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Danilo de Almeida Martins

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Empatia seletiva

Pets: o que os olhos não veem, o Orelha não sente

A Av. Paulista foi cenário de manifestações pedindo justiça pelo cão Orelha. (Foto: Bruna Menditto/Wikimedia)

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A repercussão (internacional!) do caso do cachorro Orelha revela um fato que está evidente em todas as ruas, esquinas e lares de nossas cidades: os pets alcançaram um espaço no coração humano que até pouco tempo atrás era impensável.

Vistos agora com uma dignidade merecedora dos mais altos cuidados, os pets vêm recebendo um tratamento diferenciado que, por vezes, ultrapassa aquele que seria reservado apenas ao próprio ser humano.

Isso é visível no próprio comércio. Enquanto o mercado de produtos para recém-nascidos no Brasil enfrenta um cenário desafiador de queda no volume de vendas, vemos mais e mais lojas de pets surgindo em todos os lugares, colocando o Brasil como o 3º maior mercado do mundo, com um faturamento de mais de 75 bilhões de reais em 2024.

Shopping centers, hotéis, postos de gasolina nas rodovias, companhias de aviação e outros tantos empreendimentos tiveram que se moldar a essa nova onda de cuidados reservados aos animais domésticos, que vem se transformando em uma verdadeira cultura.

Até mesmo a turma da novilíngua já tratou de criar seus termos politicamente corretos, erradicando a figura do dono do animal e criando o novo “tutor”, que não ofenderia a dignidade do pet, o qual não pode mais ser visto como uma propriedade, mas sim como um “membro da família”.

Essa realidade explica a enorme repercussão do caso do cão Orelha. Não foi apenas a crueldade com que foi perpetrado o crime, mas sim o quanto a percepção da sociedade mudou em relação aos animais e, neste caso específico, o quanto aquele cachorro era benquisto por todos da comunidade.

Apesar de ser um cachorro que vivia nas ruas, todos da vizinhança gostavam dele, pois relacionar-se com um animalzinho desses é sempre uma experiência positiva e prazerosa: basta um pequeno afago e algum pedacinho de comida e já se conquista um grande e fiel amigo.

De fato, afeiçoar-se a estes seres que só respondem carinhosamente é infinitamente mais fácil do que relacionar-se com nossos semelhantes.

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Apesar de viver da mesma forma que o Orelha, um morador de rua, por exemplo, carrega em si toda uma sorte de fatores e marcas difíceis de serem compreendidas e superadas, que dificultam nosso relacionamento com aqueles que se encontram nessa situação.

Esta é a razão pela qual não vemos grandes manifestações sociais protestando contra as condições desumanas com que vivem esses nossos irmãos, os quais também sofrem a violência de atos vis, tais como os praticados contra o pobre cão Orelha.

Mas não é só esse ponto que gostaríamos de destacar. Esse triste e revoltante episódio que aconteceu com o Orelha ainda guarda um outro detalhe que está passando despercebido por todos nós.

Trending topics, directs, hashtags, posts, chats e e-mails de nossas redes sociais deveriam estar “bombando” sobre esse assunto, mas, infelizmente, não é o que ocorre, pois essa ofensa ao mais importante dos direitos humanos ocorre de forma velada, escondida.

Se em 05 de janeiro o Orelha foi brutalmente violentado por seus algozes e teve que sofrer uma eutanásia, deveríamos lembrar, também, que neste mesmo dia, pela média do SUS, dois seres humanos também foram vítimas de uma violência ainda mais atroz, por mais difícil que seja acreditar nisso.

No caso do nosso cãozinho, para realizar a eutanásia, o próprio Conselho Federal de Veterinária obriga a utilização de uma sedação completa antes da aplicação da dolorosíssima injeção de cloreto de potássio que mata o animal.

De modo oposto, no escuro das salas de obstetrícia, devido a uma infeliz, injusta, imoral e impensada decisão monocrática do STF — na razão de dois por dia — estamos assassinando bebês com viabilidade de sobreviver fora do útero com o mesmo cloreto de potássio, sem nenhuma anestesia e em um processo lento, que injeta o ácido em pequenas quantidades, prolongando um sofrimento indizível em nossos irmãozinhos bebês, vítimas dessa enorme atrocidade que é a assistolia fetal.

O inocente que não deveria ser morto em hipótese alguma é assassinado da forma mais cruel possível, e nossas redes sociais nada ou muito pouco falam sobre isso.
Resta-nos, então, recobrar a variante do ditado popular que intitula a coluna de hoje: o que os olhos não veem, o Orelha não sente.

Se, por um lado, nos entristecemos porque ninguém se manifesta diante da invisível tortura que os nascituros sofrem, ao menos podemos nos alegrar que o Orelha, ao partir, não sentiu as dores excruciantes do cloreto de potássio em seu coração.

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