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Papa Francisco presidindo um momento de oração no sagrato da Basílica de São Pedro, em 27 de março| Foto: Divulgação/Imprensa do Vaticano/AFP

“Eu venho para julgá-lo, Covid-19! Eu venho para julgá-lo, satanás! Você é um destruidor, é um assassino! Saia daqui! Eu quebro o seu poder! (...) Eu o declaro vencido! (...) Você nunca mais vai destruir através da Covid-19. Nunca mais! A-ca-bou. Ter-mi-nou. Os Estados Unidos da América estão curados e sadios de novo”. Parece que a pandemia do novo coronavírus acabou no último domingo (29), quando o pregador Kenneth Copeland realizou o seu “julgamento”, em um culto no Texas. Só que não.

O momento aconteceu três dias depois da oração do papa Francisco em uma Praça de São Pedro deserta e chuvosa, por ocasião da pandemia. Dias antes, uma mensagem circulava por grupos católicos de WhatsApp dizendo que deveríamos interromper todas as nossas atividades durante a oração de Francisco “porque será o momento em que o papa terá a força espiritual para parar tudo isso”. Não foi bem o que Francisco fez. Considerar que a oração é qualquer coisa minimamente parecida com um feitiço é um sintoma de que já nos afastamos muito da concepção cristã de oração. E qual é essa concepção? A própria meditação de Francisco naquele dia é uma aula sobre isso.

O papa optou por comentar a passagem bíblica que conta que os discípulos estavam com Jesus em uma barca, cruzando o lago de Genesaré, e foram afligidos por uma tempestade. Jesus dormia. Acordado pelos discípulos, ordenou ao vento e às águas que se aquietassem e a tempestade cessou (Mc 4,35-41). O trecho teria tudo para ser interpretado de forma a endossar uma visão mágica segundo a qual bastaria Deus estalar os dedos para que o coronavírus deixasse de existir ou para que todos os seres humanos – ou pelo menos os cristãos – se tornassem imunes a ele. Francisco decidiu por uma leitura bem diferente.

No centro da sua meditação está a pergunta que Jesus faz aos discípulos após acalmar a tempestade: “Vocês ainda não têm fé?” “Procuremos compreender. Em que consiste essa falta de fé dos discípulos, que se contrapõe à confiança de Jesus?”, questiona Francisco. Ele encontra a resposta na pergunta que os discípulos fazem a Jesus, ao acordá-lo: “Mestre, você não se importa que pereçamos?” Presumir que Jesus não se importa conosco: é isso que o Evangelho descreve como falta de fé.

“Os discípulos pensam que Jesus tenha se desinteressado deles, que não cuide deles. Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer: ‘Você não se importa comigo’. É uma frase que fere e causa tempestades no coração. Deve também ter mexido com Jesus, pois não há ninguém que se importe mais conosco do que ele”, diz Francisco.

Para o papa, portanto, está claro que a referida falta de fé não se identifica com a recusa a uma imagem de Deus como uma fada-madrinha, que com a sua varinha mágica pode dispensar a responsabilidade humana. Que Deus não aja como um mágico ou um super-herói – e o Filho que assume a vulnerabilidade humana até o ponto de ser morto revela o rosto de um Deus que não tem nada a ver com um super-herói – não significa que ele não nos ame. Talvez a realidade seja justamente o contrário.

Que Deus não aja como um mágico ou um super-herói – e o Filho que assume a vulnerabilidade humana até o ponto de ser morto revela o rosto de um Deus que não tem nada a ver com um super-herói – não significa que ele não nos ame

À medida que prossegue a sua fala, Francisco mostra o que é a oração cristã. Antes de tudo, se trata de aproximar o nosso olhar ao olhar do coração de Deus – esse coração que nunca deixa de nos amar e de se importar conosco –, de modo a contemplar as nossas circunstâncias atuais a partir desse amor, realizando uma leitura sábia da nossa situação. É o que o papa faz. Ele diz que o contexto atual “nos mostra como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade” e revela “uma vez mais aquela bendita pertença comum a que não podemos nos subtrair: a pertença como irmãos”.

Francisco continua: “Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos diante de guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Seguimos em frente implacavelmente, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”. A partir dessa leitura mais profunda da realidade, vem a iluminação para agir: “Senhor, este tempo não é o tempo do seu julgamento, mas do nosso: tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar aquilo que é necessário daquilo que não é”.

Em todo esse percurso até aqui, já está a ação de Deus – não a de um feiticeiro, mas a de uma presença que abre os nossos olhos, ilumina a nossa situação, discerne os nossos caminhos e venera a nossa liberdade. Mas há ainda mais: o papa menciona “a força operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas”, naqueles “tantos companheiros de viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida”. Francisco os lista: “Médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”.

É precisamente aí que Deus se manifesta, segundo a concepção cristã. A Primeira Carta de João é muito clara a respeito disso. “A Deus, ninguém jamais contemplou”, admite o texto. Porém, “se nos amarmos uns aos outros Deus permanece em nós” (1Jo 4,12). Daí o reconhecimento que resume o conteúdo da revelação cristã: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Um hino cristão latino do I milênio, conhecido como Ubi caritas, colheu essa síntese de maneira muito expressiva: onde está o amor, aí está Deus. É a constatação a que chega Francisco em sua meditação: na situação atual, “descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: ‘Que todos sejam um’ (Jo 17,21)”, diz ele.

Em Jesus de Nazaré, os cristãos veem que Deus se revela como comunhão – é o dogma fundamental do cristianismo, a trindade, de acordo com o qual Deus, em sua natureza mais íntima, não é um monolito de poder solitário, mas uma realidade pessoal e comunional: a unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Se, portanto, o mistério que está na fonte de toda a realidade é a unidade na diversidade, também este é o nosso chamado, o caminho e o sentido da nossa vida. Quando vivemos em comunhão, Deus se manifesta. Quando estamos diante do amor, estamos diante de Deus.

Assim, aqueles que no dia a dia “infundem esperança” através da oração são os que têm a peito “não semear pânico”, mas tampouco a leviandade de tantas vozes cristãs, católicas ou evangélicas, que acreditam que a adesão ao cristianismo torna alguém imune a qualquer vírus ou que é melhor sacrificar a própria vida – e a dos outros – do que deixar de frequentar as reuniões de culto. Ao pânico, Francisco não opõe a indiferença – “é só uma gripezinha” –, mas, diz ele, a corresponsabilidade.

Ao pânico, Francisco não opõe a indiferença – “é só uma gripezinha” –, mas, diz ele, a corresponsabilidade

É nesse ponto – precisamente quando fala da corresponsabilidade que advém de nosso pertencimento comum e que através do cuidado mútuo manifesta o rosto de Deus em nossas vidas – que ele fala explicitamente da oração: “Quantos pais, mães, avôs, avós e professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas oram, se oferecem e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras”.

A crise põe a descoberto o fato de não sermos autossuficientes – e Francisco relaciona isso tanto à nossa relação com Deus quanto à nossa relação uns com os outros, que, afinal, são indissociáveis de acordo com a tradição cristã. “O Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a estas horas em que tudo parece naufragar”, diz ele. “Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que possam nos ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para abraçar a esperança”. Esse é o fruto da comunhão com o Senhor na oração: redespertar a esperança – que não é meramente um sentimento, mas uma expressão da confiança no Pai – e com ela a solidariedade.

Como se vê, toda a meditação de Francisco passa muito longe da concepção da oração enquanto passe de mágica. A própria oração com que o papa abriu essa liturgia de sexta-feira expressa muito bem que o que se pede a Deus não é que diga abracadabra. O texto dizia: “Oremos: Deus onipotente e misericordioso, olhai a nossa dolorosa condição. Confortai os vossos filhos e abri os nossos corações à esperança, para que sintamos em meio a nós a vossa presença de Pai. Por Cristo, nosso Senhor. Amém”.

Não encontro forma melhor de encerrar esse comentário à meditação do papa do que citando o teólogo ortodoxo francês Olivier Clément (1921-2009), em uma reflexão que sintetiza muito bem todo o percurso deste texto: “Quanto mais nos tornamos homens de oração, tanto mais nos tornamos homens de responsabilidade. A oração não nos livra das tarefas deste mundo: torna-nos ainda mais responsáveis. Nada é mais responsável do que a oração. Isso deve ser realmente compreendido e feito compreender aos jovens. A oração não é um entretenimento, não é uma espécie de droga para o domingo; ela nos envolve no mistério do Pai, no poder do Espírito Santo, em torno de um rosto que nos revela todos os rostos e nos faz enfim servidores de todos os rostos”.

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