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Teria a educação virado um Meme?
| Foto: Elaborada pelo autor em gerarmemes.com.br

- Vocês estão me ouvindo?

- Professora: você “tá” travando!

- Amanhã será no Meet ou no Zoom?

- Vocês estão vendo a minha tela?

- É remoto, presencial ou híbrido?

- Professor: não achei o link!

- A aula será síncrona ou assíncrona?

- Hoje a minha internet não está ajudando...

Mas, afinal de contas, o que é um meme? É um termo apresentado pelo biólogo evolutivo Richard Dawkins em sua obra “O Gene Egoísta” de 1976. Um meme pode ser considerado como uma espécie de unidade de evolução cultural com características de autopropagação. Os memes geralmente são representados por uma ideia, um desenho, uma frase, um som, um grafismo, um ícone estético ou qualquer elemento que permita fácil compreensão e transmissão de forma quase autônoma. Quando utilizado em contextos do dia a dia, e de maneira informal, o termo pode apenas sugerir a transferência de informação de uma mente para outra. É possível notar que o uso atual dos memes, principalmente em redes sociais e geralmente recheados de humor e de mensagens subliminares, impulsionam o movimento da linguagem como um vírus. Daí o surgimento da expressão “viralizou na internet”.

E se pudéssemos olhar para tudo isso com outras lentes? Será que não conseguiríamos, sob a luz da antifragilidade que nos provoca a encontrar benefícios diante do caos, tirarmos algum proveito de tudo o que estamos vivendo nos últimos meses no cenário da educação? Será que a extraordinária capacidade e inteligência humana nos deixará enxergar a quantidade de novos aprendizados invisíveis que alunos e professores conquistaram, e ainda conquistarão, ao longo da pandemia?

Por mais que estejamos hoje, sofrendo aqui no Brasil, com os reflexos da pobreza da aprendizagem sugerida a partir dos números divulgados no relatório do Banco Mundial, em projeções que apontam um cenário no qual 70% das crianças do ensino fundamental terão grandes dificuldades com leitura e compreensão de textos simples, em função dos distanciamentos por causa da Covid-19, estou certo de que a escola (entenda aqui que a palavra “escola” representa todas as instituições de ensino), em função da pandemia, precisou fechar as portas para que ela mesma pudesse aprender. Pois, nos anos letivos que antecederam o ano 2020, tudo o que acontecia desde a semana pedagógica até o conselho de classe e entrega das médias finais, era um movimento frenético do mais do mesmo do paradigma da instrução, composto pelo excesso de aulas expositivas, das turmas encerradas em filas e paredes, das grades curriculares que aprisionam o pensamento crítico e criativo, das ações pedagógicas desprovidas de novas metodologias e, quase sempre, despidas de tecnologias emergentes.

A fotografia de um ano letivo das instituições de ensino antes da pandemia, revelam uma imagem muito semelhante a uma corrida de obstáculos, na qual visualizamos alunos preocupados com as provas bimestrais, com as notas nos boletins, com a linha de chegada e, não com o percurso. Como se o mais importante fosse o troféu contendo a inscrição “aprovado” impressa em letras garrafais que, geralmente, não reflete o que realmente foi aprendido ao longo desse longo e cansativo sprint educacional.

E para não ficarmos apenas na espuma rasa e barulhenta dos pseudo especialistas em educação que surgiram na web nos últimos meses, vamos nos concentrar, por exemplo, nas dimensões propostas no projeto de educação da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) para 2030, que apresenta os quatro objetivos para a educação do século 21: o conhecimento no que se refere ao que sabemos e compreendemos, as habilidades que mostram como usamos o que sabemos, o caráter que apresenta o comportamento humano diante das transformações que ocorrem no mundo e o meta-aprendizado, que também pode ser entendido por aprender a aprender, que denuncia a forma como refletimos e nos adaptamos às novas situações ao longo da vida.

Estamos todos, professores, alunos, gestores educacionais e familiares, transitando sobre um gigantesco ponto de inflexão que mudará a curvatura, a forma e o jeito com que teremos que conectar, comunicar e impactar o mundo. A educação côncava, que insistia em convergir seres humanos diferentes para um mesmo ponto focal, agora está aprendendo a ser convexa, a divergir e a combinar elementos para que possamos criar novas oportunidades, com trilhas não engessadas, nas quais uma educação de vanguarda, relevante e inclusiva, transforma-se de forma orgânica e natural, em um grandioso meme que viralizou na vida de toda a sociedade.

*Texto escrito pelo Professor José Motta, engenheiro, professor, gestor educacional, especialista em Principles of Technology, Mestre em Tecnologias Emergentes em Educação, Co-Fundador da Moonshot Educação, Diretor Educacional da Silicon Valley Brasil, Head of Edtech das Startups Beenoculus e Beetools Advisor do Circuit Launch Program no Vale do Silício (USA). O profissional colabora voluntariamente com o Instituto GRPCOM no Blog Educação e Mídia.

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