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5G coloca EUA e China em rota de colisão. E o Brasil está no centro da disputa.
5G coloca EUA e China em rota de colisão. E o Brasil está no centro da disputa.| Foto: Financial Times

Creio que, hoje em dia, ninguém discorda que informação é poder. O detalhe é que os dados podem ser usados a favor ou contra uma pessoa ou instituições, dependendo do caso. Assim, quanto mais informações se tem sobre alguém, mais fácil será dominá-lo. O problema é que praticamente já não é mais necessário pesquisar muito para acessar conteúdos privados, uma vez que a maioria já coloca espontaneamente sua intimidade nas mídias. Você pode até se resguardar no fato de ser uma pessoa discreta, que não fica se exibindo nas redes sociais. Mas lamento dizer que de nada adianta: está igualmente exposto.

Já se deu conta que o seu celular sabe tudo que você faz? Ele sabe para onde você vai, quando se desloca, os caminhos que segue, onde mora e trabalha. O aparelho consegue, até mesmo, fazer reconhecimento facial. Ou seja, você já está sendo monitorado em todos os momentos. É por isso que alguns “excêntricos” utilizam aqueles celulares antigos, que não são smart, os de flip, sem acesso à internet.

Aproveitando a conversa sobre comportamentos estranhos, veja esse curioso detalhe. Você sabia que alguns expoentes do Vale do Silício limitam o uso de celulares e tablets pelos filhos? O criador da Apple admitiu, em 2011, que ele e sua esposa restringiam o acesso dos filhos à tecnologia dentro de casa. O fundador da Microsoft também é conhecido por reduzir o tempo em frente a telas e por banir celulares na mesa de jantar. Por que agem assim? Difícil saber exatamente, mas sugiro que você faça o mesmo. Pois, se foram eles que criaram esses instrumentos, provavelmente conhecem bem todos os benefícios, como os malefícios.

Voltando à questão central de nossa reflexão de hoje, eu havia dito que, quanto mais informações se sabe sobre uma pessoa, mais fácil é controlá-la. Agora, da mesma forma, quanto mais informações se sabe sobre uma nação, mais fácil também será dominá-la. Por isso, se trata, obviamente, de uma poderosa questão geopolítica. Quem controlar o serviço de internet móvel num país controlará toda a nação.

Na semana passada, a Anatel cancelou a reunião extraordinária de seu conselho diretor para votar a versão final do edital do 5G. O novo encontro aconteceria na segunda-feira, dia 13, às 15 horas. Porém, foi novamente cancelado. Esse tema está atraindo a atenção dos maiores poderes do mundo. Isso porque estamos diante de uma disputa global por este controle, envolvendo os Estados Unidos e a China. E o Brasil ficará de qual lado? Bem, apesar de o governo de Pequim estar investindo fortunas aqui, para tentar consolidar sua hegemonia, nós estamos pendendo mais para o lado dos Estados Unidos, pelo menos no que tange às decisões do Governo Federal.

Em março deste ano, os chineses fizeram um aporte milionário em sindicatos brasileiros. Foi informado que o montante de US$ 300 mil seria destinado a políticas de enfrentamento da crise sanitária. Porém, apesar de todo esse esforço, em novembro do ano passado, o Brasil aderiu ao programa do então presidente Trump contra redes tidas como “não confiáveis”. O projeto "Clean Network" foi criado para proteger dados americanos contra possíveis invasões maléficas, assim como limitar o acesso de empresas chinesas ao mercado da internet móvel.

A pergunta que fica é: o que Pequim ou Washington fariam caso fossem derrotados na disputa pelo 5G? Quais seriam as consequências para o Brasil? Isso pode fazer com que essas potências tomem medidas mais incisivas contra nós, talvez deixando o soft power e partindo em direção ao hard power. Explicando melhor, o soft power (“poder brando” ou “poder suave”), nas relações internacionais, descreve a habilidade de um Estado de influenciar indiretamente o comportamento ou interesses de outros, por meios culturais ou ideológicos. Já o hard power (“poder duro” ou “potência coercitiva") designa a capacidade de exercer poder sobre o comportamento de outro, neste caso, mediante o uso de recursos militares e econômicos.

Imagine o caso de uma pessoa que investe uma fortuna num país, comprando propriedades, financiando grupos e colocando seu dinheiro lá para obter determinado resultado, mas, no final, esse retorno não aparece. Há algumas reações. Ela pode ficar muito chateada e exigir o dinheiro de volta. Ou então pode decidir reaver o valor na marra. Porém, tem outro componente aqui. No cenário das potências em disputa, não se trata de um mero investimento, mas de um plano de sobrevivência. No caso dos EUA, significa garantir a manutenção de seu status de superpotência global, de xerifes do mundo, evitando o chamado “declínio do Império Americano”. Quanto à China, trata-se de garantir sua própria segurança alimentar. E há apenas dois países no mundo capazes de assegurar o abastecimento de comida para Pequim: Estados Unidos e Brasil. O problema é que depender de duas nações para garantir sua sobrevivência nunca é um bom cenário geopolítico. Mas essa é sua realidade hoje, diante de uma população de mais de 1 bilhão e meio de habitantes.

Vale lembrar que, recentemente, o diretor da CIA e o Conselheiro de Segurança Nacional americano estiveram aqui, e estima-se que o tema da internet móvel foi um dos principais assuntos abordados. Isso é mais uma evidência de que Washington está empenhado em trazer o Brasil para perto.

Quem perder essa disputa ficará em posição completamente desfavorável. Será que o derrotado, ao tomar esse prejuízo fenomenal, poderia partir para o hard power conosco? Para você que acha que deveríamos nos preocupar apenas com o governo de Pequim, não se esqueça que foi durante a gestão Obama, com Biden na vice-presidência, que eles comandaram uma série de derrubadas de poder, seja diretamente ou por meio de guerras por procuração, conflitos híbridos, revoluções coloridas e quintas colunas. Mais do que nunca, é hora de mantermos os olhos bem abertos.

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