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Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e Bolsonaro posam para foto no Palácio do Itamaraty, em 2019: presidente brasileiro viajará à Rússia a convite do mandatário russo| Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A viagem do presidente Jair Bolsonaro à Rússia no final de fevereiro acontecerá em um contexto geopolítico delicado envolvendo aquele país, o Leste Europeu e as potências ocidentais. O ditador russo, Vladimir Putin, que comanda a Rússia desde 1999, vem movimentando tropas nas fronteiras com a Ucrânia, o que é interpretado pela Otan, a aliança militar composta principalmente por Estados Unidos e países da Europa, como uma ameaça de invasão. E é, apesar das negativas de Putin. Há uma cobrança, principalmente por parte dos americanos, para que o governo brasileiro se posicione contra as intenções de Moscou. Mas a posição que Bolsonaro vem ensaiando é a de uma difícil neutralidade.

Na visita a Putin, Bolsonaro vai tratar primordialmente de questões comerciais e outros temas da relação bilateral. A estratégia da diplomacia brasileira será a de evitar qualquer menção às tensões na Ucrânia. Mas isso só poderá ser interpretado como neutralidade se não houver escorregões para o lado oposto, o de apoio às agressões russas.

A tentativa de manter a neutralidade diante do risco de conflito na Ucrânia é difícil por pelo menos três motivos. O primeiro é o fato de o Brasil ter assumido no início de janeiro uma cadeira não permanente no Conselho de Segurança da ONU, o que eleva a pressão para que se posicione em relação ao risco de conflito no Leste Europeu (a eleição do Brasil para a vaga, no ano passado, foi celebrada pelos russos). Os Estados Unidos solicitaram uma reunião do Conselho para discutir o impasse com a Rússia na Ucrânia.

O segundo motivo é o tênue equilíbrio dos interesses brasileiros em relação à Rússia e do impacto global que uma invasão da Ucrânia teria na atual circunstância. A Rússia é um relevante importador de carne suína do Brasil, e nos vende principalmente fertilizantes e minérios. Nos tempos do PT, era também um aliado estratégico no Brics, grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Atualmente, esse clube perdeu importância e interesse em projetos comuns, antes ancorados na ideologia terceiro-mundista enaltecida pelo lulismo.

Entre Ucrânia e Rússia, é de maior interesse para o Brasil manter a proximidade que tem com o segundo. Mas, além da necessidade moral de se evitar qualquer guerra e apoiar sempre soluções pacíficas para os conflitos, e apesar da distância geográfica, uma invasão da Ucrânia teria impactos também para o Brasil, ainda que indiretos.

A Rússia é um dos maiores produtores de petróleo e gás natural do mundo, além de ser o maior exportador de trigo. Guerra e sanções podem impulsionar uma alta nos preços globais desses e de outros produtos, principalmente no setor energético. Além disso, sanções financeiras podem atrapalhar o recebimento pelo Brasil dos pagamentos de exportações para a Rússia.

O terceiro dificultador para uma postura de neutralidade é inabilidade diplomática de Bolsonaro. Historicamente, a diplomacia brasileira foi capaz de manter relações benéficas com nações governadas por ditadores sem precisar endossar suas violações de direitos humanos e outros abusos.

Bolsonaro, no entanto, como já demonstrou em suas viagens ao Oriente Médio e em declarações esparsas, tem dificuldade em estabelecer vínculos com governantes autoritários sem resvalar para a bajulação que pode ser interpretada como endosso.

Em visita à Arábia Saudita, em 2019, disse que se sentia como "quase irmão" do príncipe Mohammed bin Salman, chefe de fato de um regime responsável por uma infinidade de atrocidades, entre as quais o assassinato e esquartejamento de um jornalista dentro de sua embaixada na Turquia. Em novembro passado, o presidente escutou sem contestar o filho Eduardo dizer, em live transmitida na internet, que as ditaduras da Península Arábica não são ditaduras, mas simplesmente "monarquias".

Como o assunto Ucrânia vai estar quente durante a visita de Bolsonaro à Rússia, há o risco de os anfitriões encontrarem uma oportunidade para arrancar dele uma declaração que pareça um apoio ou uma relativização dos planos bélicos.

Bolsonaro encanta-se com o fato de Putin ser um "conservador" como ele e, em encontro de cúpula dos Brics em Brasília, em 2020, até deixou de lado um pedido para que os presentes apoiassem uma transição democrática na Venezuela porque isso poderia irritar o russo.

Na viagem à Rússia, elogios a Putin ou outros tipos de concessões de cunho político podem ser mal recebidas por outras nações.

Esse tipo de inabilidade já colocou o governo brasileiro em uma situação constrangedora no passado, também em episódios relacionados às interferências da Rússia na Ucrânia.

Foi durante o governo de Dilma Rousseff, em 2014, que a Rússia invadiu e, na prática, anexou a Península da Crimeia, um território ucraniano. O Itamaraty, na ocasião, minimizou a agressão, dizendo em nota apenas que a crise deveria "ser equacionada pelos próprios ucranianos".

Em julho do mesmo ano, Dilma tentou desviar as suspeitas de que o governo russo estaria por trás da derrubada, na Ucrânia, de um avião comercial da Malaysia Airlines por um míssil antiaéreo, matando 298 pessoas.

Depois de recomendar "cuidado" ao apontar culpados, a presidente brasileira citou a hipótese estapafúrdia de que o avião havia sido derrubado por engano e que o alvo mesmo seria outra aeronave, que estaria transportando o presidente russo.

As investigações comprovaram que o avião foi derrubado com armamento fornecido pela Rússia a rebeldes ucranianos — e que portanto havia o dedo de Moscou naquele crime.

Poucos meses depois, em reunião do G20, o grupo dos países mais ricos do mundo, Dilma continuou se esquivando de condenar as agressões russas na Ucrânia, sob o argumento de que o Brasil não se intromete em "assuntos internos" de outros países, enquanto outros líderes faziam cobranças a Putin.

Como aconteceu naquela ocasião, agora também a diplomacia brasileira se vê diante da convicção de que a melhor postura em relação às movimentações da Rússia na Ucrânia e às tensões com o Ocidente é a de neutralidade.

Mas, também a exemplo do que ocorreu com Dilma Rousseff, a inabilidade presidencial no trato diplomático traz o risco de fazer a pretensa neutralidade soar como endosso às provocações russas.

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