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narrativas
O ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e o presidente Jair Bolsonaro| Foto: Marcos Correa/Presidência da República

As recentes suspeitas de corrupção no governo de Jair Bolsonaro podem não se confirmar, mas não são meras narrativas. Explico, mas antes faço um paralelo com o massacre de civis em lugares ocupados por tropas russas na Guerra na Ucrânia.

As forças russas tentaram, desde o início da guerra, em 24 de fevereiro, promover um cerco a Kiev. Fracassada a investida para tomar a capital ucraniana, os russos bateram em retirada e focaram os combates no leste do país. Deixaram para trás um cenário de devastação e fortes indícios de crimes de guerra contra a população civil nos arredores de Kiev, especialmente na localidade de Bucha.

As imagens que rodaram o mundo mostram os corpos de moradores dessas cidades nas ruas, em estado de putrefação, muitos executados com tiros pelas costas, alguns com as mãos amarradas.

Os registros não foram feitos apenas por autoridades ucranianas, com óbvio interesse em revelar crimes cometidos pelas forças invasoras, mas também por jornalistas de vários veículos de comunicação de diferentes países.

Também há relatos fortes, verossímeis, de estupro e tortura por parte de soldados russos contra mulheres e crianças ucranianas.

O governo de Vladimir Putin afirma que as imagens são montagens e que tudo não passa de falsificações com o objetivo de "provocar" a Rússia. As acusações de que civis foram executados e torturados não passariam de narrativas de guerra, portanto.

Mas os indícios de que esses crimes contra civis de fato ocorreram não param de surgir. Entre os mais recentes está uma conversa via rádio interceptada pelo serviço de inteligência alemão em que um comandante russo ordena a seus subordinados que matem todos os civis em Bucha.

O caso do massacre em Bucha e das acusações de crimes contra civis em outros locais da Ucrânia está encerrado? De jeito nenhum. Investigações independentes conduzidas por organizações internacionais devem seguir adiante, de maneira criteriosa, para confirmar ou não as acusações.

É preciso revelar os fatos e permitir que eventuais culpados sejam identificados e responsabilizados, o que pode valer tanto para as autoridades máximas da Rússia, por mais difícil que seja encontrar um meio para puni-las, quanto para incriminar agentes ucranianos — se confirmada a versão russa, carente de evidências, de que os assassinatos foram cometidos por batalhões neonazistas do país vizinho.

De um jeito ou de outro, não se pode aceitar a afirmação do governo russo de que tudo não passa de "provocação" para despertar a indignação global. Alguém massacrou aquelas pessoas. O que existem são suspeitas baseadas em fatos concretos, não meras narrativas.

O mesmo vale para as suspeitas de corrupção no governo Bolsonaro. Vejamos alguns dos fatos conhecidos:

Um áudio em que o então ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirma que em segundo lugar na lista de prioridade de liberação de recursos para prefeituras estão as demandas intermediadas por uma dupla de pastores lobistas, com o suposto aval do presidente Bolsonaro.

O relato de prefeitos de que os tais pastores pediram propina em dinheiro e até em ouro para que agilizassem a liberação de recursos junto ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), cujo presidente, Marcelo Ponte, é apadrinhado do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, do PP, um dos caciques do centrão fisiológico.

Um pregão para compra de ônibus escolares com valores unitários muito acima dos preços de mercado, levado adiante pelo FNDE mesmo com os alertas da área técnica do MEC.

Gastos milionários com kits de robótica para escolas no Nordeste que, em alguns casos, não possuem nem água encanada, comprados de empresa de aliado do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, do mesmo partido de Ciro Nogueira, com recursos do MEC liberados via emendas de relator (muitas das quais são controladas pelo próprio Lira).

"Kit robótica, então, são RP9, não tem o que discutir", disse Bolsonaro em sua live semanal de quinta-feira, referindo-se à sigla que serve para designar as emendas de relator. Ou seja, o presidente se exime de responsabilidade pelo que é feito do dinheiro público federal com o argumento de que a destinação do recurso é terceirizada — sendo que foi o seu governo que a terceirizou para os parlamentares, como forma de comprar apoio do centrão no Congresso.

É a oficialização do Mensalão, o esquema de compra de apoio parlamentar criada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Os fatos acima mencionados bastam para comprovar que se tratam de casos de corrupção? Não, mas são evidências importantes que reforçam a suspeita e que pedem mais investigação.

Ciro Nogueira, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, disse sobre o caso dos pastores lobistas: "Não houve corrupção. É uma corrupção virtual. Existem narrativas."

Dois dias depois de Ciro Nogueira dizer essas palavras, um relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) afirmou que ele cometeu os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro por receber propina da JBS para apoiar a reeleição de Dilma Rousseff em 2014.

Não existem narrativas. Existem suspeitas. A robustez das evidências é que vai dizer se houve corrupção ou não.

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