Curitiba em 1975: apaixonante
Curitiba em 1975: apaixonante| Foto:
Curitiba em 1975: apaixonante

Curitiba em 1975: apaixonante

No mês de janeiro de 1975 saía pela primeira vez do Estado de São Paulo. Com 16 anos de idade, jovem músico estudando trompa, vim para a Capital Paranaense atraído pelo VIII Curso Internacional de música do Paraná, evento que duraria do dia 2 de janeiro até o dia 4 de fevereiro. Isso significa que passei mais de um mês em Curitiba, e que fiquei completamente apaixonado pela cidade. Já naquela época a cidade de São Paulo era caótica (não tanto quanto hoje), violenta (idem) e poluída. Dava para sentir a diferença. Na minha chegada vi que a cidade tinha uma fantástica Estação Rodo – Ferroviária, recém inaugurada. Ao me locomover para a Central Administrativa do Curso, percebi que em termos de transporte coletivo, a coisa era infinitamente melhor do que em minha cidade. A cidade contava com o primeiro calçadão do país, ideia ousada para aquela época. Outra coisa que me impressionou foi a limpeza e a quantidade de árvores. Mas tinha ainda mais: no dia 5 de janeiro daquele ano entrei pela primeira vez no recém inaugurado Teatro Guaíra. Mais um motivo para me apaixonar.

Entrega de certificados em 1975. Ao centro o compositor Osvaldo Lacerda. Da esquerda para a direita Padre José Penalva e Maestro Roberto Schnorrenberg

Entrega de certificados em 1975. Ao centro o compositor Osvaldo Lacerda. Da esquerda para a direita Padre José Penalva e Maestro Roberto Schnorrenberg

Músicos paranaenses

Àquela altura não tinha a menor ideia de que Curitiba viria a ser minha cidade. Julgava isso impossível pelo fato de que Curitiba naquela época não tinha nenhuma orquestra profissional. Depois de todo o deslumbramento pela cidade fiquei impressionado com o alto nível dos músicos paranaenses que conheci naquele Curso e no Festival que ocorria junto àquele evento. O primeiro músico daqui que me impressionou foi o Padre José Penalva (1924-2002). Compositor excepcional me encantou também como regente coral. Durante os Concertos do Festival (foram 37) ouvi o som de flauta mais belo que já tinha escutado através de um instrumentista nascido na cidade, Norton Morozowicz, e uma pianista paranaense, Maria Leonor Mello Macedo, que acompanhou o grande tenor Aldo Baldin no ciclo de canções de Schumann “Amores de um poeta”, se equiparando aos grandes pianistas de “Lied” do mundo. Pude constatar também o excelente trabalho da maestrina Hildegar Soboll Matins dirigindo a Orquestra Juvenil da Universidade Federal. Mas uma coisa que me fascinou muito na Curitiba de janeiro de 1975: o público dos concertos. Mesmo nos concertos de música de Câmera o recém inaugurado Teatro Guaíra estava sempre lotado. Curitiba era realmente, naquela época, uma cidade fascinante.

A histórica apresentação da Missa Solemnis de Beethoven no Theatro Guaíra. Estou entre os coralistas

A histórica apresentação da Missa Solemnis de Beethoven no Theatro Guaíra. Estou entre os coralistas

Há 40 anos, o fantástico VIII Festival de música de Curitiba

O VIII Festival de música e o VIII Curso Internacional de Música do Paraná eram eventos promovidos pelo Governo do Estado do Paraná, através de sua Secretaria de Educação e Cultura. A Diretora Artística do evento era a grande pianista paranaense, que viria a se tornar uma grande amiga minha, Henriqueta Garcez Duarte. No entanto o “cérebro” do festival era o Maestro Roberto Schnorrenberg (1929-1983). Homem extremamente culto e tremendamente organizado, foi o responsável por uma programação que rivalizava com os grandes festivais de música da Europa e dos Estado Unidos. Para lecionarem e se apresentarem nos concertos foram trazidos alguns dos melhores instrumentistas do planeta como o oboísta Ingo Goritzki, o clarinetista Waldemar Wandel (os dois alemães), os fagotistas Noel Devos (francês, radicado no Brasil) e Helman Jung (alemão), entre inúmeros outros. Para reger a fantástica orquestra de professores se alternaram, além de Schnorrenberg, o americano Howard Mitchell (naquela época diretor musical da Orquestra de Washington) e o paranaense Alceu Bocchino. Veio para o festival/curso o notável Quarteto Wilanow, naquela época o melhor quarteto de cordas da Polônia. Nos concertos eles realizaram a primeira audição brasileira de obras de Lutosławski e de Penderecki. Aliás, da Polônia veio também o excelente compositor Krzysztof Meyer, professor que me influenciou bastante. Eu assisti a todos os concertos e asseguro que uma data deste festival permanece histórica: em 17 de janeiro o violinista Erich Lehninger, o violoncelista Watson Clis e o pianista Gilberto Tinetti, foram “selecionados” por Schnorrenberg para executarem o Trio em lá menor de Maurice Ravel. O resultado foi tão brilhante que resolveram não parar de tocar juntos. Por 4 décadas eles formaram o “Trio brasileiro”, um de nossos melhores conjuntos de câmera. Para encerrar o Festival/Curso, todos os alunos e a orquestra de professores executaram por três vezes a Missa Solemnis de Beethoven, uma das mais complexas obras para coro e orquestra de toda a literatura. Entre os solistas dois que fariam, a partir destes concertos, sólidas carreiras internacionais: o contralto argentino Margarita Zimmerman e o tenor brasileiro Aldo Baldin. Pouca gente sabe, mas foi feita uma excelente gravação das apresentações desta Missa de Beethoven. Vale a pena lembrar que 200 alunos não residentes em Curitiba tinham hospedagem e alimentação garantida pelo curso. Por mais de um mês morei na “Sala dos outros” da Casa do Estudante Paranaense, dividindo beliches com músicos que viriam a ser bem conhecidos como Fabio Mechetti, Gerardo Gorosito e Marcelo Verzoni.

O Colégio Estadual do Paraná, local dos cursos . Foto de 1975

O Colégio Estadual do Paraná, local dos cursos . Foto de 1975

A famosa “antropofagia” paranaense

Voltei a Curitiba em 1977, de novo para participar, desta vez como aluno e como professor assistente, do IX e último Festival de música de Curitiba. Este IX festival foi ainda melhor em alguns aspectos, e só voltei aqui em 1985, para fazer o Concurso que me fixaria definitivamente por aqui. Foi só quando me tornei um cidadão paranaense é que, em conversas com as pessoas responsáveis pelos Festivais, descobri que os mesmos deixaram de existir por uma enorme dose de “oposição” das assim chamadas “forças ocultas”. Pude perceber em 1985 como os Festivais eram indesejados, especialmente pelas pessoas que uniam a política com a cultura. Pessoas que pensavam que o Festival era uma coisa de “paulistas e cariocas”, e que os paranaenses ficavam apartados do grande evento. Tendo sido aluno, e aluno/professor assistente, nestes Festivais, pude constatar exatamente o contrário. Em dados que consegui obter entre meus documentos, no VIII festival de um total de 669 alunos, 458 eram do Paraná. Foram executadas obras de diversos compositores locais, como Henrique de Curitiba, José Penalva e Alceu Bocchino, defendendo a música brasileira junto a Osvaldo Lacerda e Edino Krieger. Não é demais lembrar que 10 dos professores do curso eram paranaenses. Os Festivais foram substituídos pelas Oficinas de Música de Curitiba. No início estas duravam a metade dos antigos Festivais. Hoje a parte clássica do evento dura um terço do que duravam os antigos Festivais. Fica uma pergunta perturbadora: o Estado do Paraná era mais rico em 1975? Desconfio que não. E quanto à Curitiba que conheci em 1975…essa, infelizmente, quase não existe mais.

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