

Miguel de Unamuno.
Miguel de Unamuno (1864-1936) foi o tipo do intelectual inquieto, que se meteu não só em filosofia e literatura como na política de seu país, a Espanha. Mas, curiosamente, não entra nem de longe na figura típica do intelectual de esquerda do século 20. Pelo contrário, foi um conservador.
Na disputa que antecedeu à Guerra Civil Espanhola (ele morreu no ano em que a guerra começou de fato), ficou do lado da direita que tirou do poder o governo de Azaña, eleito democraticamente. Cristão, não concordava com as práticas antirreligiosas do governo de esquerda. Conservador, não gostava da ideia da reforma agrária.
No fim da vida, chegou a se reunir com Franco, o futuro ditador, para pedir que algumas das vítimas de seu grupo fossem poupadas. Inutilmente, claro: o monstro estava criado.
Mas antes de tudo, Unamuno foi um literato. E seus livros falam um pouco, mesmo quando são de ficção, sobre os pontos de vista dele. Como no cado dessa novela, “Tia Tula”.
A história do livro poderia ser vista como um triângulo amoroso. Ramiro gostava de duas irmãs. Se aproximou da que parecia menos mandona, Rosa, e casou com ela. A outra, por quem ele sempre continuará tendo uma queda, é Gertrudes, a Tula.
Tula jamais aceita a união dos dois. Por se sentir preterida? Sabe-se lá. O fato é que se mete sempre na vida dos dois. Se demoram a ter filhos, é porque querem apenas o sexo, sem a responsabilidade. Se não fazem sexo, ela repreende a irmão, por não aliviar as tensões do marido, que pode buscar prazer em outro lugar. Se cede, ela se enraivece com o marido, que não poupa a mulher de seu apetite. Se mete em tudo.
E depois do nascimento do primeiro filho, se mete mais. Muda-se para a casa deles, para cuidar da criança. Sua irmã, Rosa, morre fraca depois de vários partos. E ela assume a casa. Ramiro que, enfim, casar com ela, mas ela o repele e faz com que ele acabe se casando com a empregada, Manuela. Ela só quer mesmo é cuidar das crianças.
Embora possa parecer uma história sobre ciúmes ou algo assim, no fundo o livro é mesmo sobre o relacionamento do ser humano com sua sexualidade. Como o homem do casal quer sexo o tempo todo. E como uma mulher consegue tornar a sexualidade alheia em seu destino.
Tula, em certo sentido, é um horror: mandona, difícil, intragável. Por outro lado, é vista como um exemplo de dedicação às crianças, e até à irmã. Fecha sua vida, não aceitando mais convites para nada, nem de ninguém, para só criar os sobrinhos.
Tem tudo a ver com um intelectual cristão preocupado com valores e moralidade em pleno século 20.
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