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guerra na Ucrânia
O líder chinês Xi Jinping| Foto: -/AFP or licensors

A guerra na Ucrânia pode ser o ponto de virada da atual ordem global, um momento histórico mais importante para esta primeira metade do século XXI do que foi, por exemplo, a Guerra ao Terror iniciada após os ataques às Torres Gêmeas em Nova York, em 2001. No centro dessa transformação estão os planos de ascensão econômica, política e militar da China, que no ritmo atual pode superar os Estados Unidos como país mais rico do mundo dentro de uma década.

A disputa de poder entre Estados Unidos e China, que alguns analistas classificam como uma segunda "guerra fria", pode se acelerar e se intensificar com a guerra na Ucrânia na hipótese de dois cenários:

Primeiro, se as pesadas sanções impostas pelas potências ocidentais empurrarem a Rússia definitivamente para os braços da China, criando uma aliança das duas maiores autocracias nucleares do mundo com disposição de bater de frente com o Ocidente.

Segundo, se houver um efeito reverso das recentes sanções sobre o bem estar econômico das populações dos Estados Unidos e da Europa, ainda muito dependente do gás russo, de forma a precipitar o tão anunciado "declínio das democracias liberais". O resultado da ocorrência de um desses dois cenários, ou de ambos, seria o aumento do poder econômico e geopolítico da China, potencialmente transformando-a na próxima superpotência.

Mas o caminho até lá é mais tortuoso do que pode parecer. Eis os principais aspectos que podem servir de atalho ou de obstáculo para as aspirações da China de se tornar uma superpotência.

O casamento entre China e Rússia é problemático

Os dois países anunciaram recentemente, um pouco antes do início da guerra na Ucrânia, uma "amizade sem limites", ao mesmo tempo em que fizeram críticas à expansão da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a aliança militar ocidental liderada pelos Estados Unidos. A declaração conjunta divulgada pelo russo Vladimir Putin e pelo chinês Xi Jiping, durante as Olimpíadas de Inverno de Pequim, também defendia a emergência de uma nova ordem multipolar (expressão escolhida a dedo para dar uma cutucada na atual ordem unipolar, dominada pelos Estados Unidos).

Mas os objetivos de China e Rússia não são inteiramente coincidentes, o que dificulta a coordenação de suas ações na arena internacional de maneira coesa.

A China é uma potência autocrática em ascensão, com uma visão de longo prazo. Os chineses têm uma visão pragmática das relações com os outros países. Eles querem superar os Estados Unidos e se tornar a próxima superpotência, mas planejam alcançar isso por meio de uma coexistência pacífica que lhe permita tirar o máximo proveito econômico do comércio global.

Já a Rússia é uma potência autocrática decadente. Tem um enorme arsenal atômico, o que lhe permite fazer chantagem de extermínio mútuo, como vem fazendo desde que invadiu a Ucrânia e começou a sofrer as sanções impostas por americanos, europeus e japoneses. O prognóstico dos objetivos de Putin, ou seja, a recuperação do prestígio político e territorial dos tempos da União Soviética, contudo, é de vida curta.

Até que ponto a China estaria disposta a arriscar seu objetivo de longo prazo para alinhar-se com os delírios imperialistas imediatistas de Putin?

A reação à guerra na Ucrânia indica que o Ocidente está mais unido do que parecia

Antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, a China deu diversos sinais de conivência com uma aventura militar de Putin no Leste Europa. Parecia uma ótima chance para dar um chega para lá na Otan, para assistir às desavenças entre os líderes ocidentais e para testar os efeitos de uma incursão semelhante da China sobre Taiwan, um território com governo autônomo que Pequim considera uma província rebelde.

A resposta da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá e do Japão, entre outros países, porém, foi mais coesa e firme do que previam até os analistas mais pró-Ocidente. A Otan não saiu em socorro da Ucrânia, o que inevitavelmente transformaria o conflito em uma nova guerra mundial, mas o país está recebendo armas, dinheiro e imenso apoio político. E, obviamente e mais importante, Putin e seu regime estão sendo punidos severamente por sanções econômicas e financeiras inéditas.

A guerra na Ucrânia fez com que diversos países membros da Otan decidissem aumentar seus gastos militares, agora convencidos de que Rússia é mesmo uma ameaça para eles. E a aliança não se cansa de repetir que não tolerará qualquer ataque a um dos seus membros.

A Rússia está isolada e sua única saída é a China

Esse é o vetor que empurra a Rússia para a China, num fenômeno que já vinha ocorrendo nos últimos anos. O comércio entre os dois países aumentou 36% no ano passado. A China é o maior comprador de carvão da Rússia. E a Rússia é o segundo maior fornecedor de petróleo da China. Na mão inversa, a Rússia recebe investimentos e produtos de tecnologia chineses.

A China também é a única alternativa que restou para a Rússia para garantir serviços financeiros. Extirpados do SWIFT, o sistema internacional de transferência de dinheiro, bancos russos já estão procurando contornar o problema por meio de um sistema alternativo criado na China, o CIPS. No longo prazo, esse sistema de pagamentos pode ganhar força, assim como os esforços de transformar o dinheiro chinês, o renminbi, em uma moeda global que possa rivalizar com o dólar.

Por ora, isso tudo ainda é muito complicado. E muitas empresas chinesas temem ser prejudicadas financeiramente caso entrem na mira de boicotes do Ocidente se ajudarem a Rússia a romper as sanções. Por exemplo, depois de ter o acesso a fabricantes de aviões do Ocidente cortado, a Rússia tentou comprar peças de reposição da China, mas o pedido foi recusado.

Empresas de tecnologia chinesas, que já sentiram o impacto que boicotes americanos podem ter (vide o caso da Huawei), também possuem bons motivos para não ajudar os russos a burlar as sanções. E os bancos estatais chineses já começaram a restringir operações de crédito para a Rússia, antevendo problemas para acessar o sistema financeiro internacional, ainda dominado pelo dólar.

Concluindo

A julgar pelas cartas que estão na mesa, não há dúvida que a reação das potências ocidentais à guerra na Ucrânia vai empurrar a Rússia ainda mais para o colo da China.

A guerra na Ucrânia será lembrada como um marco histórico no acirramento da disputa por hegemonia global entre um polo Ocidental democrático, representado principalmente por Estados Unidos e Europa, e um polo Oriental autocrático, liderado pela China, com a Rússia a tiracolo.

Se a China vai sair dessa disputa como a próxima superpotência ou não, vai depender do caminho que Pequim vai trilhar: o atalho perigoso da aliança "sem limites" com a Rússia ou a avenida segura do pragmatismo econômico.

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