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democracia em guerra
Manifestação em Paris contra a guerra na Ucrânia| Foto: Christophe Petit Tesson/EFE

Democracias não fazem guerras com outras democracias, é o que dizem os teóricos da Paz Democrática. Eu me arrisco a criar um novo corolário: toda democracia em guerra se torna menos democrática, seja quando interfere militarmente em um país com governo ditatorial (os Estados Unidos contra o Iraque, em 2003, por exemplo), seja quando se defende de uma agressão (caso da resistência da Ucrânia à invasão russa).

A rigor, antes do conflito a Ucrânia era um país em processo de democratização, com muitos problemas nesse quesito. E países em transição para a democracia são mais propensos a guerras, segundo a teoria da Paz da Democrática.

Mas, comparada com a Rússia, a Ucrânia tinha, sim, um sistema político mais livre, o que pode ser atestado por critérios como o de oportunidades de participação política e possibilidade de alternância de poder.

Uma das maneiras pelas quais um país democrático se torna menos democrático quando em guerra — ainda que os motivos que o levou ao conflito sejam plenamente legítimos — é o tratamento dispensado à imprensa e à livre circulação de informação.

Uma democracia em guerra SEMPRE tenta controlar a informação e procura impor algum tipo de cerceamento ao trabalho daqueles que relatam e retratam o conflito: os jornalistas.

O que diferencia os países democráticos das ditaduras em guerra é que, no segundo caso, o controle que se busca é total.

Na II Guerra Mundial, Estados Unidos, Reino Unidos e França adotaram um sistema de censura prévia aos correspondentes de guerra credenciados muito parecido com o que já tinha estado em vigor a I Guerra. Os textos passavam pela leitura de um militar do front ocidental antes de serem enviados para publicação.

Já na Alemanha nazista, não havia espaço algum para imprensa independente. Nem com, nem sem censura. Os jornalistas alemães foram incorporados ao exército e estavam literalmente a serviço do esforço de guerra. Hitler criou a Propaganda Kompanie, que chegou a ter 12.000 correspondentes nas mais diversas funções, inclusive acompanhando a infantaria na linha de frente ou saltando com os paraquedistas. O resultado é que as páginas dos jornais de qualquer parte do mundo eram cheias de fotos e informações repassadas pelas agências alemãs.

No lado soviético, por sua vez, era um deserto de informações e de imagens da atuação do Exército Vermelho. Os dirigentes comunistas nem se davam o trabalho de enviar seus jornalistas. De qualquer forma as informações seriam ditadas de cima para baixo.

Em guerras mais recentes, as democracias moldaram e testaram diferentes estratégias para controlar o fluxo de informação dos conflitos em que estiveram envolvidas, limitando ou direcionando o conteúdo produzido pelos jornalistas. Uma das mais utilizadas, principalmente pelos Estados Unidos, é a estratégia do confinamento: para ter acesso às zonas de combate, os jornalistas são pressionados a se credenciar e a aceitar limitações impostas pelos militares.

Como resultado, relatar algo que desagrada aos "anfitriões" pode levar a retaliações, como a expulsão ou a perda de acesso.

Isso vem acontecendo com cada vez mais frequência na Ucrânia. Ainda assim, é melhor do que o que ocorre no lado russo, que permite apenas a presença de jornalistas do próprio país e de veículos de imprensa submissos ou diretamente controlados pelo Kremlin.

A dificuldade das autoridades ucranianas de tolerar a liberdade de imprensa na cobertura da guerra fica evidente quando confrontadas com relatos ou perguntas um pouco mais incômodas.

Na última segunda-feira (25), por exemplo, participei de entrevista com o ex-embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, no programa Roda Viva da TV Cultura, e perguntei a ele sobre os relatos de que fogo amigo (bombas lançadas pelas forças ucranianas) está provocando a morte de civis ucranianos em territórios controlados pelos russos. O que as autoridades ucranianas estão fazendo para evitar isso?, questionei. Tronenko ficou indignado, acusou-me de querer atribuir à Ucrânia a culpa pela guerra e pelas mortes de inocentes — e não respondeu.

Não que antes da guerra o governo ucraniano fosse muito propenso a aceitar a liberdade de imprensa irrestrita.

Um artigo do Kyiv Independent, jornal em inglês da capital ucraniana, publicado poucas semanas antes do início da guerra, por exemplo, criticava duramente o que chamava de "movimentos para desmantelar a liberdade de imprensa" por parte do governo de Volodimir Zelensky.

Atualmente, a publicação está totalmente comprometida em relatar o conflito sob uma ótica alinhada à do governo Zelensky. O esforço de guerra para a defesa do país não permite a menor possibilidade de crítica. O apoio deve ser total.

Quando esse apoio é orgânico, tudo bem. E quando não é?

Uma democracia em guerra será sempre menos democrática.

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