

Quem nunca sonhou em voltar ao passado? Não a tempos já vividos, mas a uma época distante, antes mesmo do nosso próprio nascimento. O filme Meia-Noite em Paris permite a Gil, o personagem de Owen Wilson, um roterista de sucesso e aspirante a romancista, a escapar de suas inúmeras frustrações cotidianas, embarcando de volta aos anos 20, quando a capital francesa, no período pós-Primeira Guerra Mundial, fervilhava.
Todos os heróis do personagem estão lá, e não apenas a flanar, mas a criar, amar, viver intensamente. Do viril e arrebatado Ernest Hemingway, sempre pronto para uma luta de boxe, a F. Scott Fitgerald, às volta com seu amor louco por sua instável mulher Zelda. Anos loucos do jazz, da poesia musical e sempre refinada de Cole Porter, do erotismo cubista de Picasso e do surrealismo de Dalí e Luis Buñuel, que ainda não havia sonhado com O Anjo Exterminador.
Erra, contudo, quem, numa leitura talvez apressada, acha que o novo filme de Woody Allen é uma ode à notalgia. Que o cineasta nova-iorquino tem fixação no passado não é novidade: A Rosa Púrpura do Cairo, A Era do Rádio, Poucas e Boas e Tiros sobre a Broadway, só para citar alguns de seus filmes “passadistas”, estão aí para provar. Mas Meia-noite em Paris parece ir na direção contrária. Mais do que um mergulho saudosista no que já foi, o filme propõe uma discussão interessante sobre, sim, uma maior compreensão do passado para o entendimento do presente. Não é mero elogio ao que já se foi.
O protagonista, que namora uma insuportável e fútil jovem (Rachel McAdams) cujos pais se orgulham de serem republicanos defensores do indefensável Tea Party, busca inspiração nos mitos do passado, na densidade de outrora, que não consegue encontrar em seu cotidiano no século 21, para perceber o que de fato deseja para seu futuro. É um filme sobre a esperança e não apenas construído em torno da constatação de que o presente é sinônimo de tédio, insatisfação e infelicidade. É, se assim quisermos.
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