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“Olha a cara dele. Cara de 171.” A frase foi pronunciada nesta semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, ao se referir ao pastor André Valadão. Lula falava sobre um vídeo de Fábio Porchat envolvendo o Banco Master, políticos e a Igreja Batista da Lagoinha. Na sequência, vieram referências aos que pregam “em nome de Deus” e as expressões “lavador de dinheiro” e “bandido contumaz”.
Não se trata de conceder a André Valadão, ou a qualquer liderança religiosa, proteção contra crítica ou investigação. Pastor algum possui imunidade penal e igreja alguma está acima da lei. Havendo crime, deve haver investigação, prova, processo e responsabilização. O problema começa justamente quando esse caminho é encurtado e a suspeita passa a ser construída por imagens, associações e impressões. O Estado de Direito existe para que ninguém responda pela cara que tem, pela igreja que frequenta ou pela impressão que uma autoridade pública forma a seu respeito.
A fala política, porém, não funciona como uma conversa comum. Ela é, por natureza, uma linguagem de projeção. Simplifica ideias complexas, acentua contrastes, cria antagonismos e frequentemente recorre à hipérbole para fixar uma imagem. Quem vive profissionalmente da política conhece esse código e sabe operar suas categorias. O cidadão que recebe a mensagem, no entanto, não necessariamente refaz esse percurso intelectual. Entre a intenção do emissor e a compreensão do receptor existe uma diferença decisiva: muitas vezes, o que permanece não é o argumento, mas a imagem.
“Cara de 171” é particularmente expressivo por isso. Não oferece fatos para serem examinados, documentos para serem confrontados ou argumentos para serem refutados. Convida o público a reconhecer um tipo. A suspeita deixa de decorrer da conduta e parece aderir à própria pessoa. E quando, na mesma construção, aparecem igreja, pastor, pregação em nome de Deus, lavagem de dinheiro e criminalidade, as palavras passam a produzir associações que podem sobreviver muito além do palanque em que foram pronunciadas.
Há uma crescente disponibilidade da identidade evangélica como categoria útil para interpretar negativamente pessoas, relações e comportamentos públicos
Esse episódio seria apenas mais uma grosseria de campanha não fossem alguns acontecimentos das últimas semanas. Já tratamos nesta coluna do relatório interno da Polícia Federal utilizado por Alexandre de Moraes na controvérsia com André Mendonça. O material, classificado como de baixa confiança e sem valor probatório, chegou a utilizar a existência de uma “matriz religiosa comum” entre Mendonça e Jorge Messias para formular hipóteses sobre a atuação de ambos. A inserção dos dois no ambiente evangélico também apareceu no raciocínio. Mendonça qualificou como imprópria a tentativa de interpretar decisões institucionais a partir da fé compartilhada.
Poucos dias depois, no duro embate ocorrido dentro do Supremo, a religiosidade de Mendonça voltou a circundar o conflito. A questão aqui não é somar episódios diferentes para fabricar uma teoria de perseguição coordenada. Não há elementos para isso. O que merece atenção é outra coisa: a crescente disponibilidade da identidade evangélica como categoria útil para interpretar negativamente pessoas, relações e comportamentos públicos.
Há uma diferença profunda entre investigar alguém que é evangélico e começar a interpretar alguém também porque é evangélico. No primeiro caso, a religião é apenas uma característica da pessoa e não interessa à investigação. No segundo, ela começa a funcionar como marcador. Igreja grande, pastor, dinheiro, influência, articulação política, poder: nenhuma dessas palavras conduz necessariamente à seguinte, mas sua repetição em conjunto pode sedimentar um personagem social facilmente reconhecível.
Nesta mesma semana, outro episódio revelou a operação em sentido inverso. Circulou nas redes a afirmação de que Flávio Bolsonaro, caso eleito presidente, pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. Não havia declaração ou proposta do candidato nesse sentido, e ele veio a público negar a informação.
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O caso é especialmente interessante porque desloca a perspectiva. Já não se trata de apresentar o evangélico como alguém de quem se deve suspeitar, mas de apresentá-lo como alguém de quem outro grupo religioso deveria ter medo. A mensagem implícita é simples e emocionalmente eficiente: se eles chegarem ao poder, aquilo que é sagrado para você estará ameaçado.
A informação pode ser desmentida depois. O problema é que imagens políticas têm uma velocidade que a correção factual raramente acompanha. A mentira não precisa sobreviver intelectualmente para produzir efeito; às vezes basta deixar uma impressão. E é justamente aí que “cara de 171” e a falsa ameaça a Nossa Senhora Aparecida, embora completamente diferentes em origem e conteúdo, revelam algo semelhante sobre o momento político: primeiro instala-se uma associação emocional, depois os fatos precisam correr atrás dela.
Talvez estejamos, portanto, fazendo a pergunta errada quando discutimos simplesmente se há religião demais na política. Nesta eleição, deveríamos observar também o movimento inverso: quanto a política está utilizando a religião para organizar suspeitas, identidades e medos.
A contradição é evidente. Frequentemente se diz que igrejas e lideranças religiosas deveriam manter distância da política. Ao mesmo tempo, a própria política não demonstra constrangimento em mobilizar identidades religiosas quando elas servem para enquadrar adversários ou sensibilizar eleitores. A religião parece inconveniente quando entra pela porta da frente, como convicção legítima do cidadão, mas extremamente útil quando entra pela porta dos fundos, como instrumento de classificação eleitoral.
Políticos não demonstram constrangimento em mobilizar identidades religiosas quando elas servem para enquadrar adversários ou sensibilizar eleitores
Esse paradoxo se torna mais visível à medida que cresce a presença pública dos evangélicos brasileiros. Durante muito tempo, pareceu existir um espaço relativamente confortável reservado às igrejas. O pastor podia falar de família, dependência química, pobreza, recuperação de pessoas e sofrimento; podia manter projetos sociais, visitar presídios e alcançar populações às quais frequentemente o próprio Estado não chegava. A tensão aumenta quando esse mesmo pastor passa a falar sobre as decisões políticas relacionadas a esses temas.
Quando discute legislação, Supremo Tribunal Federal, políticas públicas, drogas, aborto, educação, liberdade de expressão ou funcionamento das instituições, surge rapidamente a pergunta: por que a igreja está se metendo em política? Forma-se uma curiosa cidadania pela metade, na qual o religioso é bem-vindo para lidar com as consequências dos problemas sociais, mas sua legitimidade passa a ser questionada quando pretende participar da discussão sobre as decisões públicas que os enfrentam.
Isso revela uma concepção bastante pobre de democracia. Ela lembra o antigo programa Você Decide: a história era construída, os personagens eram apresentados, o conflito vinha enquadrado e, somente no final, o público recebia o direito de escolher o desfecho. Funcionava como entretenimento. Como modelo de cidadania, seria insuficiente.
Democracia não consiste apenas em chegar ao dia 4 de outubro, entrar numa cabine e escolher entre alternativas formuladas por outros. A urna é essencial, mas representa a culminância de um processo que começou muito antes. Existe uma disputa anterior pelas ideias, prioridades, conceitos e palavras com que uma sociedade compreende seus problemas. Cidadania plena significa também participar dessa construção.
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Talvez seja justamente essa transformação que o Brasil ainda esteja aprendendo a assimilar. Os evangélicos deixaram de ocupar apenas o lugar de um grande contingente eleitoral e passaram a exercer presença organizada na esfera pública. Produzem universidades, editoras, organizações sociais, associações profissionais, veículos de comunicação, juristas, intelectuais e lideranças políticas. Acompanham julgamentos, discutem projetos de lei, organizam movimentos e apresentam suas próprias concepções sobre o país.
Como qualquer grupo humano, tem maus líderes, oportunistas, contradições e divergências internas. A democracia não exige idealizar um segmento para reconhecer sua cidadania. Exige apenas aplicar a ele os mesmos critérios utilizados para todos.
Por isso também merece revisão a caricatura do evangélico como eleitor necessariamente manipulável por seu pastor. Pessoas formam suas convicções a partir de múltiplas influências. Professores influenciam. Jornais influenciam. Sindicatos, artistas, movimentos sociais, famílias e influenciadores influenciam. Uma comunidade religiosa evidentemente também influencia seus membros. Influência, contudo, não equivale a supressão da vontade. O direito deve enfrentar coação e abuso onde existirem, não presumir incapacidade do cidadão religioso.
Ninguém exige que o liberal abandone sua concepção de liberdade antes de discutir economia, que o sindicalista suspenda sua visão sobre relações de trabalho antes de falar de legislação ou que o ambientalista deixe sua compreensão da natureza na porta do Congresso. Seria estranho imaginar que justamente a convicção religiosa fosse a única matriz de pensamento obrigada a esconder sua genealogia para ser considerada legítima no debate público.
É perigoso quando a identidade religiosa passa a servir tanto para produzir suspeita quanto para fabricar medo
É aqui que a compreensão brasileira da laicidade se torna decisiva. Estado laico não é um Estado encarregado de esvaziar religiosamente seus cidadãos antes de permitir que ingressem na praça pública. Nosso modelo exige um Estado imparcial: ele não adere a uma confissão, não discrimina entre crenças e assegura que religiosos e não religiosos participem da sociedade em igualdade de condições. Na laicidade colaborativa brasileira, separação, liberdade, benevolência, colaboração e igual consideração convivem porque separar Estado e religião jamais significou separar o cidadão de sua consciência.
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida ajuda a perceber algo ainda mais importante. Uma democracia religiosamente plural não pode ser construída sobre a ideia de que a liberdade de uma comunidade depende da derrota da outra. O crescimento político de evangélicos não ameaça, por si mesmo, a liberdade dos católicos; a presença histórica do catolicismo não diminui os direitos dos evangélicos; e nenhum desses grupos precisa perder espaço para que judeus, muçulmanos, espíritas ou religiões de matriz africana tenham sua liberdade plenamente protegida. A lógica constitucional não é de guerra por território religioso, mas de igual consideração.
Por isso é perigoso quando a identidade religiosa passa a servir tanto para produzir suspeita quanto para fabricar medo. De um lado, o evangélico pode ser progressivamente apresentado como alguém ligado a poder, dinheiro, articulação e interesses obscuros. De outro, pode ser apresentado aos demais como ameaça às suas próprias tradições religiosas. Nos dois casos, deixa de ser percebido primeiro como cidadão e passa a ser enquadrado como categoria. E categorias políticas, quando repetidas, ganham vida própria.
É precisamente por isso que as palavras de autoridades importam tanto. O político pode saber que está exagerando, provocando ou buscando um efeito momentâneo. O cidadão que recebe um corte de 20 segundos no celular talvez não faça essa engenharia reversa. Ele guarda a imagem. Assim se constrói um estigma sem que ninguém precise algum dia anunciar formalmente sua existência.
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Falta pouco mais de uma semana para o primeiro turno. No dia 4 de outubro, milhões de evangélicos votarão à direita, à esquerda e ao centro. Alguns acompanharão posições de suas lideranças; outros discordarão delas. Católicos farão o mesmo. Assim também brasileiros de outras religiões e aqueles que não professam fé alguma. Isso é pluralismo, não uma anomalia a ser corrigida.
Os evangélicos não devem ser subestimados, e muito menos infantilizados. Não porque constituam um exército eleitoral homogêneo a ser temido ou cortejado, mas porque são cidadãos capazes de perceber quando são tratados como participantes da democracia e quando passam a ser tratados como objeto de enquadramento, manipulação ou suspeição.
Talvez seja esta a questão que sobreviverá às eleições. Não basta admitir o cidadão religioso silenciosamente na cabine eleitoral enquanto se olha com desconfiança para sua participação na conversa que antecede o voto. A Constituição não lhe concedeu apenas o direito de escolher entre projetos formulados por terceiros. Concedeu-lhe cidadania plena, inclusive o direito de ajudar a formulá-los.
Uma democracia não pode ser um grande Você Decide, no qual alguns escrevem o roteiro, escolhem os personagens e definem previamente o conflito para, no último capítulo, entregar ao povo apenas o controle remoto. Se o cidadão religioso é suficientemente adulto para decidir o destino do país no dia 4 de outubro, deve ser considerado igualmente adulto para participar da construção das ideias que estarão na urna quando esse dia chegar.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Jean Marques Regina é mestre em Direito Político e Econômico e pós-graduado em Liberdade Religiosa e Teologia. Advoga para milhares de igrejas no Brasil e coautor de obras sobre Direito Religioso. É advogado aliado da Alliance Defending Freedom International, conselheiro do Acton Institute (EUA) e 1.º vice-presidente de Relações Institucionais do IBDR. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

Thiago Rafael Vieira é doutor e mestre em Direito Político e Econômico, pós-graduado em Direito do Estado, Liberdade Religiosa e Teologia. Coautor de mais de 10 obras, preside o IBDR e atua como advogado aliado da Alliance Defending Freedom International. É coordenador e professor em pós-graduações no Brasil e subcoordenador em curso na Universidade Autônoma de Madri. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




