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Há semanas em que o Brasil parece caber inteiro dentro de uma urna eletrônica. Pesquisa sobe, pesquisa desce, candidato fala, adversário responde, marqueteiro interpreta. Descobrimos como votam os homens, as mulheres, os jovens, os velhos, os evangélicos, os católicos e cada faixa de renda. Daqui a pouco saberemos até a intenção de voto dos canhotos que tomam café sem açúcar.
É o rito da temporada. Faz parte da democracia e, confesso, gosto demais de política para fingir indiferença. Mas há momentos em que convém levantar os olhos da urna. O fim de semana da Independência é um deles.
Antes de perguntarmos quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos, talvez valha uma pergunta anterior: que Brasil é esse que todos estão tão empenhados em governar?
Uma nação não nasce quando alguém assina um decreto. Antes de existir juridicamente, ela já existe na língua, nos hábitos, nas histórias que os avós contam, nos mortos que enterramos, nos nomes que damos aos filhos, nas festas, nas culpas, nas esperanças e, sobretudo, naquilo que um povo aprendeu a amar.
Em algum momento, parte da elite brasileira passou a imaginar que, para modernizar o país, era preciso também corrigir a alma brasileira
Independência, nesse sentido, não é apenas deixar de obedecer a outro governo. É o momento em que uma comunidade histórica reconhece em si mesma algo suficientemente próprio para reivindicar o direito de seguir seu caminho. Foi isso que ocorreu em 1822.
E talvez seja útil repetir uma obviedade que nossa memória republicana conseguiu embaralhar razoavelmente bem: a Independência não criou a República. O Brasil tornou-se soberano como monarquia e permaneceu assim durante 67 anos. A República viria apenas em 1889, em outro contexto, conduzida por outros homens e embalada por outras ideias.
Não tenho nostalgia infantil do Império. A escravidão, mantida entre nós até uma data moralmente escandalosa, basta para impedir qualquer retrato excessivamente romântico. O padroado e o regalismo também produziram interferências do poder político na religião que uma concepção madura de liberdade não deveria admitir. Minha melancolia com 1889 é outra.
Em algum momento, parte da elite brasileira passou a imaginar que, para modernizar o país, era preciso também corrigir a alma brasileira. É nessa história que entra Auguste Comte.
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Comte viveu numa França que ainda tentava compreender o que sobrara depois da Revolução, do Terror, de Napoleão e de sucessivas tentativas de reconstruir racionalmente a sociedade. A ciência avançava com extraordinária rapidez, e havia no século 19 aquela confiança quase comovente de que, com método suficiente, talvez fosse possível explicar não apenas a matéria, mas o homem inteiro.
O positivismo ofereceu justamente isso. Comte sustentava que a humanidade atravessaria três grandes estágios. Primeiro, o teológico, em que o homem explicaria o mundo por meio de Deus e do sobrenatural; depois, o metafísico; finalmente, chegaria ao estágio positivo: científico, racional, maduro.
Era uma teoria sedutora. Explicava de onde viemos, dizia onde estávamos e ainda conhecia o destino da humanidade. Tinha também um pequeno inconveniente: não era ciência. Não havia experimento capaz de demonstrar que povos necessariamente percorreriam aqueles três estágios, muito menos que a religião fosse uma infância intelectual destinada a desaparecer com o amadurecimento da razão.
O positivismo era uma crença sobre a história – uma crença bastante forte, aliás; tão forte que Comte, depois de anunciar a superação da religião, terminou fundando uma. A chamada Religião da Humanidade ganhou calendário, culto, liturgia, sacerdócio e sistema moral próprios. A Humanidade, com maiúscula, passou a ocupar funcionalmente o espaço que o positivismo imaginara deixar vazio com a retirada de Deus.
O positivismo convenceu parte da elite. Não convenceu dona Maria. Ela continuou rezando. Continuou levando o filho para ser batizado e enterrando os pais com uma oração
A história às vezes escreve piadas melhores do que nós. Na Europa, o positivismo exerceu influência profunda, mas também foi rapidamente discutido, dividido e revisto. O pensamento continuou andando. No Brasil, nós o colocamos na bandeira: “Ordem e Progresso”.
O positivismo encontrou aqui terreno fértil entre militares, engenheiros, intelectuais e republicanos. Benjamin Constant tornou-se uma de suas grandes referências. Miguel Lemos e Teixeira Mendes levaram Comte muito a sério. Tivemos Apostolado Positivista, Igreja Positivista e, aqui no Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos deu àquela concepção de sociedade consequências políticas bastante duradouras.
Há alguma coisa de profundamente brasileira nisso: de tempos em tempos, desembarca entre nós uma teoria estrangeira, nós a cheiramos, declaramos que finalmente chegou o futuro e passamos alguns anos tentando convencer o brasileiro de que ele precisa alcançar justamente o lugar de onde aquela teoria já começou a partir.
O lema estampado em nossa bandeira vinha de uma máxima de Comte: “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. Na adaptação brasileira, o amor ficou de fora. Talvez fosse apenas falta de espaço. Mas certas coincidências parecem escritas por um cronista. O curioso é que o povo brasileiro nunca se tornou propriamente positivista.
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Comte convenceu parte da elite. Não convenceu dona Maria. Ela continuou rezando. Continuou levando o filho para ser batizado, enterrando os pais com uma oração, agradecendo a Deus pela mesa e pedindo socorro quando a doença chegava. O Brasil continuou cheio de igrejas. Depois, cresceriam entre nós batistas, presbiterianos, luteranos, pentecostais e tantas outras expressões cristãs.
A elite podia anunciar a chegada da idade positiva. O brasileiro comum não recebeu o memorando. Talvez porque religião nunca tenha sido apenas uma explicação rudimentar para o trovão. A fé é também uma maneira de responder à culpa, à morte, ao sofrimento, ao dever, ao amor, à pergunta sobre o que fazer quando ninguém está olhando e à suspeita humana, aparentemente incurável, de que nossa existência significa mais do que o intervalo entre nascer e morrer. Nenhum microscópio responde a essas perguntas, tampouco foi feito para tal.
O positivismo como sistema filosófico perdeu seu brilho, mas deixou entre nós um reflexo cultural mais resistente: a ideia de que a religião deve permanentemente apresentar suas credenciais diante de uma razão secular que, curiosamente, nunca precisa explicar os próprios pressupostos. A senhora com uma Bíblia debaixo do braço “tem crenças”. Já o intelectual que parte de uma concepção materialista do homem aparentemente não acredita em nada; ele apenas pensa. É confortável, e um pouco engraçado. Porque o cristianismo não é um hóspede constrangedor hospedado por engano na história brasileira. Está na própria fibra de nossa formação. Muito antes de “Ordem e Progresso”, havia cruzes por aqui.
Cristãos erraram, algumas vezes monstruosamente. A escravidão permanece como uma acusação grave contra uma sociedade baseada em valores cristãos e que, ainda assim, tantas vezes conseguiu ler o Evangelho sem permitir que ele perturbasse seus interesses.
Talvez estejamos discutindo demais quem deve possuir o poder e muito pouco aquilo que o poder jamais deveria possuir
Mas uma tradição não é julgada honestamente quando apenas a acusação pode apresentar testemunhas. Foi também dentro dessa longa experiência cristã que se consolidou uma ideia que me parece especialmente preciosa em ano eleitoral: o governante não é Deus.
Talvez estejamos discutindo demais quem deve possuir o poder e muito pouco aquilo que o poder jamais deveria possuir. Há coisas anteriores ao governo: a consciência, a dignidade da pessoa, a família, a própria fé, a verdade. Quando Cristo distingue aquilo que pertence a César daquilo que pertence a Deus, há ali algo politicamente explosivo: César deixa de poder reivindicar o homem inteiro.
O Estado não é absoluto porque existe uma autoridade que o antecede. Poucas ideias produziram consequência civilizatória tão grande. E poucas são tão necessárias quando a política começa a adquirir tonalidades religiosas e candidatos passam a ser apresentados não apenas como governantes possíveis, mas como redentores nacionais.
Eleições escolhem administradores do poder. Não salvadores. Talvez seja essa a pausa que o 7 de Setembro pode nos oferecer no meio do barulho de 2026.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Jean Marques Regina é mestre em Direito Político e Econômico e pós-graduado em Liberdade Religiosa e Teologia. Advoga para milhares de igrejas no Brasil e coautor de obras sobre Direito Religioso. É advogado aliado da Alliance Defending Freedom International, conselheiro do Acton Institute (EUA) e 1.º vice-presidente de Relações Institucionais do IBDR. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

Thiago Rafael Vieira é doutor e mestre em Direito Político e Econômico, pós-graduado em Direito do Estado, Liberdade Religiosa e Teologia. Coautor de mais de 10 obras, preside o IBDR e atua como advogado aliado da Alliance Defending Freedom International. É coordenador e professor em pós-graduações no Brasil e subcoordenador em curso na Universidade Autônoma de Madri. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




