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GIUSEPPE LAMI / POOL / AFP
GIUSEPPE LAMI / POOL / AFP| Foto:

A cena era difícil de imaginar uns tantos anos atrás. Em oração no Vaticano, o papa e o líder dos bispos de cada país acusam-se de seus pecados. Um cardeal lê algumas perguntas para um exame de consciência: “Como a Igreja tratou no meu país aqueles que sofreram violência de poder, de consciência e sexual? Que obstáculos colocamos em seu caminho? Nós os escutamos? Tentamos ajudá-los? Buscamos a justiça para eles? Eu cumpri com minhas responsabilidades pessoais? Que passos foram dados para prevenir novas injustiças?”

Foi esse, no entanto, o cenário do sábado (23) na Sala Régia, no Vaticano. Como parte de um encontro de 4 dias, o papa e outros líderes católicos realizaram uma liturgia penitencial, pedindo perdão pelos casos de abuso e encobrimento na Igreja. Intitulado “A proteção dos menores na Igreja”, o encontro foi a mais alta cúpula já realizada na Igreja Católica sobre o tema do abuso de menores por parte de religiosos e ministros ordenados. Foi, aliás, a primeira vez em que houve uma reunião entre o papa e todos os presidentes de conferências episcopais do mundo – os órgãos colegiados dos bispos de um país ou região.

Sob qualquer ponto de vista, o encontro é um marco na história da forma como a Igreja Católica lida com as denúncias de abuso – embora, como disse o historiador e teólogo Massimo Faggioli, os historiadores do futuro se perguntarão porque um encontro do tipo não ocorreu anos antes. A força simbólica desse encontro – e particularmente dessa liturgia penitencial – é inquestionável. Certamente, muitos se perguntam, com razão, se algo mudará além do símbolo. Mas é importante não esquecer que o símbolo nunca é apenas símbolo: momentos como esse têm a força de reorientar o tratamento do assunto e mudar a postura dos responsáveis por lidar com as denúncias e com o cuidado das vítimas.

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A questão é uma das pautas prioritárias do papa desde o início de seu pontificado – em 2014 ele criou a Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores –, mas ganhou força no ano passado, quando ele mesmo escorregou, e posteriormente pediu perdão, ao defender a reputação de um bispo chileno acusado de acobertar casos de abuso. Os últimos meses foram marcados ainda pela demissão do cardeal norte-americano Theodore McCarrick, culpado de abuso contra menores, pela publicação do chamado relatório da Pensilvânia e pela carta aberta do arcebispo Carlo Maria Viganò, que em uma quase tentativa de golpe tentou acusar o papa de encobrimento de casos. Separei aqui 5 pontos particularmente significativos desse último encontro:

1. A sensibilidade ao testemunho das vítimas

Na convocação do encontro, o papa havia pedido que cada bispo participante se encontrasse com algumas vítimas em seu país antes de viajar a Roma. Além disso, o próprio encontro foi aberto com o testemunho de 5 vítimas de abuso sexual, incluindo um padre – em vídeo, com as vozes codificadas, para preservar as suas identidades. “A partir dos 15 anos, mantive relações sexuais com um padre. Isso durou 13 anos seguidos. Fiquei grávida três vezes, e três vezes ele me fez abortar. Simplesmente porque ele não queria usar preservativo nem qualquer método contraceptivo”, disse a primeira vítima. “Cada vez que eu me negava a ter relações com ele, ele me batia. E como eu dependia totalmente dele economicamente, sofri todas as suas humilhações”.

Mas talvez um dos momentos mais incisivos do encontro tenha sido o testemunho dado presencialmente por um jovem chileno, vítima de abuso, durante a liturgia penitencial do sábado. “Quando se vive um abuso, a vontade é de fugir. Assim, você acaba deixando de ser você mesmo. Você quer fugir, escapar de si mesmo. Com o tempo, você fica completamente sozinho. Você está só, porque se retirou para outro lugar e não quer voltar a si mesmo. Quanto mais frequente é o abuso, tanto menos você volta a si mesmo. Você é outra pessoa e sempre seguirá sendo outra pessoa”, disse ele. “O que você leva dentro de si é como um fantasma, que os outros não podem ver. Nunca te verão nem te conhecerão completamente. O que mais dói é a certeza de que ninguém te compreenderá. Essa certeza permanece com você pelo resto da vida. As tentativas de retornar ao verdadeiro eu e de participar do mundo ‘precedente’, como antes do abuso, são tão dolorosas quanto o próprio abuso”.

2. A reorientação da motivação para o combate

No discurso de encerramento do encontro, Francisco lembrou que o abuso não acontece apenas nem principalmente na Igreja. O tom do discurso, porém, não lembrava em nada aqueles que com essa alegação pretende menosprezar a questão do abuso por parte de ministros da Igreja. “Estamos diante de um problema universal e transversal que, infelizmente, existe em quase toda a parte. Devemos ser claros: a universalidade de tal flagelo, ao mesmo tempo que confirma a sua gravidade nas nossas sociedades, não diminui a sua monstruosidade dentro da Igreja”, deixou claro Francisco.

A Igreja deve se preocupar com a questão não porque a sua imagem fica manchada – ou ao menos não primariamente por isso – e sim porque crianças e adolescentes estão sendo feridos

“É por isso que atualmente cresceu na Igreja a consciência do dever que tem de procurar não só conter os gravíssimos abusos com medidas disciplinares e processos civis e canônicos, mas também enfrentar decididamente o fenômeno dentro e fora da Igreja. Sente-se chamada a combater este mal que atinge o centro da sua missão: anunciar o Evangelho aos pequeninos e protegê-los dos lobos vorazes”, continuou. Trocando em miúdos: a Igreja deve se preocupar com a questão não porque a sua imagem fica manchada – ou ao menos não primariamente por isso – e sim porque crianças e adolescentes estão sendo feridos. Qualquer outra motivação seria mesquinha.

3. A recusa da lógica de autodefesa

Francisco de fato rompe com a lógica da autodefesa ao louvar o desapontamento e mesmo a raiva de quem se insurge contra a Igreja por causa dos abusos. “Na ira justificada das pessoas, a Igreja vê o reflexo da ira de Deus, traído e esbofeteado por estes consagrados desonestos”, declarou ele. A Igreja, para Francisco, precisa confessar suas culpas: “O temor santo de Deus leva a acusar-nos – como pessoa e como instituição – e a reparar as nossas falhas”, afirmou. “Aprender a acusar-se a si próprio, como pessoa, como instituição, como sociedade. Na realidade, não devemos cair na armadilha de acusar os outros, que é um passo rumo ao álibi que nos separa da realidade”.

O arcebispo ganês Philip Naameh evocou a mesma questão em sua cortante homilia durante a celebração penitencial. “Não deveríamos nos surpreender se as pessoas falam mal de nós, se desconfiam de nós, se ameaçam retirar seu apoio material. Não devemos reclamar a respeito disso, e sim nos perguntar o que devemos fazer de diferente”, disse o arcebispo. “Ninguém pode se eximir dizendo: eu pessoalmente não fiz nada de errado. Somos uma fraternidade e temos responsabilidade não apenas por nós mesmos, mas por cada outro membro de nossa fraternidade e pela fraternidade como um todo”. Antes, ele já havia dito, comentando a parábola do filho pródigo, que “também nós [os bispos] exigimos nossa herança, a recebemos e agora estamos ocupados desperdiçando-a. A atual crise de abusos é uma expressão disso. O Senhor nos confiou a administração dos bens da salvação (…), mas o que fazemos? Fazemos justiça ao que nos foi confiado?”

4. A insistência na ligação entre abuso sexual e abuso de poder

O papa retomou em seu discurso um ponto em que ele tem martelado há anos: o fato de que o abuso sexual anda sempre de mãos dadas com o abuso de poder e de consciência. “É difícil compreender o fenômeno dos abusos sexuais contra os menores sem a consideração do poder, pois aqueles são sempre a consequência do abuso de poder, a exploração de uma posição de inferioridade do indefeso abusado que permite a manipulação da sua consciência e da sua fragilidade psicológica e física”, disse Francisco.

O celibato não é nem de longe um problema em si mesmo, mas precisa de muito mais estrutura psicológica do que se costuma exigir nas dioceses e congregações para ser assumido como estilo de vida

Isso está relacionado também com a insistência na questão da formação dos candidatos ao presbiterado, outro tema do discurso de encerramento do papa. O celibato não é nem de longe um problema em si mesmo, mas precisa de muito mais estrutura psicológica do que se costuma exigir nas dioceses e congregações para ser assumido como estilo de vida – não é segredo para ninguém que falta o mínimo de maturidade psicológica a boa parte dos padres e seminaristas. Além disso, o clima de clericalismo que a Igreja ainda vive em muitas partes ensina os jovens a se sentir com o rei na barriga a partir do exato momento em que se sentem inclinados à vocação presbiteral. A Igreja ainda levará um bom tempo para expulsar o cheiro de clericalismo do modo como se apresenta e de como apresenta a sua doutrina sobre o ministério ordenado. É Faggioli de novo que compara a necessidade de ir além da normatização: “O Concílio de Trento, no século XVI, não respondeu à Reforma protestante apenas com um programa de limpeza da corrupção, mas também com o repensar de algumas categorias teológicas”.

5. O redimensionamento do tema do local para o global

Lendo as notícias, às vezes temos a impressão de que esse tema está restrito a alguns países ocidentais como os Estados Unidos, a Irlanda e o Chile. Isso não é verdade e esse encontro marca um ponto sem volta no que se refere à resposta global da Igreja a esse problema. Por muito tempo, as medidas foram tomadas apenas em nível local e houve até quem defendesse que o assunto não deveria ser encarado em nível global devido às diferenças culturais entre as diversas regiões do mundo. O encontro enterrou esse posicionamento. É certo que a resposta local é indispensável, mas o abuso – qualquer tipo de abuso – não pode ser justificado em cultura alguma.

Dar esse outro status ao tema ajuda ainda a virar uma chavinha no modo de compreendê-lo. Muitas vezes o abuso, e consequentemente a proteção dos menores, é visto como um tema marginal no interior das comunidades – é apenas algo que incomoda, um mosquito zumbindo em volta da mesa, mas não um assunto que mereça atenção detida e consideração teológica, pastoral e canônica. Outras vezes, é um elefante na sala, do qual não se fala por medo ou por vontade de permanecer em um mundo de fantasia em que casos do tipo só ocorrem do outro lado do planeta.

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A Santa Sé já realizou na segunda (25) uma nova reunião e pretende publicar nos próximos dias novas normas sobre o assunto, bem como um manual para a atuação dos bispos nos casos de abuso. Serão os frutos concretos do encontro dos últimos dias, embora seja importante sublinhar a importância do encontro em si mesmo, apenas pelo fato de ter acontecido da forma como aconteceu. Esses 5 pontos são 5 conversões de que a Igreja precisa, com urgência, neste momento de sua história. E aqui não apelo ao discurso religioso: importa pouco se a sua concepção de “conversão” tem ou não tintas religiosas. O que a Igreja, em nível institucional, está começando a aprender é que diretrizes e normas são necessárias, mas não bastam, e que sem uma mudança de orientação profunda – no que toca ao exercício da autoridade, à sensibilidade diante do sofrimento do outro e à desinstalação do seu aburguesamento e da sua prepotência – nada mudará.

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