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Michael Burry no lançamento do filme “A Grande Aposta”
Michael Burry no lançamento do filme “A Grande Aposta”| Foto: (Astrid Stawiarz / Correspondente/Getty Images)

O filme A Grande Aposta narra a história de Michael Burry, investidor que ganhou fama mundial ao prever a crise de 2008. À época, ele soou o alerta sobre o caos iminente, sem ser ouvido. Tempos depois, adotou o nome Cassandra em sua conta no Twitter, remetendo à personagem que predisse a Guerra de Troia, mas que foi ignorada e considerada louca. O pesadelo de Burry, apelidado de “Cassandra de Wall Street”, seria enxergar um novo colapso, soar o alarme e, novamente, ser ignorado.

Desta vez, porém, Burry tocou tão alto a trombeta que a SEC (equivalente à nossa CVM – Comissão de Valores Mobiliários) lhe prestou uma visita, intimando-o a suspender suas mensagens “incendiárias”. Antes de deletar a conta que mantinha no Twitter, o investidor publicou o seguinte: “As pessoas dizem que eu não avisei da última vez. Eu o fiz, mas ninguém ouviu. Então, aviso desta vez. E ainda, ninguém escuta. Mas terei provas de que avisei” (tradução livre, a partir do inglês). Será que o pesadelo de Cassandra vai se concretizar?

Dentre os muitos alertas de Burry, estava um aviso sobre o Bitcoin. Para o investidor, os governos esmagarão o mais famoso dos criptoativos, como resposta à ameaça que representa às moedas fiduciárias. Aqui entra o aspecto geopolítico dessa história: as criptomoedas podem ter dado início a uma espécie de coinwars, uma série de guerras entre moedas. Esta pelo menos é a opinião do cofundador do PayPal. Peter Thiel, ao palestrar recentemente num evento organizado pela Fundação Richard Nixon, defendeu que o Bitcoin provavelmente será usado pela China como uma arma para destronar o dólar americano. A ironia foi a fala acontecer na Fundação do presidente que deu as boas-vindas aos chineses e removeu a paridade dólar-ouro.

Na palestra em questão, Thiel opinou que, para a China, não é vantajoso que o dólar seja a única moeda de reserva global, em virtude do poder dado os americanos sobre as cadeias de abastecimento de petróleo, à capacidade de exercer pressão sobre outros países e impor sanções, como os EUA fizeram recentemente com a Rússia. Mas o detalhe é que os chineses também não querem que o renmimbi (moeda oficial da China) substitua o dólar como reserva mundial, uma vez que isso os obrigaria a abrir sua conta de capital, medida que poderia comprometer o controle sobre sua própria moeda.

O euro chegou a rivalizar com o dólar a posição de reserva global. Porém, sem sucesso. Não é de hoje que líderes internacionais tentam alijar a moeda americana do comércio mundial, propondo a substituição por outra de referência. O problema é que a reação de Washington a esse tipo de iniciativa tem sido historicamente enérgica. O historiador americano William Clark, autor do livro Petrodollar Warfare: Oil, Iraq and the Future of the Dollar (“Guerra de petrodólares: petróleo, Iraque e o futuro do dólar”, em tradução livre), defende a tese de que o verdadeiro motivo para a intervenção militar dos EUA no Iraque seria o fato de que Saddam Hussein passou a somente aceitar o euro como forma de pagamento para a venda de petróleo. Para Clark, a medida - caso adotada por outros membros da OPEP - poderia acabar com o petrodólar, criando uma espécie de “petroeuro”. Dessa forma, a presença militar dos EUA em terras iraquianas teria impedido tal empreitada, assim como desencorajado o Irã a seguir o mesmo caminho.

Hoje, neste novo cenário que se desenha, a importância crescente dos criptoativos poderia retirar o dólar da posição de reserva mundial. Ainda que não seja opinião unânime no mercado financeiro internacional, grandes bancos como o Morgan Stanley já consideram que as criptomoedas atingiram o status de classe de ativos. Sem falar na declaração recente de Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo, de que passaria a aceitar Bitcoins como forma de pagamento para vender seus automóveis da Tesla.

Enquanto isso, apesar de se apresentar como um entusiasta das criptomoedas, Peter Thiel defendeu que o Bitcoin passe a ser visto como um instrumento financeiro chinês contra o dólar. O magnata da tecnologia sugere que os EUA deveriam estar fazendo perguntas mais profundas sobre o papel geopolítico do criptoativo contra a moeda americana.

Por outro lado, o investidor e mestre em economia Fernando Ulrich, também entusiasta das criptomoedas, defende que o Banco Central americano é, na realidade, o verdadeiro depreciador do dólar enquanto reserva global, com suas políticas extraordinárias após o fim do acordo de Bretton Woods. O Bitcoin teria surgido exatamente como consequência disso, em resposta à perda de confiança na moeda dos EUA advinda das decisõesdo próprio FED. Para Ulrich, se o governo de Washington entendesse melhor os criptoativos, poderia usá-los a seu favor.

Em vez disso, a administração Biden parece mais interessada na proposta de uma versão digital do dólar, o Fedcoin, iniciativa que se tornou corrente em todo o mundo. O grande argumento em favor das CBDCs (Central Bank Digital Currencies, moedas digitais emitidas por bancos centrais) é o suposto fortalecimento no combate ao crime. Porém, especialistas apontam, na medida, sérios riscos à privacidade. Entre eles, está o economista Robert Wenzel. Em sua opinião, a iniciativa poderia colocar, nas mãos do Estado, a capacidade de rastrear todas as transações em uma economia, e proibi-las por algum motivo, trazendo grande preocupação quanto às liberdades individuais.

Para você que acha que esse pesadelo está longe do Brasil, vale lembrar que, na opinião de alguns analistas, o Pix seria a primeira medida do Banco Central em direção à troca da moeda em espécie pelo real digital, que, segundo o presidente do BC, já estará em circulação em 2022.

Enquanto a China ainda detém o posto de maior mineiradora global de Bitcoins e, junto com a Rússia, está desdolarizando sua economia, os americanos estudam restringir o uso da criptomoeda e substituí-la por uma versão digital centralizada do dólar. Nesta realidade, tudo indica que o pesadelo de Cassandra tem grande probabilidade de se cumprir.

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