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A quem você deve…?

Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo (Foto: )
Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo

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A quem você deve…? Lembro de ter lido, anos atrás, que o jornalista Gilberto Dimenstein desenvolve um projeto com celebridades, sumidades e quem quer que esteja em primeiro plano na sociedade. Produz perfis – esse delicioso gênero jornalístico que se avizinha da biografia, mas sem ostentar as mesmas pretensões. A todos os seus entrevistados faz a mesma pergunta: “A quem você deve ser o que é?”.

Até onde pude acompanhar, a maior parte dos entrevistados dá uma resposta parecida: cientistas, atores, personalidades da mídia e tal têm “dívidas” com algum professor, cuja lembrança estava em teias de aranha, nas memórias que trajam uniforme e conga. Mas a resposta não vem a galope. Custa a nascer. É fato. Parece simples responder à pergunta do Dimenstein, mas o que bem se sabe – em contato com entrevistados aqui e ali – é que nem sempre nos fazemos as perguntas mais simples. Daí a dificuldade em dizer, à queima-roupa, quem foi a pessoa que mais nos influenciou, ou graças a quem fizemos a tal da “dobra da vida”.

Acho um barato o que o Dimenstein ouviu da apresentadora Hebe Camargo, nada menos do que a fada madrinha da televisão brasileira. Ela teria insistido que não devia nada a ninguém. Que se fizera por si mesma. Como essa afirmação de heroísmo fazia parte do layout que Hebe construiu para si, Dimenstein insistiu. Irritou-a. Até que a artista se rendeu, lembrando do pai, homem de poucos estudos e posses menos ainda, músico diletante da Filarmônica de Taubaté, e que acordava as filhas não aos berros, mas tocando violino. A mulher de alegria em estado bruto devia, sim, muito àquele homem criativo. Reconheceu. Golaço do jornalista.

O benfeitor, não raro, é uma espécie de habitante da vida em segredo. E é isso que emociona os entrevistados. Eles se dão conta de que aqueles que um dia lhe mostraram um lado extraordinário da existência, que deram a mão, ou simplesmente que apresentaram um livro, um disco, sei lá, continuaram onde estavam, habitantes do lugar comum. Muitos se acabam no choro ao constatarem essa dinâmica absolutamente poética, com toques de injustiça, humana até doer.

Cá entre nós, a contar pelos testemunhos, o lugar dos professores nesses bancos de boas dívidas impressiona. Não podemos nos esquecer disso – um dia, sem maiores pretensões, haveremos de dizer a frase, de dar o exemplo ou a chance, que marcarão a trajetória de nossos alunos para sempre. Dificilmente saberemos o resultado – a não ser que mais gente faça como o Dimenstein. De minha parte, faço gosto de colecionar essas histórias. Adotei a frase: “A quem você deve…” Experimente.

De um cunhado, ouvi dia desses uma ótima. Encontrou num bar um professor do Colégio Estadual do Paraná, com quem tinha estudado. Achou o homem meio derrubado de fato, já nas raias de desilusão e com vodcas demais na conta. Criou coragem. Levantou-se. Disse o clássico “lembra de mim?” e contou ao ex-mestre o quanto o admirava. Falou da tal diferença que as aulas causaram na sua história. Agradeceu por tudo. Ao que foi abraçado por um veterano em lágrimas. Talvez esperasse por esse momento.

>> José Carlos Fernandes é jornalista da Gazeta do Povo e professor do curso de Jornalismo da UFPR.

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