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Nem a advogada mais cara do mundo, Viviane Barci de Moraes, conseguiu isto: justificar o injustificável, o contrato de R$ 129 milhões. Ela alegrou nossa semana ao divulgar uma nota à imprensa em que listou reuniões, pareceres, manuais e políticas de compliance que teria produzido.
Só que a imprensa consultou especialistas, fez as contas e demoliu a narrativa: os serviços descritos custam, no máximo, R$ 7,8 milhões no mercado de elite – e será que ela está nessa “elite”, mesmo sem especialização, salvo uma em “marketing”? A diferença de R$ 121 milhões não tem justificativa técnica.
Um dos fact-checkers foi o Estadão, que consultou, sob anonimato, 13 escritórios de advocacia de renome nacional especializados em compliance e direito empresarial. O veredicto foi unânime: os valores praticados por Viviane Moraes estão muito acima do que o mercado de elite cobra por serviços equivalentes.
O jornal produziu uma tabela detalhada calculando quanto custaria cada item descrito na nota de Viviane. Os números são devastadores: 79 reuniões presenciais de três horas custariam R$ 4,74 milhões no mercado; 36 pareceres técnicos custariam R$ 1,08 milhão; 22 manuais e políticas de compliance custariam R$ 440 mil. Somando tudo o que Viviane afirmou ter feito, o custo total seria de R$ 7,8 milhões.
Um especialista em compliance, classificado entre os cinco maiores do Brasil, foi direto: um trabalho como esse custaria “no máximo R$ 10 milhões”. Mesmo adotando a estimativa mais alta, a diferença para os R$ 129 milhões cobrados por Viviane chega a R$ 119 milhões.
O veredicto foi unânime: os valores praticados por Viviane Moraes estão muito acima do que o mercado de elite cobra por serviços equivalentes
Mário Sabino, no Metrópoles, fez o que chamou de “conta de padeiro”. Pegou o que Viviane listou na nota: 94 reuniões, 36 pareceres e duas atuações presenciais, total de 132 tarefas. Dividiu pelos R$ 79,2 milhões que o escritório recebeu em 22 meses, valor já descontado dos R$ 129 milhões totais do contrato.
Resultado: cada tarefa custou R$ 600 mil. É o preço de um apartamento de médio padrão em São Paulo por reunião.
Sabino foi demolidor ao analisar a redação da nota de Viviane: “Quem redigiu fez um esforço tremendo para esticar o texto ao máximo, como se cada linha a mais pudesse justificar cada milhão embolsado.” Classificou um dos parágrafos como “clássico master de encheção de linguiça”.
E há outro dado que Sabino trouxe, revelado inicialmente por Lauro Jardim em O Globo: a evolução patrimonial de Viviane. No fim de 2023, o patrimônio declarado era de R$ 24 milhões. No fim de 2024, saltou para R$ 79,7 milhões – um aumento de R$ 55,7 milhões em um ano.
Tudo, muito provavelmente, proveniente do contrato com o Master; afinal, dona Viviane recebeu quase R$ 80 milhões pelos dez meses em que o contrato ficou ativo. Isso indica que ela não tinha outros grandes clientes com padrão de remuneração “master”.
Malu Gaspar, na GloboNews, também questionou os valores astronômicos do contrato de Viviane e trouxe valores e números de mercado para mostrar que a conta não fecha. Eduardo Oinegue, no Jornal da Band, comparou os valores cobrados por Viviane com os praticados pelo Kirkland & Ellis, o escritório de advocacia mais caro do mundo, e concluiu que ela cobra mais.
Viviane Barci é, oficialmente, a advogada mais cara do planeta.
Mas a ironia mais devastadora veio de outra nota divulgada por Viviane no sábado, na qual afirmou que não foi ela quem recebeu as mensagens de Daniel Vorcaro no dia 17 de novembro de 2025, o dia em que o banqueiro seria preso.
Mário Sabino desmontou: “Se a advogada contratada a peso de ouro não foi consultada em momento tão crucial para o dono do Master, isso reforça a impressão de que o contratado por Vorcaro foi, na verdade, Moraes, não a advogada casada com ele.”
Exatamente. Vorcaro não mandava mensagens para Viviane, sua suposta advogada de R$ 129 milhões. Mandava para Alexandre de Moraes, o marido dela, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao que tudo indica, discutia estratégias processuais com ele, pedia ajuda para “bloquear” investigações e ainda recebia joinha como resposta do ministro.
Os números são claros: R$ 7,8 milhões em serviços efetivamente prestados, segundo o mercado. R$ 129 milhões cobrados. Diferença de R$ 121 milhões sem justificativa técnica.
O termo técnico para isso é superfaturamento. O termo jurídico depende da investigação que precisa ser feita: pode ser corrupção passiva, advocacia administrativa, lavagem de dinheiro ou tudo isso junto.
Moraes tem direito à presunção de inocência, como qualquer cidadão. Mas, se a mesma régua que ele aplicou a tantos outros fosse aplicada a ele, já estaria afastado, investigado e possivelmente preso. Os indícios são mais robustos e os crimes são muito mais graves do que em muitos casos nos quais decretou prisões, bloqueios e censuras.
A nota de Viviane não satisfaz, as satisfações não satisfazem, ninguém acredita em nada que venha do casal Moraes e a conta simplesmente não fecha. É uma encrenca tamanho Master que nem a advogada mais cara do mundo consegue resolver.







