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Monark, protagonista e vítima de uma sociedade soterrada por opiniões| Foto: Reprodução / Twitter

Vivemos em uma sociedade soterrada pelas opiniões.

O youtuber com precária formação intelectual e cultural que amealhou milhões de seguidores jogando Minecraft, um videogame, transforma-se em apresentador de um programa de debate e entrevistas em que despeja em sua enorme audiência opiniões sobre todo tipo de assunto, até os mais sensíveis.

O usuário no Twitter comenta a postagem de um cidadão, xingando-o de fascista ou de comunista e dizendo que o artigo que o outro compartilhou está errado — mesmo sem clicar no link, sem ler o texto na íntegra. Mas isso não o impede de se sentir seguro em sua opinião.

A filha pré-adolescente diz que as suas opiniões sobre qualquer coisa têm o mesmo peso que as de seu pai, 35 anos mais velho e mais experiente. Na escola ela desenvolve "espírito crítico" e é estimulada a expressar sua "opinião", a elaborar hipóteses para os fatos estudados, mas não aprende limites, humildade e respeito.

No TikTok, no Instagram e no restante do lamaçal das redes sociais, qualquer um com o mínimo de criatividade visual e habilidade natural de comunicação consegue levar seus preconceitos, suas crenças, suas perversões ou seu moralismo (tudo parte de suas opiniões sobre o mundo) para um grande público, incluindo crianças desavisadas, sem discernimento de certo e errado.

Na TV, um punhado de celebridades e de anônimos são confinados em uma casa, desfiando suas posições rasas sobre qualquer assunto, para deleite de milhões de espectadores que julgam as opiniões dos brothers segundo as suas próprias. Fatos não fazem parte do show.

Em pré-campanha, um ex-presidente que busca o terceiro mandato diz que mudou sua opinião sobre o que seria o critério para a melhoria de vida dos brasileiros: além de churrasco, eles deveriam poder também comer verduras orgânicas, caso sejam vegetarianos. A opinião também é anteparo para a hiprocrisia.

E o presidente atual, sem nenhum conhecimento técnico na área de saúde, considera absolutamente normal discordar dos especialistas de seu próprio governo para, com base em crenças, memes e mitos distribuídos no WhatsApp, colocar em dúvida a eficácia e a segurança das vacinas contra covid-19. Para ele vale mais sua opinião do que o método científico.

Vivemos em uma sociedade em que opiniões sem amparo nos fatos muitas vezes têm mais peso e influência do que opiniões bem fundamentadas.

Quando a internet se popularizou e as redes sociais ganharam terreno, comemorou-se uma nova era de democratização dos meios de comunicação. A informação não seria mais monopólio da chamada "grande mídia" e a produção do conhecimento não estaria mais limitada aos centros universitários.

Mas não foi a informação que ganhou espaço nos meios digitais alternativos, no uso das redes sociais pelas massas. Não se viu o florescimento da pluralidade de ideias novas, antes sem voz.

O que cresceu foi a voracidade das opiniões. O espaço para debates sensatos, informativos e embasados nas redes existe, mas é apenas marginal. O que se consome mesmo é opinião, de qualquer tipo — e que, para serem ouvidas na cacofonia do mundo virtual, tendem aos extremismos, ao histrionismo e à manifestação de ódio.

A dinâmica opinativa das redes sociais — que dispensa a necessidade de procurar embasamento nos fatos — foi transferida até para os veículos tradicionais (antes muito zelosos com seus espaços de opinião, entregando-os apenas a profissionais com longas carreiras dedicadas à lida responsável com os fatos).

Como sobreviver em uma sociedade soterrada por opiniões sem embasamento?

Primeiro, valorizando influenciadores, políticos, comentaristas que reconhecem seus limites opinativos. Ninguém tem conhecimento suficiente para opinar sobre tudo. Ponto positivo para quem disser que não se sente apto a opinar sobre isso ou aquilo.

Segundo, procure discernir opiniões baseadas em fatos daquelas ancoradas em crenças. Fatos são verdades objetivas, que podem ser comprovados por evidências. Crenças são verdades presumidas, sem evidências.

Identifique, nas opiniões dos outros, os argumentos que se travestem de fatos, mas que na verdade são crenças. E reconheça, em suas próprias opiniões, aquelas que têm mais a ver com seus sentimentos e emoções e as outras, mais racionais.

Terceiro, leia ou assista ao conteúdo por inteiro antes de opinar. Títulos e trechos de falas fora de contexto não são suficientes para embasar uma opinião.

Quarto, desenvolva a empatia e a capacidade de escutar. Empatia significa colocar-se no lugar do outro, tentar entender porque ele ou ela pensa ou se sente de determinada forma. A capacidade de escutar, por sua vez, é fundamental para absorver os argumentos contrários. É essencial para fazer uma avaliação da própria opinião. Será que ela está tão correta assim?

Quinto, procure saber de onde vêm as informações que supostamente embasam determinada opinião. Qual é a fonte? A interpretação está correta ou foi distorcida?

Por fim, em sexto lugar: aumente o consumo de notícias factuais ou explicativas e reduza o de conteúdo puramente opinativo. Uma proporção de 70%/30% está de bom tamanho. Mas isso é só uma opinião.

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