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O delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho, que participou de uma operação aparentemente clandestina para prender o ex-deputado Alexandre Ramagem em solo americano, acaba de ser expulso dos Estados Unidos. A expulsão foi confirmada pelo próprio Departamento de Estado norte-americano, que publicou declaração devastadora no X classificando a operação como perseguição política (“caça às bruxas política”) e acusando o delegado brasileiro de tentar manipular o sistema de imigração americano.
A ironia é brutal: a PF foi até os EUA atrás de Ramagem, e quem acabou sendo expulso não foi Ramagem, foi o delegado da PF. Primeiro, o fato: o Escritório para o Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado publicou no X, com todas as letras: “Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso.”
Agora, entenda o tamanho da humilhação: Marcelo Ivo de Carvalho era oficial de ligação da PF junto ao Immigration and Customs Enforcement (ICE), o órgão americano de imigração e alfândega, e estava lotado em Miami desde agosto de 2023. Era o único delegado federal brasileiro designado para atuar diretamente nas dependências da agência americana, coordenando cooperação em investigações transfronteiriças. Ou seja: era o homem que deveria cuidar da relação institucional entre a PF brasileira e as autoridades dos EUA.
E o que ele fez? Usou essa posição privilegiada para participar de uma operação clandestina que os próprios americanos classificaram como “caça às bruxas política”. Resultado: perdeu o posto, perdeu a confiança dos americanos e foi mandado embora. A resposta da PF foi patética: disse que o delegado estava em “missão oficial de colaboração” e que a expulsão ocorreu “de forma compulsória, sem que tenham sido informados os motivos exatos pela parte norte-americana”.
Como assim “sem que tenham sido informados dos motivos”? O Departamento de Estado publicou os motivos no X para o planeta inteiro ler. O post da embaixada brasileira alcançou quarenta e três mil curtidas e duas mil respostas. No post original, em inglês, há 2 milhões de visualizações, com vinte e seis mil curtidas e mil comentários. O motivo está lá, em inglês e em português claros: vocês tentaram usar solo americano para prolongar uma perseguição política contra cidadãos brasileiros, e nós não aceitamos.
A ironia é de dar gargalhada, porque a PF foi até os EUA atrás de Ramagem, meteu o bedelho em jurisdição americana, tentou contornar os canais formais de extradição, e quem acabou sendo convidado a se retirar não foi Ramagem, foi o delegado. O caçador virou caça, o perseguidor foi expulso, e Ramagem continua nos Estados Unidos. Lula ameaçou expulsar agentes norte-americanos em reciprocidade, mas a ameaça é risível, porque nenhum americano deu causa à expulsão.
E há uma revelação ainda mais espinhosa. Segundo apuração de David Ágape, no portal A Investigação, o policial que estava nesse cargo antes de Marcelo Ivo teria sido removido porque se recusou a fazer diligências presenciais nos EUA fora dos canais oficiais, algo absolutamente ilegal. Segundo o delegado André Scarpelli, já no início do governo Lula começaram a chegar ordens informais, não por canal oficial, para que ele realizasse operações no exterior. Trocar informações diretamente é legítimo; contudo, executar medidas é absurdo — é violação de soberania, aquela mesma que Lula diz defender.
O policial se recusou a atravessar a linha da legalidade. Disse que o cargo tinha função exclusiva de troca de informações e que qualquer operação precisaria ser solicitada formalmente. A recusa desencadeou, segundo ele, um processo de pressão que culminou em crises de ansiedade e problemas de saúde. Já o novo policial… O que parece é que trocaram o policial que se recusava a cometer ilegalidades e colocaram Marcelo Ivo no lugar, que acabou de ser expulso pelo governo americano.
Cada um tire suas conclusões sobre o que aconteceu, mas ficou muito feio para o chefe da PF, André Rodrigues, e para o Itamaraty: não há forma de enquadrar essa humilhação de maneira favorável. O governo Trump acabou de dizer, em praça pública digital, que o Brasil está exportando perseguição política para solo americano. E a resposta foi um chute na bunda.
A humilhação é completa. O Brasil tentou usar território americano para perseguir adversário político do governo Lula: os americanos disseram “não” e expulsaram o delegado. E fizeram questão de publicar os motivos para o mundo inteiro ver. Enquanto isso, Ramagem continua nos Estados Unidos, e o delegado que foi buscá-lo está de malas prontas, voltando para Brasília.
E Lula não tem nem mesmo aquele discurso anti-imperialista e de resistência para usar; afinal, ele mostrou recentemente que tem uma boa “química” entre ele e o presidente Trump. A Magnitsky caiu, assim como as tarifas. Não há como alegar uma campanha dos Estados Unidos contra o Brasil. O que sobra é que a expulsão foi técnica, fundamentada e legal — até prova em contrário. A lição está dada: perseguição política pode funcionar no Brasil de Lula e Moraes. Nos Estados Unidos de Trump, não.








