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A reforma do ensino médio e o sepultamento da formação cultural
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A formação cultural dos jovens, que englobe uma formação humanística e artística nos estudantes brasileiros, acaba de receber um forte revés na recente medida provisória que trata da “Reforma do ensino médio”. Por si só considero um absurdo deixar de ser obrigatório o estudo de filosofia, artes, literatura e sociologia e de serem desprestigiadas matérias fundamentais como história e geografia. Mas, além destas importantes matérias, que são essenciais na formação cultural do jovem não serem mais obrigatórias, correm o sério risco de serem eliminadas de vez no ensino médio. Além da formação humanística ser desprezada pelos idealizadores desta reforma (idealizadores, diga-se a verdade, vindos do antigo e do novo governo) o arcabouço da propalada reforma do ensino médio sacramente um grupo bem restrito de opções. A primeira impressão que temos é que o mundo se resumiria, segundo eles, a médicos, engenheiros e advogados. Quem idealizou esta Reforma, imagino eu, parece pensar assim. No entanto perguntaria: o que adianta termos excelentes médicos, engenheiros e advogados se são pessoas toscas em sua formação cultural? Eu diria que são muito limitados os profissionais, de qualquer área, desprovidos de qualquer consciência de seu momento histórico e geográfico, que estão alheios à organização social em que se inserem, que desconhecem outros modos de pensar e refletir e que desconhecem expressões artísticas. O ideal, penso eu, é tentarmos até o ensino médio formarmos um ser humano completo e um enfoque mais objetivo se daria no Ensino superior. Nele, no ensino superior, o jovem chegaria com um embasamento cultural muito melhor do que aquele que lhe é oferecido num projeto que o distancia de uma formação global.

É importante notarmos que esta reforma atinge estudantes numa faixa etária que vai dos 14 até os 18 anos, idade de grande importância na vida futura do cidadão. A calamitosa situação do pífio número de leitores entre os brasileiros e a ausência de uma porcentagem expressiva que se envolva em eventos culturais em nossa sociedade ao que parece só levam a uma piora frente a uma visão tão equivocada da formação global do brasileiro. Neste sentido esta Reforma consegue piorar o que já é péssimo. Penso mesmo que qualquer modificação curricular deveria vir após uma exaustiva discussão e só deveria ser implantada de vez quando toda a estrutura do ensino se tornasse realmente eficiente. Nossas escolas públicas em geral apresentam condições de funcionamento sofríveis, e o reconhecimento do importante papel do professor na sociedade é simplesmente desconhecido, sobretudo pelos governos que oferecem aviltantes salários.

E quando penso na minha área de atuação, a música, o ensino médio, através desta reforma, se afasta ainda mais de uma provável fonte de aprimoramento da formação individual de um futuro artista ligado à música ou mesmo às artes plásticas ou ao teatro. O divórcio que todo adolescente interessado em uma carreira artística sente entre seus anseios e sua escola de ensino médio se aprofundará ainda mais. Estamos muito distantes de termos escolas com atelieres de pintura ou instrumentos musicais (nem lousa direito temos) mas omitir filosofia, história e sociologia prejudica de forma ainda mais acentuada a formação de um futuro artista. Nosso país, que é tão carente em questões culturais, mais uma vez aparenta dar um passo para trás.

Não há dúvida de que tudo o que coloquei aqui abre espaço para mais discussões a respeito do que poderia ser uma formação cultural do jovem em geral, e do quanto uma escola de ensino médio poderia dar de suporte a um jovem que se interessa em um dia ser músico, pintos, ator ou outra atividade artística. Mas algo que é encaminhado através de uma antipática medida provisória parece abrir pouco espaço para discussões. Os “catastrofistas” de plantão falam a todo momento que há uma deliberada intenção de “emburrecer” o cidadão. Chego a crer que eles estão certos.

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