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Humor em tempos de Pandemia
| Foto: Arte: Felipe Lima

Dante Alighieri, ao entrar no purgatório, lamenta que a poesia ali pareça morta – nos traduz Deonísio da Silva. Como se estivesse num deserto espiritual, Dante convoca as musas para que a poesia ressuscite, pois ela é a razão de sua própria vida. As almas sofrem no purgatório, o poeta nos conta, para chegarem purificadas ao céu.

À primeira vista, uma quarentena se parece com um tempo de guerra – pelo menos com o que nos parece uma guerra, pois sou de uma geração privilegiada: a dos nascidos no pós-guerra. Não fosse esta pandemia, passaria o resto dos seus dias numa era de sombra e água fresca, com uma ou outra tempestade no final do período.

Quarentena é purgatório. Sem poesia, com todo o tempo do mundo para purgar nossos pecados rindo de nós mesmos, das nossas fraquezas e mazelas. Ridendo castigat mores, diz a frase que Jean de Santeuil adaptou de Horácio para louvar o papel de Arlequim na Comédia Italiana de Paris, depois invocada por Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno para satirizar os costumes epocais.

A escritora Martha Gellhorn, casada durante alguns anos com Ernest Hemingway, foi correspondente de guerra e enviou reportagens diretamente dos campos de batalha da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial. Já cega, suicidou-se aos 89 anos, em 1998.

Nascida nos Estados Unidos, em 1937 procurou as autoridades francesas para conseguir um visto para entrar na Espanha em guerra contra o fascismo. Assim que entrou na Espanha, com 50 dólares e muita coragem, Martha grudou nos correspondentes de guerra, quando um deles lhe sugeriu que escrevesse sobre Madrid: “E que interesse teria isso para alguém? – perguntei. Era apenas vida cotidiana. Ele ressaltou que não era a vida cotidiana de todo mundo”.

Excetuando a força aérea de Hitler, os alarmes antiaéreos, os obuses, as explosões e as balas perdidas, “por toda a Madrid, cada um tocava sua vida como se a rotina tivesse sido interrompida por um temporal e nada mais. Num café que fora atingido de manhã e onde três homens haviam morrido, os fregueses já estavam de volta à tarde sentados numa mesa, enquanto tomavam café e liam o jornal matutino. No fim do dia, caminhavam em direção ao bar, a rua parecia uma terra de ninguém. Mesmo quando o silêncio era total, ouvia-se o apito dos obuses. Ainda assim o bar estava lotado, como sempre”.

“A guerra tornou-se um luxo hoje acessível apenas às nações pobres”, escreveu Hanna Arendt. Ao que podemos acrescentar que a guerra, nos dias de hoje, já faz parte do cotidiano de qualquer grande cidade, de ricas ou pobres nações. O cotidiano de Madrid poderia ser o cotidiano de Paris, do Rio de Janeiro ou de Curitiba. A guerra do cotidiano está tão banalizada que no fim do dia, com a mídia jorrando sangue, ainda vamos ao bar para contar as últimas piadas do dia, tendo como mote as nossas próprias desgraças.

Ao receber o Prêmio Príncipe das Astúrias em nome do grupo argentino de humor “Les Luthiers”, Marcos Mundstock esclareceu em seu discurso porque, apesar de tudo, ainda rimos das nossas próprias desgraças: “O humor é sempre social. Você não conta uma piada para si mesmo, mas para amigos ou conhecidos. No trabalho, no bar ou em um velório”.

O riso é a melhor vingança. “Eu não me levo a sério” – confessava Millôr Fernandes. Só quem não consegue rir de si próprio são os intolerantes. Aqueles que se levam a sério.

Quando se insiste na ladainha da educação, a cantilena ressalta que uma das deficiências dos brasileiros é a interpretação de texto. O brasileiro tem a mania de levar piada a sério. A entrelinha é levada ao pé da letra. Ironia, então, é de leitura muito mais complexa. Daí que muitos autores aconselham que, quando se faz uso da ironia, frise-se o adendo: “Atenção, isto é uma ironia!”.

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Em tempos de pandemia, estou lançando o meu “Diário da Quarentena”, coletânea de crônicas (revistas e ampliadas) publicadas nesta Gazeta do Povo e no Facebook, do dia 10 de março a 18 de abril. Confinado, foram quarentas dias me sentindo num burgo sitiado da Idade Média, com os jovens guerreiros cruzando o cerco em busca de víveres, onde também me abasteci de muita calma, muita paciência e um bocado de ironia para editar o livro de 150 páginas, com todo o tempo do mundo para expiar nesse purgatório meus próprios pecados e – Ridendo castigat mores – tentar fazer do humor a vacina para os azedos e amuados.

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“Diário da Pandemia” pode ser adquirido por R$ 60,00 através do whatsapp: (41) 99185-8092. Com o comprovante do depósito bancário e endereço, o livro segue sem custos pelo correio. Para não provocar aglomerações, é o que nos resta fazer.

Importante: metade da renda será destinada aos Artistas e Técnicos das Artes no Paraná.

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