o carinho e atenção, ele só está ali para facilitar aos seus companheiros o acesso à bela mansão e seus tesouros.
O filme não consegue explicar muito bem como ou por que Sem Pernas é adotado, o que torna o episódio todo, importante dentro do enredo, bastante desconectado do resto da narrativa, parecendo um corpo estranho.

O roteiro também não consegue dar conta dos muitos integrantes da gangue que habita o Trapiche. Enquanto o precoce Gato (Paulo Abade) e seu caso de amor com a prostituta Dalva (Ana Cecília) é um dos pontos altos do filme, os conflitos internos entre os capitães, incluindo aí os relacionamentos homossexuais entre alguns do meninos, são apenas sugeridos e pouco desenvolvidos e problematizados.

A ênfase maior acaba sendo dada ao romance entre Pedro e Dora (Ana Graciela, um dos destaques do bom elenco jovem), uma garota cujos pais morrem em um surto de varíola que se abate sobre a capital baiana e a leva a ingressas na gangue.

A direção de Cecília tem bons momentos. De maneira geral, é competente seu trabalho na condução dos atores jovens, e há algumas belas cenas, sobretudo aquelas em que nada de muito importante parece estar acontecendo e os garotos aparecem em cena no seu jogo lúdico com a realidade. Pena que a onipresente trilha sonora de Carlinhos Brown, sobretudo o excesso de canções, não nos permitam que essas imagens sejam desfrutadas pelo que são, lhes conferindo sentidos desnecessários.

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