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Melancolia é perturbadora alegoria sobre o mal-estar contemporâneo
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Kirsten Dunst venceu o prêmio de Melhor atriz em Cannes neste ano.

A Terra é um planeta onde o mal triunfou. Graças à pior de suas criaturas: o ser humano. Portanto, a destruição não apenas é inevitável, mas merecida. A partir dessa constatação fatalista, o dinamarquês Lars von Trier, um dos mais relevantes cineastas da atualidade, constrói o perturbador Melancolia, que entrou em cartaz neste fim de semana em Curitiba.

A primeira parte da trama gira em torno de Justine (Kirsten Dunst, melhor atriz no Festival de Cannes). Ela é uma jovem publicitária de carreira promissora, que parece ter tudo para ser feliz. É bela, talentosa e, ao que tudo indica, encontrou o homem de seus sonhos, Michael (Alexander Skarsgard, do seriado True Blood). Mas essas são apenas impressões. Superficiais e enganadoras.

Durante a sua festa de casamento, preparada diligentemente pela irmã mais velha, Claire (Charlotte Gainsbourg, de Anticristo), Justine percebe que a felicidade não lhe cai bem. E se rende a uma profunda depressão em plena festa. O surto pode ter sido precipitado pelo ceticismo em relação ao casamento e o amor, vociferado em alto e bom som pela mãe, Gaby (Charlotte Rampling, de O Porteiro da Noite). Ou agravado pela superficialidade do pai (John Hurt, de O Homem Elefante), uma figura afável, mais interessado em flertar com as convidadas do que preocupado com o estado emocional das filhas.

A hipótese mais forte, entretanto, é que a falência emocional de Justine tenha algo a ver com um fenômeno natural prestes a ocorrer – um planeta chamado Melancolia estaria se deslocando no espaço em direção da Terra, e caso a atinja, a destruirá instantaneamente. A iminente desintegração da Terra coincide com a sua.

O confronto mais profundo no belo filme de Von Trier, entretanto, se dá mesmo entre as irmãs Justine e Claire, que apesar de dependerem muito emocionalmente uma da outra, estão mergulhadas em diferenças que as fazem se amar e se odiar ao mesmo tempo.

Justine, ao assumir que a depressão faz parte do que ela é, percebe que o fim representado pelo estranho planeta, muitas vezes maior do que a Terra, também é inescapável. Mantém uma postura conformada. Já sua irmã, que tenta manter tudo sempre sob controle, aos poucos se rende ao desespero de constatar que nem tudo pode ser do jeito que espera ou deseja. E a aproximação de Melancolia, para ela, se torna uma tortura.

Ao falar de Justine e Claire, do desconforto e da dor existencial que as afligem, Von Trier cria, ao som do “Prelúdio de Amor e Morte”, da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner, uma de suas mais possantes e, ironicamente, poéticas alegorias sobre o mal-estar no mundo contemporâneo. Denuncia que a humanidade dá pistas, em vários momentos, de estar em rota de colisão consigo mesma – e em acelerado processo de autodestruição.

Melancolia não é, como a maioria dos filmes do cineasta, uma obra fácil, ou palatável ao gosto médio de quem vai ao cinema apenas em busca de diversão ligeira, mas atesta que o diretor, mesmo cometendo bobagens como se dizer “de alguma forma nazista e compreender Hitler”, afirmação que lhe custou a expulsão do Festival de Cannes neste ano, é um dos grandes e mais necessários artistas de nosso tempo.

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