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Células T atacam antígenos e protegem o organismo..
Célula T (vermelho) interagindo com célula infectada por antígeno (azul).| Foto: National Institute of Allergy and Infectious Diseases/EUA

Estudos para impedir a ação do novo coronavírus no organismo humano estão sendo realizados em todo o mundo em grande velocidade. Centenas de centros de pesquisas e milhares de cientistas buscam caminhos diversos, como vacinas eficazes contra o Sars-Cov-2, produção de medicamentos (antivirais) ou identificação de um anticorpo capaz de neutralizar o vírus. Nesse emaranhado de trilhas, uma nova pista surgiu recentemente e abriu horizontes promissores: as células T, cientificamente chamadas de linfócitos T.

Os linfócitos T ou células T são células do sistema imunológico responsáveis pela defesa do organismo contra agentes desconhecidos (antígenos). Em uma explicação simples, pode-se dizer que as células T são divididas em dois grupos: "auxiliares" e "assassinas". As primeiras têm como função estimular a ação de produção de anticorpos. Já as "assassinas" se dedicam a destruir células infectadas pelo patógeno que está sendo combatido.

Na última semana, pelo menos três estudos envolvendo células T animaram a comunidade científica mundial. Até então, não estava clara a importância das células T na luta contra o novo coronavírus. Agora, os cientistas comprovaram que pessoas infectadas abrigam células T direcionadas ao vírus, ou seja, o organismo produz células T destinadas especificamente a combater o Sars-Cov-2.

Um dos estudos, conduzido por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Imunologia La Jolla, na Califórnia (EUA), constatou que indivíduos que tiveram covid-19 e recuperaram a saúde – sem precisar de hospitalização – produziram uma “resposta robusta” em células imunes, as chamadas células T.

Imagem do Sars-Cov-2  captada por microscópio eletrônico.
Imagem do Sars-Cov-2 captada por microscópio eletrônico.| National Institute of Health (NIH)

A pesquisa revelou que, de um grupo de 20 pessoas que haviam se recuperado do covid-19 sem desenvolver o estado grave da doença, 70% tinham células T assassinas e 100% tinham células T auxiliares.

Alessandro Sette e Shane Crotty, que lideraram os estudos, ressaltam no relatório que foi encontrada uma forte resposta das células T à proteína "spike", a qual o vírus usa para se ligar e infectar as células. "O sistema imunológico vê esse vírus e monta uma resposta imunológica eficaz", relatou Sette.

Os resultados coincidem com os de uma pesquisa realizada por uma equipe do Hospital Universitário Charité, em Berlim (Alemanha), liderada pelo imunologista Andreas Thiel. O estudo, publicado no medRxiv, em 22 de abril, identificou células T auxiliares direcionadas à proteína “spike” em 15 dos 18 pacientes com covid-19.

Um terceiro estudo, feito por cientistas do Instituto Francis Crick, em Londres, examinou as células imunes no sangue de 60 pacientes graves de covid-19. Os pesquisadores descobriram uma aparente queda no número de células T, o que se pode deduzir que os pacientes chegaram ao estado grave da doença por terem baixo número de células relacionadas ao combate ao vírus.

Antes desses estudos, os pesquisadores não sabiam se as células T tinham um papel na eliminação do Sars-Cov-2 ou se poderiam provocar uma reação exagerada do sistema imunológico.

Células T atacam célula cancerígena
Grupo de células T assassinas (verde e vermelho) ao redor de uma célula cancerígena (azul, centro).| Alex Ritter, Jennifer Lippincott Schwartz and Gillian Griffiths/National Institute of Health

Outra descoberta importante dos estudos realizados na Califórnia e em Berlim é a presença de células T que podem combater o Sars-Cov-2 em pessoas que não tiveram a doença covid-19. A equipe do Hospital Universitário Charité analisou o sangue de 68 pessoas não infectadas e descobriu que 34% hospedavam células T auxiliares que reconheciam o Sars-CoV-2. Já os cientistas de La Jolla estudaram amostras de sangue coletadas entre 2015 e 2018, muito antes do início da atual pandemia, e detectaram essas células T auxiliares reativas em cerca de metade delas.

Diante desses resultados, os pesquisadores acreditam que essas células provavelmente foram desencadeadas por infecções passadas provocadas por um dos quatro coronavírus humanos que causam resfriados. As proteínas desses vírus se assemelham às do Sars-Cov-2. Poderia estar aí a explicação para o fato de algumas pessoas infectadas pelo novo coronavírus praticamente não apresentarem ou terem sintomas leves da covid-19.

Já os cientistas do estudo realizado no Reino Unido preveem começar a testar um tratamento, o qual possa combater os efeitos da covid-19 nos pacientes mais graves, que possuem baixo número de células T. O ensaio clínico avaliará se o medicamento chamado interleucina 7, conhecido por aumentar o número de células T, pode ajudar na recuperação dos pacientes.

Além das células T, avanço em vacinas e medicamentos

Nas últimas semanas foram registrados avanços importantes em pesquisas que buscam vacinas ou medicamentos contra o novo coronavírus.

Depois do anúncio da empresa norte-americana de biotecnologia Moderna, que testou uma vacina em humanos, foi a vez da Universidade de Oxford anunciar que vai recrutar 10 mil voluntários para a segunda etapa de testes de sua vacina.

A faixa etária das pessoas que serão testadas com a vacina vai incluir os grupos de 56-69 anos, pessoas com mais de 70 anos e entre 5 e 12 anos. Esses grupos não participaram da primeira fase de testes.

Na China, além de uma vacina, pesquisadores disseram ter conseguido bons resultados com um medicamento (antiviral) no combate ao coronavírus. A vacina chinesa teve seus resultados publicados no periódico científico The Lancet. A vacina foi testada em 108 pessoas, divididas em três grupos. Segundo os pesquisadores, gerou um aumento “significativo” de anticorpos contra o novo coronavírus. O estudo é assinado por 21 pesquisadores chineses.

Laboratório na CanSino Biologics, em Tianjin, China.
Laboratório na CanSino Biologics, em Tianjin, China.| Divulgação

Quanto ao medicamento, pesquisadores anunciaram que um medicamento em fase de testes na Universidade de Pequim permitiria não apenas acelerar a cura dos doentes, mas também imunizar temporariamente contra a covid-19.

De acordo com o diretor do Centro de Inovação Avançada em Genômica de Beida, Sunney Xie, o tratamento foi testado e aprovado em camundongos. “Após cinco dias (que os roedores receberam o medicamento), sua carga viral foi dividida por 2.500. Isso significa que esse medicamento em potencial tem um efeito terapêutico”, assegurou.

Em Boston (EUA), cientistas do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em parceria com a empresa americana Johnson & Johnson, descobriram que uma vacina é capaz de proteger macacos contra a infecção pelo novo coronavírus. A pesquisa, publicada na revista Science, indica que é possível a criação de uma vacina contra o novo coronavírus que funcione em humanos.

Em outro front, um time de pesquisadores de três institutos europeus e um americano disseram ter encontrado um anticorpo que pode neutralizar o Sars-Cov-2 e também a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), vírus que pertence à mesma família do novo coronavírus. A descoberta foi publicada na revista científica Nature. O anticorpo, chamado S309, foi encontrado em uma amostra de sangue de um paciente que se recuperou da Sars, em 2004.

Atualmente, mais de 100 vacinas estão sendo desenvolvidas na tentativa de aniquilar o novo coronavírus. Também está sendo estudados mais de 200 medicamentos, novos e que já são usados para outras doenças.

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