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Como estrategista de comunicação, uma das áreas em que mais trabalho é a análise de discurso. Não se trata de julgar intenções nem de discutir se alguém está “certo” ou “errado”, mas de observar como as palavras são organizadas para produzir determinados efeitos políticos, simbólicos e emocionais.
É por esse ângulo específico que vale olhar os primeiros pronunciamentos da deputada Erika Hilton após assumir a presidência da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados.
O primeiro post de Erika Hilton foi o seguinte:
“Hoje dei mais um passo na reparação da minha própria história e também na reparação da história de tantas mulheres que tiveram suas dignidades negadas.
Porque não é apenas a questão trans que determina como uma mulher será tratada ou destratada. A raça, a classe, o CEP e tantas outras condições ainda definem quem tem direitos garantidos e quem precisa lutar todos os dias para existir com dignidade.
Por isso, hoje ocupei com honra, alegria e um sabor muito especial de vitória a presidência da Comissão da Mulher (uma vitória construída enfrentando e derrotando o centrão e a extrema direita).
E não estou nem um pouco preocupada se o esgoto da sociedade não gostou.
A opinião de transfóbicos e imbeCIS é a última coisa que me importa.
Hoje fiz história por mim, que tive minha adolescência e minha dignidade roubada pelo preconceito e discriminação.
Hoje fiz história pela minha comunidade, que ainda enfrenta os piores índices em praticamente todos os aspectos da vida social.
E é isso que vai ficar: não o ódio, não o ranço, não a raiva dos que tentam nos apagar.
Podem espernear. Podem latir.
Eu sou a presidenta da Comissão da Mulher.
E foi a minha luta, a minha história e a minha garra que me trouxeram até aqui.
E agora faremos um debate sobre todas as mulheres porque somente unidas podemos frear a violência que nos assola.”
O segundo pronunciamento veio após comentários feitos pelo apresentador Ratinho sobre a presença de uma mulher trans na presidência da Comissão da Mulher:
“Sim, estou processando o apresentador Ratinho.
Sei que, pela audiência irrisória de seu programa, que até onde sei não agrada nem suas chefes no SBT, lhe resta apelar à violência.
Porque o que o apresentador cometeu foi uma violência, um ataque, e não foi só contra mim.
Ratinho interrompeu seu programa pra dizer que mulheres trans não são mulheres, que mulheres que não menstruam não são mulheres, que mulheres que não têm útero não são mulheres e que mulheres que não têm filhos não são mulheres.
Este ataque de Ratinho foi contra todas as mulheres trans e contra todas as mulheres cis que não menstruam mais ou nunca menstruaram.
Foi contra todas as mulheres cis que nunca tiveram útero ou, por condições de saúde, como o câncer, precisaram removê-lo.
Foi contra todas as mulheres que não podem ou não querem ter filhos.
Foi contra as mulheres que perderam seus filhos ainda na gestação.
O discurso de Ratinho foi, sim, para me atacar e atacar as pessoas trans. Mas demonstrou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo.
E, para ele, mulheres são máquinas de reprodução.
Eu quase me surpreendi ao assistir a um raciocínio tão retrógrado.
Mas aí lembrei das notícias reportando que, em 2016, 128 anos depois da abolição da escravatura, Ratinho submetia pessoas à escravidão em suas fazendas no Paraná.
E o apresentador pode até querer viver nesse passado, dentro de sua cabeça. Se a preocupação com as denúncias que farei contra um escândalo envolvendo o seu filho e o crime de estupro de vulnerável mais tarde não ocupar toda a sua capacidade cerebral, é claro.
Mas aqui fora, no mundo real, ele e o SBT pagarão pelos seus atos, na esfera cível e criminal. E eles não pagarão a mim, mas a todas as mulheres vítimas de violência, trans e cis.
Por fim, vale lembrar: eu sou e sempre serei uma mulher. Este apresentador é, e sempre será, um rato.”
Analisados do ponto de vista da estratégia discursiva, os dois textos de Erika Hilton seguem uma lógica muito clara.
O primeiro movimento é transformar a ocupação de um cargo institucional em narrativa biográfica. A presidência da Comissão da Mulher aparece como “reparação da própria história” e “reparação da história de tantas mulheres”. O cargo deixa de ser apresentado como função de representação plural e passa a ser narrado como vitória pessoal e simbólica.
Em seguida vem a ampliação da narrativa para uma estrutura interseccional. A questão trans é apresentada como parte de um conjunto mais amplo de opressões envolvendo raça, classe e território. Esse recurso tem a função de transformar um evento específico em símbolo de transformação social mais abrangente.
O terceiro elemento presente nos dois textos é a deslegitimação do adversário. No primeiro post aparecem expressões como “esgoto da sociedade” e a metáfora “podem latir”. No segundo texto, o adversário passa a ser descrito como “figura nojenta” e é animalizado na frase final. Esse tipo de linguagem cumpre uma função clara na comunicação política contemporânea: retirar o oponente do campo da disputa racional e colocá-lo no campo da degradação moral.
Outro elemento importante é a expansão da vítima. No episódio envolvendo Ratinho, uma afirmação sobre definição de mulher baseada em sexo biológico é reinterpretada por Erika Hilton como ataque contra uma série de grupos: mulheres trans, mulheres sem útero, mulheres que não menstruam, mulheres que não podem ou não querem ter filhos e mulheres que perderam filhos. Essa expansão amplia o alcance emocional da narrativa e transforma um conflito individual em conflito coletivo.
Há ainda um ponto conceitual relevante no uso do termo “cis”. No primeiro texto de Erika Hilton aparece a expressão “imbeCIS”, em que o marcador de identidade é transformado em insulto. Esse uso parte de uma premissa ideológica específica: a ideia de que mulheres que não são trans precisam ser classificadas como “cisgênero”. O problema é que essa classificação não nasce de um consenso científico ou filosófico, mas de uma construção militante recente que tenta redefinir categorias biológicas consolidadas.
Já escrevi sobre esse fenômeno em outra coluna publicada na Gazeta do Povo, intitulada “Cancelamento por ‘transfobia’ do prof. Miskolci gera movimento pela liberdade de cátedra”. Na ocasião, mostrei como a introdução de conceitos como “cisgênero” funciona como ferramenta de coerção discursiva. Quem se recusa a adotar essa terminologia passa automaticamente a ser enquadrado como transfóbico, mesmo quando está apenas defendendo uma definição baseada em sexo biológico.
Esse uso do conceito produz um efeito curioso. Em vez de ampliar o debate, ele o restringe. A discussão deixa de ser sobre políticas públicas e passa a ser sobre fidelidade a um vocabulário ideológico específico.
Quando se observam os dois pronunciamentos de Erika Hilton em conjunto, aparece um padrão discursivo bastante consistente: narrativa biográfica como fonte de legitimidade, ampliação simbólica da vítima, deslegitimação moral do adversário e uso de categorias identitárias como eixo central da argumentação.
Independentemente das posições políticas de cada leitor, esses elementos ajudam a entender como o debate contemporâneo sobre gênero tem sido conduzido no espaço público brasileiro. Em vez de discutir conceitos, evidências ou políticas públicas concretas, a disputa frequentemente se desloca para o terreno da linguagem, onde quem controla as palavras tenta controlar também os limites do debate.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos









