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Deltan Dallagnol

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Justiça, política e fé

STF

Enquanto Moraes tem reunião secreta com Lula, Mendonça espreme Vorcaro

Ministro do STF André Mendonça durante sessão no Supremo Tribunal Federal. (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

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O portal Metrópoles revelou nesta última terça-feira (31) uma informação que normalmente seria bombástica, mas que hoje em dia se tornou comum: o presidente Lula teve uma reunião secreta com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fora da agenda oficial, logo após o vazamento das mensagens de Moraes com Daniel Vorcaro.


No mesmo dia, o colunista Guilherme Amado revelou as duas perguntas sobre Moraes que André Mendonça vai fazer a Vorcaro na delação. As revelações concomitantes mostram a dinâmica que está se formando: Lula blindando politicamente Moraes, enquanto Mendonça investiga tecnicamente o mesmo Moraes, cujo pescoço está cada vez mais amarrado na corda da forca chamada Banco Master.


Por que essa reunião foi mantida fora da agenda oficial? Porque revelar publicamente que o presidente se reuniu com um ministro potencialmente investigado criaria um constrangimento institucional enorme. Revelaria a blindagem — como as salsichas são feitas, como as decisões são tomadas em Brasília. Mas fazê-lo secretamente permite que Lula dê o recado político que importa.


Na agenda secreta, Lula fez questão de dizer que não pretende abandonar Moraes de jeito nenhum, porque é muito grato pelo trabalho de Moraes contra Bolsonaro e o bolsonarismo durante as eleições de 2022 e no julgamento da trama golpista. Ou seja, Lula é grato a Moraes por colocá-lo no poder e por jogar na cadeia seus principais opositores, tirando do caminho justamente quem poderia desafiá-lo agora na disputa pela Presidência da República.


Na visão de Lula, Moraes foi fundamental para ele voltar ao poder. Agora, Lula está retribuindo o favor com blindagem política. É uma transação política clara: Moraes ajudou Lula a chegar ao Planalto; Lula agora protege Moraes das investigações.


Lula não é bobo, e o papo às escuras com Moraes nos porões do Planalto tem dois objetivos: primeiro, mostrar ao explosivo Moraes que Lula não irá soltar a mão dele, evitando que o ministro faça algo para retaliar o governo pela falta de apoio; segundo, colocar-se como um aliado fiel de Moraes, apostando que ele continuará no Supremo em 2027, quando tomará posse como presidente do tribunal — e apostando que Lula estará lá em 2027, algo para o que, aliás, Moraes pode voltar a contribuir.


Mas, enquanto isso acontece no campo político, no campo técnico-jurídico o ministro André Mendonça segue comandando as investigações do caso Master e do INSS, as duas maiores bombas políticas da história recente do Brasil. Segundo o colunista Guilherme Amado, Mendonça tem duas perguntas cruciais preparadas para apresentar a Vorcaro na delação.


Pergunta um: “O contrato com Viviane Barci de Moraes contemplava apenas os serviços dela ou também do marido?”


Essa é a pergunta de cento e vinte e nove milhões de dólares — literalmente. Porque, se o contrato de R$ 129 milhões de dona Vivi, a advogada mais cara do mundo, contemplava serviços de Alexandre de Moraes, isso pode configurar crimes como tráfico de influência, advocacia administrativa e corrupção passiva. A diferença entre um contrato legítimo com a esposa e um esquema criminoso envolvendo o ministro está nessa resposta.


Pergunta dois: “O que Moraes e Vorcaro conversaram no dia 17 de novembro de 2025, na véspera da prisão do ex-banqueiro e da liquidação do Master pelo BC?”


É aqui que Vorcaro vai ter que explicar o que realmente queria com a mensagem para Moraes, em que indagava — ou suplicava: “Conseguiu bloquear?”. Ninguém explicou até hoje. Bloquear o quê? A prisão? As investigações? Moraes teria atuado para blindar Vorcaro? A conversa do dia anterior à prisão pode revelar se houve tentativa de obstrução de justiça. Se houve, cabe, pela lei, prisão preventiva — embora a dinâmica do poder possa, mais uma vez, barrar a aplicação da lei no Brasil.


E a conclusão do colunista é correta e explosiva: “Das duas respostas depende o futuro de Alexandre de Moraes.”


A dinâmica está clara: Lula está blindando Moraes politicamente com reuniões secretas e promessas de apoio. O presidente garante que Moraes assumirá a presidência do STF em setembro de 2027 como se nada tivesse acontecido. Mas André Mendonça está investigando tecnicamente, com perguntas que podem destruir juridicamente e politicamente o ministro.
É política versus direito, proteção presidencial versus delação premiada, blindagem do Planalto versus provas da Polícia Federal (PF).


E as investigações têm vida própria. Por mais que Lula prometa apoio, por mais que o Planalto tente proteger, se Vorcaro responder a essas duas perguntas confirmando que o contrato contemplava serviços de Moraes e que houve tentativa de obstrução na véspera da prisão, nenhuma blindagem política vai segurar o que vier pela frente. Mendonça colocou as perguntas certas. Agora é esperar as respostas.

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