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Nise Yamaguchi foi a vítima da vez. É mais uma mulher a sofrer com o machismo, a falta de educação e a arrogância daquele grupo de senadores da CPI da Covid que não quer investigar nada, apenas tentar a todo custo tirar uma frase, um mísero depoimento que seja para confirmar a tese pré-concebida de que o presidente Bolsonaro é o responsável pelas mortes de Covid-19 no Brasil.

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Até parece que no resto do mundo não há um vírus mortal em circulação. Até parece que não houve desvios de dinheiro da Saúde nos estados e municípios, já largamente expostos pelas investigações da polícia federal e do Ministério Público.

Os senadores insistem que o culpado é o presidente e voltam sua verve inquisitória contra médicos que, onde já se viu, decidiram tratar seus pacientes logo nos primeiros sintomas com os remédios disponíveis no mercado.

Gente inconsequente assim, que não entende que o correto é largar os pacientes à própria sorte com um comprimidinho para dor de cabeça e a orientação para ficar em casa até ter falta de ar, merece ser mesmo ser jogada aos leões (no caso, às hienas do Senado). E foi o que aconteceu com a Dra. Nise Yamaguchi nesta terça (1).

Nise Yamaguchi, os machistas do Senado e o duplo padrão das feministas

Não imaginei que precisaria voltar tão cedo ao tema do abuso de senadores metidos a delegados quando têm diante de si uma mulher, mas aconteceu de novo. Apenas uma semana depois de vermos a Dra. Mayra Pinheiro passar horas sendo interrompida pelos machos do Senado, a filha de imigrantes japoneses, de fala mansa e currículo extenso, foi tratada como se fosse uma criminosa pega em flagrante delito.

Não há como se calar diante dos absurdos daquela inquisição acusatória contra a médica oncologista e imunologista, com 40 anos de serviços prestados ao tratamento de pacientes (mais de 15 mil atendidos), vasta experiência acadêmica internacional e reconhecimento também com pesquisadora, com doutorado em biologia molecular.

E bato de novo em outra tecla: a da falta de empatia da turma que finge defender mulheres vítimas de qualquer tipo de agressão. Essas pessoas não só não defenderam a Dra. Nise, como partiram também para o ataque, reforçando o deboche nas redes sociais, exatamente como já tinham feito com a Dra. Mayra Pinheiro na semana passada.

A exceção foram duas senadoras de oposição ao governo e ao tratamento precoce defendido pela Dra. Nise, que se manifestaram diante de uma das sequências de interrupções bruscas no depoimento. Eliziane Gama (Cidadania-MA) e Leila Barros (PSB-DF) reclamaram que a médica não conseguia concluir um único raciocínio e que homens não eram tratados dessa forma na CPI.

Se para as feministas em geral o que vem acontecendo na CPI da Covid pouco importa, para milhares de mulheres que não se sentem representadas pelo discurso rancoroso dessas falsas defensoras das causas femininas, importa.

O bordão “mexeu com uma, mexeu com todas” pode estar esquecido pelas adeptas do feminismo seletivo, mas é nessas horas que precisa ser lembrado pelo maior número possível de mulheres.

É triste ver mais um episódio de machismo explícito no Senado, a suposta casa da temperança, onde deveriam estar parlamentares preparados e ciosos de sua responsabilidade de representar não apenas pessoas, mas os entes federativos.

É também lamentável ver os senadores desperdiçando uma chance única de apurar corrupção nos governos estaduais e municipais, enquanto tentam sustentar narrativas que interferem na autonomia médica e na relação médico-paciente, algo que está fora da alçada legislativa.

Abusos e esclarecimentos

No vídeo que acompanha este artigo juntei trechos da famigerada sessão de terça-feira na CPI da Covid para ir pontuando as tentativas de alguns senadores de impedir que a Dra. Nise Yamaguchi compartilhasse um pouco do muito que estudou e sabe sobre Covid-19.

Fiz questão também de dar voz a esta médica que já foi chamada a ajudar ministros da Saúde dos governos FHC e Lula, antes de ser convidada pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, do atual governo Bolsonaro, para compartilhar sua experiência clínica tratando doentes graves e salvando vidas durante a pandemia.

Não vou transcrever trechos do depoimento, porque este é realmente o tipo de assunto que precisa ser visto e ouvido para ser melhor compreendido. Prepare o estômago, porque a atitude de alguns senadores chega a causar náuseas.

Há também algumas falas sem interrupção. Deixei fluir no vídeo os raros momentos em que a Dra. Nise Yamaguchi conseguiu falar. Assim a voz desta profissional, que vem salvando tantas vidas, chega ao maior número possível de brasileiros.

Para assistir ao vídeo basta clicar no play da imagem no topo da página. Como degustação destaco uma fala em tom de desabafo do presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM). Ele é um dos que costumeiramente ajudam a criar um clima hostil nos interrogatórios, mas não gostou de ver a interrupção brusca já na primeira resposta da depoente.

"Desse jeito o Brasil tá lascado, 'mermão'."

Senador Omar Aziz, pres. CPI da Covid, na sessão em 1 de junho

Veja com seus próprios olhos a petulância do senador Otto Alencar (PSD-BA) querendo dar um de professor em dia de prova oral, ignorando as respostas que a “aluna” Yamaguchi dava e, no fim, respondendo ele próprio o que havia perguntando (repetindo a resposta dada por ela três vezes seguidas antes) e ainda dizendo: “a senhora não sabe a resposta”. Ridículo é pouco para definir a cena.

Não à toa o movimento Médicos Pela Vida e o Conselho Federal de Medicina divulgaram cartas de repúdio ao tratamento dado à Dra. Nise Yamaguchi na sessão que abriu os trabalhos da CPI neste mês de junho. E os assinantes da Gazeta do Povo também externaram sua revolta com veemência.

"Eu vivi para ver uma mulher com currículo invejável, dando um show de educação, calando a boca de muito marmanjo metido a ‘dotô’."

Assinante da Gazeta do Povo

"Paciência e estômago para suportar tanta cretinice. Ver uma médica do nível dela ser emparedada por gente dessa estirpe é constrangedor. Alguns chamam de circo, mas seria uma tremenda injustiça com os representantes de um segmento artístico tão valioso", escreveu outro assinante na área de comentários de uma reportagem sobre a CPI.

"Mais um dia de vergonha para os inquisidores. Falta o quê para esses palhaços saírem do picadeiro?", perguntou um terceiro, bastante indignado. Deixe você também sua opinião sobre a postura dos senadores e participe do debate. A minha está toda externada no vídeo acima.

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