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Chesterton nos ensinou que, ao contrário do que muitos pensam, não é a fé que enlouquece o homem, mas, sim, a razão — isolada de tudo — é que nos torna loucos.
Por incrível que possa parecer, uma boa prova dessa afirmação está na escalação do quarto melhor time do mundo.
Para quem não teve a oportunidade de ler, sugerimos o excelente texto do colunista Flavio Morgenstern, que fez um excelente levantamento da composição do time da França que jogou esta Copa do Mundo.
Morgenstern demonstra que, embora sejam considerados franceses, a maioria esmagadora dos jogadores daquela seleção é filha de pais estrangeiros. Franceses, filhos de franceses, são apenas dois ou três e esse detalhe diz muito.
De fato, julgando o todo pela parte, podemos usar essa pequena amostra da população francesa como parâmetro para demonstrar o ideário suicida que foi sendo plantado na sociedade francesa por meio de desastrosas políticas de controle populacional, as quais culminaram com a recente inversão divulgada em janeiro deste ano, apontando que, no ano de 2025, houve mais registros de mortes do que de nascimentos.
Como uma adolescente rebelde que ignora os avisos de quem a ama, a "filha dileta da Igreja" não quis ouvir os conselhos de um certo São João Paulo II, o qual ensinou que fé e razão são as "duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade".
Querendo voar com apenas uma delas, fatores históricos, culturais e filosóficos levaram o povo francês a um crescente individualismo e a uma aversão a tudo o que seja transcendente, causando uma expressiva alteração no modo de enxergar o sentido das coisas e a própria existência.
Devido à proibição de que os censos oficiais discriminem quesitos relacionados à religião, o panorama religioso da população francesa atual só pode ser quantificado por pesquisas amostrais ou por inferências. Não obstante essa dificuldade, os dados mais recentes, segundo pesquisas de 2023, dão conta de que cerca de 56% dos franceses não acreditam em Deus, aproximadamente 30% se dizem católicos (desses, apenas 5% frequentam a missa), apenas 2% são protestantes e 10% são islâmicos.
Ao lado do componente espiritual, houve uma substantiva alteração do pensamento especulativo para o experimental. Fé e razão, que sempre estiveram ligadas à verdade última das realidades, agora se veem separadas por uma visão limitada que compreende e aceita apenas aquilo que pode ser provado cientificamente. Ao invés de a razão se colocar à procura da verdade do todo, esta se contentou em buscar empiricamente a verdade contingente das leis da natureza, sem se preocupar com a essência, com a finalidade.
Essa limitação no campo da razão, em que a verdade não se relaciona com o todo, infelizmente, levou a absurdos tais quais este que está acontecendo com o povo francês, que se perdeu na concepção (ou seria melhor dizer anticoncepção?) do valor da vida.
Desde 1975, uma lei francesa autoriza o aborto de seus próprios cidadãos, e as nove vezes em que essa legislação foi alterada o foram sempre com o sentido de ampliar as possibilidades de se assassinar intrauterinamente os pequenos franceses.
Relativizado o sentido da proteção à vida na mente e no coração daquele povo, em 2024, foi dado o tiro fatal.
Querendo realinhar-se com o seu partido Renascimento, de viés esquerdista, no dia 4 de março, em uma sessão especial no Palácio de Versalhes, Emmanuel Macron propôs a 25ª alteração da Constituição Francesa, inserindo em seu artigo 34 o direito de as mulheres recorrerem ao aborto.
Com 86% da população apoiando o assassinato de bebês, partidos de esquerda, de centro e até de direita aprovaram o direito de matar os mais vulneráveis em um comando constitucional
Como a loucura não encontra limites, no último dia 15 de julho, a França legalizou a Morte Assistida e a Eutanásia.
Por meio de uma manobra política, Macron dividiu um abrangente projeto de lei que versava sobre o fim da vida, facilitando a aprovação da parte referente ao reforço dos cuidados paliativos aos pacientes e forçando a aprovação da parte relacionada à "ajuda para morrer", legalizando o suicídio assistido e a eutanásia ativa naqueles pacientes que não conseguem suicidar-se sozinhos.
A razão, tão cara à Revolução Francesa, agora se vê diante da evidente contradição de ter enterrado seu icônico lema de "igualdade, fraternidade e liberdade", síntese dos ideais iluministas que a impulsionaram em 1789.
A igualdade não se aplica mais aos vulneráveis pacientes franceses, nem aos bebês, tampouco aos idosos.
A fraternidade não mais alcança os pais dos ainda não nascidos e os médicos que terão de cruzar a linha ética da intencionalidade letal para matar, ao invés de cuidar de seus pacientes.
A liberdade — originariamente pensada para expandir nossas possibilidades até o limite de não atingir o outro —, desprovida da harmonia e da complementaridade entre razão e fé, culmina no suposto direito de assegurar a uns a escolha de quem pode ou não viver.
O desvario do racionalismo francês assassinou não somente seus próprios princípios fundantes, como também seu próprio povo.
Times de futebol, vôlei, basquete, profissionais ou não, nas escolas e nas ruas, terão, cada vez menos, franceses filhos de franceses jogando.
Até o momento em que não haverá mais nenhum.
Nesse dia, a loucura acaba.

Defensor Público Federal atuante no movimento pró-vida, integrante da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, associado-fundador e membro da diretoria da Associação de Juristas Católicos de Brasília, autor de artigos científicos e acadêmicos na área de defesa dos nascituros. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



