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O Primo Basílio, melodrama rodrigueano

Fui assistir ao filme brasileiro O Primo Basílio, no último sábado, com um certo medo do que iria ver. Ando cansado de cinema com cara de televisão, cheio de closes e de cenas que explicam tudo, deixando pouco para a imaginação do espectador. Para minha surpresa, o longa-metragem de Daniel Filho baseado na obra de Eça de Queiroz não é tão ruim quanto eu imaginava.

Embora tenha os vícios de uma produção que pretende atingir o chamado “grande público”, usando e abusando de uma linguagem que o aproxima muito das telenovelas e das minisséries, O Primo Basílio tem charme.

Ao transpor a ação da Lisboa do século 19 para a São Paulo dos anos 50, e mergulhar o enredo em um molho assumidamente temperado com generosas pitadas de Nelson Rodrigues, o diretor acerta em vários momentos.

Numa época de transformações, o que se vê na tela é um país com sede de futuro, simbolizado pela construção de Brasília. Os personagens centrais, contaminados talvez pelo desenvolvimentismo pregado e semeado pelo presidente Bossa Nova, Juscelino Kubitschek, se comportam como astros de cinema, apostando no glamour. Isso funciona. Assim como a química entre Débora Falabella, a protagonista, uma mulher atormentada pela culpa do adultério, e Fábio Assunção, o personagem-título, um cafajeste cheio de charme, sem pudor de seduzir a prima casada.

Outro ponto alto do elenco é a pequena e explosiva participação da curitibana Simone Spoladore, sensual, engraçada e exuberante como a melhor amiga da personagem central, uma mulher que não tem vergonha de seus desejos, de sua sexualidade. Linda, Simone parece uma estrela do cinema italiano dos anos 50, à la Sofia Loren e Silvana Mangano.

Como Daniel Filho optou por fazer um melodrama, é natural que o filme seja descaradamente excessivo no âmbito das emoções. Tudo é exacerbado: desejo, dor, culpa, amor e ódio. Até aí, tudo bem. É uma escolha até corajosa e, em alguns momentos, muito bem aproveitada.

O problema é que a música, elemento essencial ao gênero melodramático, acaba atrapalhando – e muito. Assinada por Guto Graça Mello (outro global), não está à altura da trama. Excutada com sintetizadores, é uma trilha sonora genérica, sem imaginação e, invés de reforçar as emoções da história, irrita, distraindo o público.

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