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Entrelinhas

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Entrevista

EUA acusam Brasil de falhar contra PCC e CV; coautor de “Narcocultura” aponta origem do problema

(Foto: Divulgação/ Hélio Werneck)

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Os Estados Unidos acusaram o Brasil de falhar no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV) e afirmaram que as duas facções transformaram o país em um centro do fluxo global de cocaína. A declaração consta de documento enviado pela Casa Branca ao Congresso americano.

Para Bernardo Ambrozio, coautor de Narcocultura: O Brasil sob o Império do Crime, oficial da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, graduado em
direito, especialista em Segurança Pública, Direito e Processo Penal, a situação brasileira é resultado de décadas de políticas que, em sua avaliação, não enfrentaram adequadamente o avanço das facções criminosas. Nesta entrevista, ele também fala sobre segurança pública no Rio de Janeiro, autonomia dos estados, o papel das guardas municipais e o conceito de “narcocultura”, tema central do livro.

Entrelinhas: Os Estados Unidos acusaram o Brasil de falhar no combate ao PCC e ao Comando Vermelho. O documento afirma que essas organizações transformaram o país em um centro do fluxo global de cocaína. Como o senhor avalia essa acusação?

Bernardo Ambrozio: Na verdade, isso é mais evidente do que qualquer outra coisa. Não é novidade que a política brasileira, tirando aí os quatro anos do governo Bolsonaro, nunca teve a intenção de combater o narcoterrorismo, as facções, a narcocultura. Muito pelo contrário.

Se a gente fizer uma análise e verificar realmente se existiu combate, se foram determinadas ações efetivas para essa supressão, a gente vê que, na verdade, não. A gente vê o contrário. A gente vê sempre um fomento ao crime e ao criminoso.

Isso se deve muito à esquerda brasileira, que sempre adotou uma visão revolucionária da Escola de Frankfurt e da chamada Escola de Gramsci, que leva em consideração a bandidolatria e sempre pinta o policial que combate o crime como um imbecil, como um idiota, como um corrupto e tudo mais.

Eu acho que precisamos urgentemente nos conectar a essa nova direita latino-americana, que vem, de fato, combatendo o tráfico de drogas, a narcocultura e o narcoterrorismo. Já passou da hora de nos ligarmos a eles, aproveitar essa iniciativa do Escudo das Américas, aproveitar essa certificação que os Estados Unidos deram, reconhecendo o CV e o PCC como organizações narcoterroristas, e começar, de fato, a combater o crime como ele deve ser combatido.

Entrelinhas: O senhor falou em combater o crime. Que mudanças seriam necessárias na estrutura da segurança pública brasileira?

Bernardo Ambrozio: Uma coisa muito interessante seria a gente começar a pensar em seguir o modelo americano e estabelecer as guardas municipais como forças policiais locais. Isso ajudaria muito no combate ao tráfico e à criminalidade propriamente dita, no final da linha.

Também precisamos falar sobre autonomia. Esse SUSP, o Sistema Único de Segurança Pública, que trouxeram à baila há pouco tempo, seria o SUS da Segurança Pública. Na minha visão, isso é um engodo para engessar e tirar justamente a pouca autonomia que os estados têm sobre suas próprias polícias.

Na verdade, isso é uma tradução de um Estado fascista: tudo dentro do Estado, nada fora do Estado e tudo concentrado em Brasília. O que eles estavam querendo com esse SUSP? O controle das polícias e passar a determinar o que as polícias estaduais poderiam ou não fazer.

Entrelinhas: E qual seria, na sua avaliação, o papel do governo nessa mudança?

Bernardo Ambrozio: O que a gente poderia visualizar de melhoria fomentada pelo governo seria justamente mais autonomia financeira, inclusive, para que o dinheiro fosse aplicado na atividade, e não nessa burocracia toda que a gente vê.

Por exemplo, o dinheiro de um imposto regional é arrecadado pelo governo do estado, vai para Brasília e, de Brasília, é redistribuído para o estado. Isso gera um embrólio. O ideal seria que os recursos pudessem ser aplicados com mais autonomia por quem está efetivamente na ponta.

Entrelinhas: O senhor costuma dizer que o Rio de Janeiro é um “balão de ensaio” para o Brasil. Como está vendo a questão da segurança pública no estado neste período eleitoral?

Bernardo Ambrozio: De fato, como nós sempre falamos, o Rio de Janeiro é o balão de ensaio. E aí a gente precisa fazer um exercício de memória.

A Prefeitura do Rio de Janeiro é quem tem que ter o controle territorial. E, quando eu falo em controle territorial, é justamente o crescimento das favelas. É não deixar as favelas crescerem.

O atual candidato ao governo do estado, Eduardo Paes, ficou, a grosso modo, 14 anos na Prefeitura do Rio de Janeiro. Se a gente pegar os dados de 14 anos atrás até hoje, a gente vê que o crescimento desordenado do solo, essa velocidade, essa ferocidade com que as favelas cresceram, foi absurda.

Então, o que ele vem fazer agora? Ele traz a Guarda Metropolitana, Forças Especiais da Guarda Civil, na minha concepção, para surfar uma onda.

Porque o carioca já não aguenta mais tanta criminalidade. O carioca chegou ao absurdo de ter que comprar um celular de valor mais baixo para perder, entre aspas, em um assalto. Se quiser estar mais seguro, precisa comprar um carro blindado.

As pessoas não aguentam mais isso. E aí o que acontece? Tanto Eduardo Paes quanto o restante da esquerda perceberam que o hype dessas eleições, o que vai dar engajamento e voto, é justamente a segurança pública.

Não à toa, teve um comício em Bangu em que Eduardo Paes trouxe o presidente Lula. Fizeram um palanque onde Lula falou que, a partir de seu próximo governo, iriam devolver os territórios para a população de bem e que o traficante seria preso.

Eu já fiz esse alerta várias vezes: não podemos nos deixar enganar.

Entrelinhas: O senhor mencionou a perda de território para o crime. Qual é a dimensão desse problema no Rio?

Bernardo Ambrozio: Só para a gente ter uma noção, atualmente temos mais ou menos 1.750 e tantas favelas dominadas pelo tráfico de drogas. E isso teve um crescimento exponencial ao longo da vigência da ADPF 635.

Entrelinhas: O senhor é coautor do livro Narcocultura: O Brasil sob o Império do Crime. Como surgiu esse projeto?

Bernardo Ambrozio: O projeto partiu de uma defensora do Distrito Federal, a Bianca Rosier, e da Bruna Weiss, que é uma advogada civilista aqui do Rio de Janeiro.

A Bruna estava muito incomodada com esse crescimento da criminalidade no Rio. Chamou a Bianca e falou: “Bianca, a gente precisa fazer alguma coisa. A gente precisa escrever, precisa botar isso para frente, porque as pessoas precisam saber desse fenômeno”.

E aí montaram um time. Fui agraciado com uma vaga no livro e passamos a desnudar o que é o fenômeno da narcocultura. O meu capítulo é o capítulo inicial, em que falo sobre o conceito, a abordagem, quais são as possíveis soluções e tudo mais.

Entrelinhas: E o que exatamente é a narcocultura?

Bernardo Ambrozio: A minha abordagem foi um pouco mais histórica. A gente vê o surgimento dessa narcocultura propriamente dita no Brasil.

E o que é a narcocultura? A narcocultura é uma inversão de símbolos e valores, a criação de um ambiente próprio para fomentar não só o tráfico de drogas, mas o crime em si e todo o seu arcabouço.

A gente vê esse movimento crescendo com a Escola de Frankfurt e com a chamada Escola de Gramsci. O que ambas pregam? A Escola de Gramsci prega justamente a hegemonia cultural e, mais precisamente, nos Cadernos do Cárcere, fala sobre os vetores da revolução.

Depois vem a Escola de Frankfurt e, mais especificamente, Marcuse, no livro One-Dimensional Man, que no Brasil encontramos traduzido como O Homem Unidimensional ou O Homem Unidirecional. São traduções do mesmo livro.

E Marcuse fala sobre a mudança dos vetores da revolução. A revolução, segundo essa abordagem, viria pela conquista de corações e mentes.

E ele coloca o lumpemproletariado como um dos vetores dessa revolução. Grosso modo, seria um proletariado composto por prostitutas, criminosos, pessoas afeitas ao crime e pequenos contraventores.

Essas escolas são abraçadas pela esquerda aqui no Brasil. E aí a mídia toda compra essa ideia, que parece muito bela, mas, no fundo, não é, e passa a transformar esses símbolos.

Então, o policial que combate o crime vai sendo transformado em uma figura cruel, em uma figura imbecil, num vagabundo, propriamente dito.

E aí acontece, na outra ponta, um fenômeno chamado bandidolatria, que é justamente o agraciamento em cima do bandido. O bandido passa a ser o benfeitor e o mocinho passa a ser o errado.

Entrelinhas: Como esse fenômeno teria chegado ao Brasil?

Bernardo Ambrozio: A narcocultura surge daí, no pós-guerra, e no Brasil, mais para frente, na década de 1960 em diante. Depois que a gente entra com o regime militar, o regime militar deixa a academia, as escolas, a cultura, tudo de lado, dando espaço para que essa narcocultura comece a surgir junto a essas duas escolas.

E é justamente esse processo histórico que eu procuro desnudar no livro: como símbolos e valores vão sendo invertidos até chegarmos ao cenário que temos hoje, em que o criminoso pode passar a ser apresentado como vítima e quem combate o crime como o verdadeiro problema.

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