

A literatura norte-americana perdeu vários de seus nomes mais famosos em tempos recentes. Morreram David Foster Wallace, John Updike J. D. Sallinger. Outro que se foi há pouco tempo foi Kurt Vonnegut.
Desde a faculdade queria ler Vonnegut. Acabei conhecendo primeiro “Matadouro 5”, que muitos dizem ser sua obra-prima. Mas quera ler sempre “Pastelão, ou Solitário Nunca Mais”.
É que o grande Cristovão Tezza, que foi meu professor no curso de jornalismo, incluiu o livro numa listinha de clássicos do século 20 que nós deveríamos conhecer.
E, claro, como ele era – e é – “o cara”, muitos de nós acabaram indo atrás dos livros. No caso do Pastelão, demorei para chegar a ele.
A história é quase como se fosse uma ficação científica. Um sujeito com um nome à beira do irreal, Dr. Wilbur Daffodil-11 Swain, narra a partir de um futuro distante a sua história.
Ele mora junto com a neta, grávida, nas ruínas do Empire State. Sim, Nova York, assim como em tantos livros e filmes, é devastada no futuro.
O problema maior no futuro é com a gravidade. Às vezes, ela aumenta de maneira absurda. Outras vezes, quase some.
Mas a maior parte do livro é sobre a infância do personagem e de sua irmã gêmea, Elza. Os dois são não apenas inseparáveis. São quase a mesma pessoa.
A parte mais divertida do livro (que é bem curtinho) é sobre o plano dos adolescentes de enganar os parentes (riquíssimos) que os abandonam em uma mansão gigante, cheia de serviçais.
Eles fingem que são retardados mentalmente, só para poder prolongar a infância.
O livro é quase absurdo. Um tipo de humor “pastelão”, mas misturado à ficção científica e a uma visão bizarra do mundo – o planeta como um caos, em que nem as leis da Física se aplicam mais.
Mas a ideia básica, de irmãos que gostam tanto um do outro que querem evitar o mundo só para prolongar a infância, é um antídoto contra todo esse caos.
É como se os dois, sem querer, descobrissem que a solução para os problemas pode ser distante demais, ainda mais para dois adolescentes sem muita chance de fazer qualquer coisa diferente. O que lhes resta é tentar o isolamento.
Eles também tentam melhorar a vida de todos os outros – criam um sistema em que todas as pessoas do mundo são parentes, em 20 grandes famílias numeradas de 1 a 20.
É uma ingenuidade. Mas combina com a ideia de soluções infantis para o tumulto do universo.
Siga o blog no Twitter.






