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Estaria Biden iniciando a reorganização geopolítica da América Latina?
Estaria Biden iniciando a reorganização geopolítica da América Latina?| Foto: Collage/DLA/AP/Cubadebate

Para quem já ouviu falar na expressão “guerra híbrida”, ou acompanhou a Primavera Árabe e as chamadas “Revoluções Coloridas”, os acontecimentos recentes em Cuba acendem um sinal de alerta. Inclusive quando colocamos tudo num contexto mais amplo, com o recente assassinato do presidente haitiano e os protestos que se espalham pela África do Sul, após a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. É bem provável que se trate de movimentos orgânicos, espontâneos, sem um apoio internacional. Porém, num mundo globalizado e conectado como o nosso, não podemos descartar outras opções. Haveria alguma conexão entre todos esses acontecimentos simultâneos? Seria isso tudo parte de um movimento de reorganização geopolítica mais amplo, no contexto do mundo pós-pandêmico? Neste artigo, analisaremos alguns desses pontos.

Como não poderia deixar de ser, Havana tem culpado o imperialismo americano e os embargos econômicos pela atual crise. Na ótica do presidente Miguel Díaz-Canel, Washington estaria por trás de tudo, ao impor "uma política de asfixia econômica para provocar revoltas sociais no país". Joe Biden se pronunciou pedindo-lhe que “ouça seu povo”, o que deixou os apoiadores do regime ainda mais indignados. O presidente americano, em nota, ainda incentivou o regime cubano a, em vez de se enriquecer, ouvir seu povo e atender suas necessidades. "Estamos com o povo cubano e seu claro apelo por liberdade", disse Biden, claramente se posicionando contra a atual gestão, o que gera nos entusiastas da ditadura ainda mais a certeza de que os americanos estão por trás de tudo.

Porém, é preciso pontuar que, para além dos embargos americanos e das críticas públicas, há muitos outros fatores que tiveram participação fundamental no agravamento da crise. Com a queda do turismo global, Cuba passou a enfrentar uma situação cada vez mais delicada, uma vez que grande parte de seus recursos são provenientes dos turistas que visitam o país. A queda da receita, junto a outras causas estruturais, levou o país a apagões e tem tornado a crise sanitária uma calamidade pública, com escassez de remédios e de leitos hospitalares. Sem saúde, energia elétrica e comida, a população saiu de casa para demonstrar seu descontentamento. Isso já seria motivo suficiente para entender o que está acontecendo na ilha. No entanto, devemos levar em conta outros fatores.

Muitos analistas que têm acompanhado a política internacional começaram a prever como seria a gestão Biden para a América Latina. Traçando um paralelo com sua longa carreira como senador, e sua passagem pela vice-presidência, alguns estudiosos chegaram a conclusões um tanto quanto preocupantes. Lembrem-se que Barack Obama, apesar de ter sido laureado com um prêmio Nobel no início de sua gestão, permaneceu em guerra durante todos os dias de seus oito anos no poder. Basta lembrarmos que foi na gestão de Obama que uma grande parte das recentes derrubadas de regime da Ásia e África aconteceram. Quase tivemos, durante sua passagem pela Casa Branca, uma terceira guerra mundial desencadeada a partir da crise na Síria. Aqui nas Américas, também tivemos as Jornadas de Junho, em 2013, que acabaram conduzindo à queda da hegemonia do Partidos dos Trabalhadores no poder em 2016. Diante desses cenários, pesquisadores previram que, na gestão Biden, haveria mais revoluções coloridas na América Latina. Estaríamos diante do cumprimento dessa previsão? Não é muito provável, mas não é impossível.

A questão que deve nortear nossa busca é o que distingue uma guerra híbrida das demais. Em geral, a guerra híbrida começa com movimentos pacíficos, utilizando as redes sociais como instrumento agregador. O objetivo é reunir o maior número possível de pessoas, até que a repressão estatal seja implementada e os eventuais excessos do Estado sejam documentados e usados como propaganda contra o regime. Isso já está acontecendo. Resta saber como as coisas irão evoluir.

É muito difícil, neste momento, saber se o movimento em Cuba é orgânico ou fomentado por Washington. Entretanto, o que ninguém precisa mais é de uma ditadura que não respeita seu povo e que sugou volumosos recursos (inclusive brasileiros) de muitas nações para manter de pé seu falido regime. Fica a torcida para que não aconteça como na Primavera Árabe e nas Revoluções Coloridas, que trocaram regimes ruins por governos ainda piores. Deus abençoe o povo cubano.

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