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Injustamente esquecida por nossos professores de história, a Força Expedicionária Brasileira é uma fonte inesgotável de lições imprescindíveis para moldar o caráter de nossos cidadãos. Momentos de intensa provação, como uma grande guerra, são justamente aqueles em que, ao lado da barbárie, afloram virtuosas ações altruístas que servem de exemplo para forjar indivíduos mais humanos e compassivos.
Daqueles 25 mil soldados brasileiros que fizeram parte da FEB, houve um destacamento designado para recolher, identificar e sepultar os mortos nas batalhas: o Pelotão de Sepultamento (PS). Pouco conhecida, essa unidade foi criada em 4 de julho de 1944 e chegou à Itália em 9 de outubro do mesmo ano, acompanhando não só a retaguarda, mas também as incursões no front no Teatro de Operações do Mediterrâneo da Segunda Guerra Mundial.
Preocupados em cumprir sua missão de recuperar e resgatar os corpos dos soldados, os membros do Pelotão de Sepultamento eram a única ligação dos mortos com o mundo dos vivos. Em meio à guerra, o recolhimento de despojos fragmentados por ataques de morteiros, junto com pertences pessoais, era uma tarefa extremamente difícil — e a única capaz de possibilitar a comunicação da morte aos familiares e a realização dos devidos ritos fúnebres.
Para se ter uma ideia do respeito desses homens pelos mortos, há registros da preocupação em manter as macas com os corpos sobre cavaletes de madeira, evitando que permanecessem no chão enquanto aguardavam autópsia. Como bem pontua o artigo “Morte no Mediterrâneo: O Pelotão de Sepultamento da Força Expedicionária Brasileira e suas práticas”, imperativos morais e éticos orientavam sua atuação, garantindo cuidado humanitário aos mortos e permitindo funerais realizados pelas capelanias — prova do zelo dos próprios companheiros pelos que tombaram.
Para a execução de sua missão, em fevereiro de 1945, o Batalhão de Engenharia da FEB iniciou a construção de um cemitério militar brasileiro em Pistoia, na Itália. Ali, foram separadas quatro quadras para os brasileiros e duas para soldados inimigos, evidenciando que o respeito aos mortos transcendia lados no conflito.
De fato, esse respeito não era exclusividade dos Aliados. Apesar das dificuldades impostas pelo recuo constante, tornou-se emblemático o episódio em que soldados alemães sepultaram três brasileiros com uma placa reconhecendo seu valor — o caso dos “Três Bravos Brasileiros”.
Hoje, de modo diametralmente oposto, vemos o triste caso envolvendo profissionais da Fiocruz no Instituto Fernandes Figueiras, no Rio de Janeiro. Uma inspeção do CREMERJ, realizada em 6 de abril, constatou a existência de 27 corpos de crianças armazenados em tambores, onde permaneceram por anos. Bebês entre 508 e 3.470 gramas foram deixados em condições completamente incompatíveis com a dignidade humana.
Enquanto soldados da FEB arriscavam suas vidas para garantir exéquias dignas até mesmo a inimigos, profissionais de saúde do IFF/Fiocruz ignoraram a breve existência desses pequenos
A omissão diante de seus deveres éticos, profissionais e humanitários revela um preocupante grau de desumanização.
Que o exemplo de coragem, empatia e zelo daqueles jovens do Pelotão de Sepultamento da FEB possa inspirar uma reflexão profunda. Cada um daqueles 27 bebês, apesar de sua existência efêmera, carrega em si dignidade e valor intrínsecos — o mínimo que se lhes deve é o respeito em seus momentos finais, com as devidas exéquias.







