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Livro da Semana – “O segredo de Joe Gould”

Divulgação

Jornalistas têm fetiche pelo que chamam de “personagem”. De preferência, pelo cara que representa uma história fantástica. Pessoalmente, como jornalista, acho que isso tem a ver com a frustração que 99% da classe (eu incluso) sente por não saber escrever ficção.

Para tentar escrever algo que se compare a um romance, é comum que jornalistas decidam contar histórias humanas. Algumas das reportagens mais famosas do século 20 aconteceram assim.

Uma delas é a de Joseph Mitchell. Joe Gould foi o cara que ele encontrou para ser seu grande personagem. Retratou-ou uma vez. E, muito tempo depois, decidiu contar o fim de sua história.

A primeira parte do texto, escrita para a New Yorker, é interessante. conta a história de um andarilho excêntrico que vaga por Nova York. Diz ele que está preparando uma “História Oral do Mundo”.

Ou seja. O andarilho quer contar a história da civilização a partir de relatos que ouve, daquilo que vê. E pede dinheiro aos outros no Greenwich Village alegando que são recursos “para sua fundação”.

Mitchell, um sujeito obcecado por histórias e pela fluência do texto, conta a história do “professor Gaivota”. Se fosse só isso, talvez tudo tivesse ficado esquecido.

Muitos anos depois, porém, já nos anos 60, depois da morte de Gould, Mitchell decide escrever uma segunda parte da história. Revela os bastidores do primeiro texto. E conta o “segredo” de seu personagem.

Gould, como era de se esperar, se apegou a Mitchell, até por ele ter se interessado por sua hitória. Continuaram se encontrando. E o que o jornalista mais pedia era pare ver trechos da tal obra-prima.

O andarilho enrolava, e nunca mostrava mais do que uma ou outra historinha, sobre seus pais, sobre o tomate, coisas pequenas. Alegava que o resto estava guardado em lugar seguro.

Muito mais tarde, o repórter descobriria que nunca havia existido nada além daquelas pequenas histórias, sempre as mesmas, reescritas à exaustão.

A partir daí, o relato ganha nova cara: da história de um excêntrico, passa a ser a história de um sujeito triste, que vive remoendo alguns poucos fatos de sua vida e tentando sobreviver ao mundo com uma ilusão que nunca se tornaria realidade.

Passa a ser a história de um segredo. E essa parte, sim, fez o livro de Mitchell, em duas partes, sobreviver ao tempo. A história de um excêntrico, afinal, diz pouco sobre nós. Mas a história de uma ilusão, que todos nós temos, essa é universal.

Serviço: A Companhia das Letras publicou “O Segredo de Joe Gould” no Brasil na tradução de Hildegard Feist.

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