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Detida dentro da própria casa por agentes da Direção de Contrainteligência Militar (DGCIM), sem mandado de prisão ou de busca, a venezuelana María Oropeza passou meses encarcerada no Helicoide, uma das prisões mais conhecidas do regime chavista. Ela conta que chegou a permanecer até 40 dias seguidos sem ver a luz do sol e descreve a experiência como a de estar em um “depósito de gente”.
Ex-chefe de campanha de Edmundo González Urrutia no estado de Portuguesa, Oropeza afirma que sua prisão ocorreu após a oposição obter uma vitória expressiva na região nas eleições presidenciais. Libertada após os acontecimentos de 3 de janeiro, ela diz, porém, que a queda de Nicolás Maduro não foi suficiente para encerrar o regime e defende uma transição que leve a eleições livres.
Nesta entrevista à coluna Entrelinhas, María Oropeza fala sobre a prisão, as condições no Helicoide, a situação política da Venezuela e os riscos que, segundo ela, outros países latino-americanos deveriam observar. Ao falar do Brasil, afirma que o país vive um cenário que guarda semelhanças com o processo venezuelano e faz críticas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Entrelinhas: Lembro-me de quando você foi detida, dentro da própria casa, em uma operação na qual agentes do regime invadiram o imóvel e destruíram parte da residência. O que aconteceu naquele dia, por que você foi presa e quais acusações foram apresentadas contra você?
María Oropeza: Eu estava em casa, prestes a dormir, quando ouvi barulhos no corredor. Eram funcionários da DGCIM (Direção de Contrainteligência Militar) que estavam me procurando sem ordem de prisão nem ordem de busca e apreensão. Naquele momento, a única coisa que me ocorreu foi gravá-los em uma transmissão ao vivo pelo Instagram. Eu pedia que mostrassem alguma ordem de busca, e eles me diziam: “Isso não é mais usado agora”. Como não conseguiram abrir a porta com uma chave que tinham, decidiram derrubá-la com um tubo gigante.
Nunca me deram uma explicação sobre o motivo pelo qual estavam me procurando, mas eu supunha que fosse porque havia sido chefe de campanha de Edmundo González Urrutia no estado de Portuguesa e havíamos vencido com resultados esmagadores.
Entrelinhas: Depois de passar pelo Helicoide, como você descreveria as condições daquela prisão e o tratamento dado aos presos políticos? O que mais marcou você nessa experiência?
María Oropeza: É um centro de tortura, um depósito de gente. Eles te colocam lá e se esquecem de você, da sua existência, de que você é um ser humano.
Eu estava em uma cela de 4 por 3 metros com outras cinco companheiras. Havia um banheiro interno, mas, quando eles queriam, não colocavam água. Várias vezes tivemos de fazer nossas necessidades fisiológicas sem água.
Ficávamos trancadas, sob chave, 24 horas por dia, sem janelas. Às vezes entravam roedores e não tínhamos como tirá-los porque estávamos trancadas. Podíamos passar até 40 dias seguidos sem sair ao sol. Não sabíamos quando era dia ou noite, nem podíamos ver a chuva, a não ser por um relógio que marcava a hora.
Nos primeiros oito meses, os funcionários eram extremamente hostis. Podiam entrar na cela apenas para nos insultar. Como éramos políticas, eles tentavam se precaver contra maus-tratos físicos, mas aprimoraram as chamadas “torturas brancas”, para fazer você saber que estava ali por ter feito algo errado, mesmo sem que existissem provas contra você.
Tenho consciência de que alguns dos meus companheiros sofreram, sim, torturas físicas.
Entrelinhas: A detenção de Nicolás Maduro foi um acontecimento de enorme importância para a Venezuela. Para você, como vítima da repressão do regime, qual é o significado da queda e da prisão de Maduro? Isso pode marcar o início de uma nova etapa para o país?
María Oropeza: Graças àquele glorioso 3 de janeiro, hoje estou em liberdade, assim como muitos dos meus companheiros. Sem dúvida, esse acontecimento foi importante para a luta que travamos durante quase três décadas. Mas essa ajuda, sozinha, não acabou com o regime.
Delcy Rodríguez e seu regime ainda permanecem no poder. Ainda há centenas de presos políticos nas masmorras e ainda existem grupos repressores no país, embora certamente não com a mesma força.
É necessário avançar para uma transição que permita construir bases democráticas e, finalmente, escolher, por meio de eleições livres, quem queremos que conduza este país. Os venezuelanos confiamos na liderança de María Corina Machado, que é quem desfruta da maior confiança e legitimidade para liderar esse processo rumo à liberdade.
Entrelinhas: Depois dos últimos acontecimentos, como você avalia a situação política da Venezuela? O país está realmente avançando para uma transição democrática ou ainda existem estruturas do regime capazes de impedi-la?
María Oropeza: Ainda existem estruturas do regime que continuam tentando minar nossos direitos, mas a cidadania não se deixa intimidar. Continua lutando e fazendo o que precisa ser feito.
O país precisa de um cronograma eleitoral que dê certezas de que estamos realmente avançando para uma transição de liberdade e democracia. A data da eleição é a nossa data de libertação.
Entrelinhas: O que deveria acontecer agora para garantir que aqueles que foram perseguidos, presos ou exilados por razões políticas possam recuperar seus direitos e que os responsáveis pela repressão respondam perante a Justiça?
María Oropeza: Primeiro, devem ser libertados os mais de 300 presos políticos que ainda permanecem nas masmorras do regime, e devemos garantir justiça.
Para isso, é necessária uma Comissão da Verdade, com especialistas nacionais e internacionais que tenham ética e moral, para analisar cada caso. Isso deve ser tratado de acordo com as penas determinadas pelo Poder Judiciário.
Também deve haver reparação dos danos às vítimas e, evidentemente, a garantia de que esses fatos tão atrozes não se repitam em nosso país.
Os centros de tortura devem ser transformados em museus, para construir uma memória histórica em nosso país. Nunca mais repetir esse horror, mas também nunca esquecer como as máfias e o crime organizado no poder atuam contra os dissidentes.
Entrelinhas: Você conhece de perto o processo que levou a Venezuela ao autoritarismo. Que sinais desse mesmo processo você reconhece hoje em outros países da América Latina? Há algo que o Brasil deveria observar com especial atenção para não repetir a experiência venezuelana?
María Oropeza: O Brasil é um país que não podemos esquecer. Neste momento, atravessa um possível processo de fraude eleitoral, tal como aconteceu na Venezuela, com uma pessoa que está há 12 anos no poder e que perseguiu seus principais adversários.
Precisamente a falta de alternância no poder, as ameaças contra aqueles que pensam diferente, a pouca ou nenhuma separação dos poderes públicos e o populismo de querer salvar os pobres enquanto se persegue o restante do país, entre outras coisas, foi o que levou a Venezuela a se transformar em uma tirania, mas também em um assentamento de cartéis de drogas, crime organizado e guerrilhas de todo o mundo, amparados por Chávez, Maduro e agora Delcy.
Os cidadãos brasileiros devem evitar esse cenário no Brasil. Salvar a pátria é um dever moral de todas as gerações em relação às futuras gerações.
Entrelinhas: No Brasil, o governo Lula mantém uma relação histórica com setores da esquerda latino-americana ligados ao Foro de São Paulo. A partir da sua experiência na Venezuela, como você avalia essa relação e quais riscos acredita que existem quando governos da região mantêm vínculos políticos com movimentos que foram aliados do chavismo?
María Oropeza: Lula da Silva tem uma dívida muito grande com a Venezuela e com a América Latina. Seus sonhos socialistas nos fizeram viver um pesadelo de fome, miséria e corrupção.
Ele é cúmplice de todas as violações dos direitos humanos na Venezuela, assim como outros que decidiram se calar enquanto isso acontecia porque se beneficiavam do petróleo venezuelano.
O temor agora é que Lula queira repetir esses fatos contra seu próprio povo. Isso não deve ser permitido sob nenhuma circunstância.
Queremos que a Venezuela seja livre, mas que a América Latina também seja livre. Por isso, aqueles que acreditamos na liberdade, na democracia e nos direitos fundamentais dos cidadãos devemos unir forças e continuar levantando a voz em todos os espaços possíveis para que o comunismo e o socialismo nunca mais voltem aos nossos países.
Que Deus e a cidadania salvem o Brasil e a Venezuela.

Mariana Braga é jornalista formada pela UFPR, com mestrado pela École Normale Supérieure de Lyon, na França. Trabalhou como assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Paraná. Foi repórter, apresentadora, editora e chefe de reportagem em emissoras de televisão. Tem formação também em Artes Cênicas e Psicanálise. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




