

Barack Obama é o biografado que todo jornalista gostaria de ter: tem uma história fantástica, é um sujeito interessante e, além de tudo, vende livros como poucos no mundo hoje.
David Remnick, por sua vez, é o tipo do biógrafo que todo personagem gostaria de ter. Editor da New Yorker, é inteligente, respeitoso e tem um texto capaz de contar as melhores histórias do melhor jeito.
“A Ponte” é o resultado do encontro das duas partes. Remnick decidiu contar a história de Obama desde o começo até ele chegar à Casa Branca. E fez isso com um estilo impecável.
O livro, porém, não é uma biografia completa. O próprio Remnick, que já fez um lirvo sobre a história de Muhammad Ali, avisa: está fazendo uma biografia sob o ponto de vista racial.
A ideia é contar a história de como um negro chegou à presidência dos EUA. Para isso, ele começa pesquisando a família do presidente. Mais propriamente, começa falando de seu pai, Barack Obama Sr., no Quênia.
A história de Obama pai dá motivo para que a metáfora da ponte apareça pela primeira vez no livro. O estudante queniano foi um dos primeiros beneficiados por um programa de formação intelectual em seu país
: alunos bons eram enviados aos EUA para estudar, numa “ponte” educacional que formaria uma geração preparada para governar o país independente.
O relacionamento de um negro africano com a mãe de Obama Jr. é o próximo tópico em discussão: como ela sofreu preconceito por namorar um negro, por ter um filho miscigenado, e como ela tinha a cabeça “liberal” o suficiente para lidar com isso.
Durante todo o livro, a ideia é essa: mostrar como Obama progrediu sendo negro. Remnick lembra todo o passado de lutas da geração anterior, de Martin Luther King e Malcolm X, coloca fatos sobre a geração atual, de Obama, e mostra como ele enfrentou a sua ascensão.
A “ascensão” aliás é ideia central no livro. Remnick, que é um estudioso do tema, mostra que toda biografia de um negro nos EUA acaba tendo esse formato: uma vida miserável ou turbulenta de início; uma consciência adquirida da situação; o começo difícil de uma luta por direitos e por reconhecimento; o enfrentamento; e a ascensão ao posto desejado.
Obama fez todo esse caminho. Na Indonésia, no Havaí, em Nova York, Boston, em Harvard, em Chicago… Remnick acompanha os passos do futuro presidente como estudante (presidente de uma revista jurídica de Harvard), até o Senado.
O resultado é um livro não apenas sobre Obama, mas sobre a questão racial no Estados Unidos. Obama é o personagem. Mas a história é de milhões de pessoas descendentes de africanos na América.
Uma história que, afinal de contas, tem muito a ver com a nossa.
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