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Itamaraty, em Brasília| Foto: Gustavo Ferreira/AIG-MRE

No Brasil e no mundo, a diplomacia é entendida como política de Estado, e não de governo. Compromissos entre nações requerem alguma previsibilidade de longo prazo, estando acima das rixas ideológicas que movem os ciclos eleitorais. A diplomacia, vale ressaltar, se pauta por critérios muito menos abstratos e ideais do que o mundo da política eleitoreira. Países têm, acima de tudo, interesses particulares, e cooperam ou se chocam quando necessário para atingir esses interesses.

O governo brasileiro, entretanto, parece não ter entendido como o jogo funciona. Por um misto de fanatismo ideológico com imprudência, o Brasil segue se distanciando comercialmente dos seus dois principais parceiros de exportação: China e União Europeia, nesta ordem. A retórica inflamada do presidente, sua família e do chanceler tem feio a China buscar alternativas na importação de commodities. A agenda ambiental do governo, que faz questão de ser politicamente incorreta, afasta cada dia mais os complexos acordos comerciais entre Mercosul e a União Europeia.

Como se o cenário não fosse preocupante o suficiente, Bolsonaro agora ameaça usar "pólvora" contra os EUA, nosso terceiro maior parceiro de exportação, em caso de sanções econômicas por parte deles como retaliação à nossa agenda ambiental. Um ato de beligerância gratuito - e francamente, até ridículo, considerando as forças envolvidas - que só serve para afastar mais o Brasil dos EUA durante a próxima administração. Fica difícil de acreditar que o governo brasileiro não tenha como plano deliberado isolar o Brasil geopoliticamente, porque é exatamente isso que estão fazendo.

A incapacidade do presidente e sua cúpula de distinguirem os limites entre o público e o privado é uma das razões para as turbulências que estamos enfrentando. O governo age como se administrasse uma mercearia de bairro, e não um país com interesses de Estado de longo prazo. Um dos sintomas desse diagnóstico é a completa desconsideração pela liturgia. Para qualquer cargo de alta responsabilidade, comportar-se de acordo com a função é importante para sinalizar competência e profissionalismo. Não seria diferente no cargo máximo da nação.

A grande verdade é que Jair Bolsonaro faz um esforço diário pra não ser levado a sério. A cada piada de mau gosto, a cada bravata solta sem o menor pudor, a cada ironia de baixo calão, a cada teoria conspiratória sem pé nem cabeça e a politização constante de absolutamente tudo, só reforça percepção da sociedade, sobretudo da comunidade internacional, de que o presidente não tem a menor ideia do que está fazendo.

Perde o Brasil, perde o brasileiro.

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