O que esperar da educação em 2021?
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Essa é uma pergunta que tem inquietado educadores, pais, alunos e toda a sociedade. Boa parte do que planejamos para 2021 não estamos conseguindo realizar. Vivemos um processo de tentativa e erro, muito similar ao que viviam as organizações no século 19. Há divergências de opiniões, orientações e também marcos regulatórios contrastantes entre municípios e estados quanto à abertura das escolas e à retomada das atividades presenciais.

Muitas escolas privadas já estão com atividades presenciais parciais ou tiveram essa experiência no início do ano letivo, enquanto quase que a totalidade das escolas públicas não. Também, quando analisamos o ensino remoto, observamos parte dos alunos com um ensino de maior qualidade, parte com ensino muito rudimentar e uma boa parcela dos estudantes sem realizar nenhuma atividade.

O ano já começou com uma sensação estranha, quando tivemos um fato inédito na história da educação brasileira: a união de dois anos letivos em um ano só. Não tivemos aqueles “momentos mágicos” de início de ano, tão importantes para a motivação e engajamento dos alunos. Os professores voltaram com medo, insegurança e muito desmotivados, o que não difere do comportamento dos alunos e das famílias.

Isso se deve também ao fato de que, depois de várias tentativas, praticamente todas as escolas e sistemas educacionais encerraram de qualquer maneira o ano letivo de 2020. Não foi possível fazer uma avaliação real da aprendizagem durante todo o ano passado. Agora, iniciamos 2021, sem ter um diagnóstico mais preciso de quanto as crianças aprenderam.

O pesquisador e especialista em educação Fernando Reimers, da Universidade de Harvard, recentemente lançou o livro Leading Education Through Covid-19 (sem tradução na língua portuguesa), no qual apresenta resultados de pesquisas sobre o impacto da pandemia na educação e no mundo. Ele reforça que muitos alunos não aprenderam quase nada com o ensino remoto e muitos não voltarão à escola mais, além de afirmar que a pandemia deve aumentar de forma considerável as desigualdades sociais.

Corroborando com a pesquisa de Reimers, destacamos os aspectos apresentados pelo Banco Mundial em seu recente relatório e também os resultados das pesquisas realizada pela Fundação Getúlio Vargas e a Fundação Lemann, sobre o impacto da pandemia da aprendizagem dos alunos. Tanto o relatório como os pesquisadores das fundações são enfáticos ao afirmar que o Brasil ficou longe do esperado em termos de aprendizagem dos estudantes. Se já era crítico o nível de aprendizagem, principalmente nas escolas mais vulneráveis, a situação ficou desastrosa, desesperadora.

Em seus estudos, Reimers concluiu que se não houver boa liderança, inovação e colaboração entre governo e sociedade, a pandemia pode resultar no "maior retrocesso da educação em um século".

Entre tantos desafios e tarefas que estão postos à frente dos gestores e educadores para o início deste ano, destacamos a necessidade de fazer uma real avaliação da aprendizagem dos alunos. Precisamos organizar momentos presenciais com o apoio e envolvimento das famílias, respeitando todos os protocolos de saúde e distanciamento social para realizarmos essas avaliações. Elas são fundamentais para elaboração do plano de estudos, que deve ser individualizado. Cada aluno deve ter o seu próprio plano.

Esse projeto deverá ser construído não de forma estanque. Vamos precisar de tempo para que essa construção se efetive. O primeiro passo, como já mencionado, é a realização de um bom diagnóstico da aprendizagem, com a identificação dos principais problemas apresentados, aluno por aluno. Esses problemas devem ser comunicados aos pais e o plano de recuperação deve ser individualizado e com acompanhamento desses pais. As escolas precisam conversar com as famílias e apresentar a elas uma espécie de boletim de aprendizagem, que vai muito além das notas, em que os pais consigam identificar o que o aluno de fato aprendeu, o que ele deveria ter aprendido e o que faltou aprender. Também deverá ser apresentado o plano de aprendizagem para este ano. Mesmo sendo um trabalho difícil, é preciso prestar contas para os pais e apresentar o projeto de recuperação dessa aprendizagem.

Por fim, é preciso que a escola, gestores e professores assumam com franqueza as dificuldades encontradas, os erros cometidos e a incapacidade de oferecer ou ministrar aulas remotas com a qualidade que se fazia com as aulas presenciais. Mas é também importante lembrar que já vivíamos uma crise de aprendizagem no sistema presencial e não seria de se esperar que pudéssemos resolvê-la como num toque de mágica. Mesmo com todo o esforço realizado pelos professores, que deram um “show” em termos de inovação, dedicação e reinvenção da aula, não foi possível garantir uma qualidade no ano passado que nos desse tranquilidade para começar bem o novo ano letivo.

Acredito serem esses os primeiros e grandes desafios que temos de enfrentar. Muitos outros também estão se apresentando. Mas precisamos, mais do que nunca, ter foco nesse momento nas questões aqui apresentadas. Se fizermos bem essa primeira lição, conseguiremos aos poucos ajustar e fazer com que haja avanços em nosso sistema educacional.

Mesmo com todas essas dificuldades, carregamos a certeza de que os professores encontrarão formas para minimizar os impactos dessa terrível crise que vivemos. Novos tempos hão de vir e, enquanto eles não chegam, continuamos conjugando o verbo “esperançar”, do grande Paulo Freire. “Esperançamos” por um mundo novo, em que a pandemia deverá ser a grande ponte de transformação da nossa tão sofrida educação brasileira.

Renato Casagrande é educador, fundador e presidente do Instituto Casagrande e da Alleanza Educacional. É conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão. Referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas). 

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