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Fernando Schüler

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A cultura do cancelamento vem criando um debate avesso ao risco e à divergência

  • Fernando SchülerPor Fernando Schüler
  • 24/07/2020 10:41
A cultura do cancelamento vem criando um debate avesso ao risco e à divergência
| Foto: BigStock

Tentaram "cancelar" Steven Pinker. Ele é um intelectual com jeito de roqueiro das antigas. Linguista em Harvard, autor de alguns livros monumentais ("Os Anjos Bons de Nossa Natureza" e "Iluminismo Agora"). Sua ideia-força é a de que estamos melhorando, como civilização, seja na redução global da violência, respeito a direitos, incidência da guerra. Isso irrita muita gente.

Uma carta assinada por um grupo de acadêmicos pedia à Associação Americana de Linguística (LSA) sua destituição das listas de membros prestigiados. O caso virou símbolo (e uma ótima síntese) do que define a cultura do cancelamento.

Em primeiro lugar era um grupo grande. Algumas centenas de assinaturas. Para cancelar você precisa de muita gente. Gente gritando, como nas antigas praças de execução pública. A carta contra Pinker também fazia questão de dizer que não era um cancelamento. Perfeito. Ninguém cancela dizendo que está cancelando. A turba está apenas fazendo "justiça".

Havia também o anacronismo. Pinker era acusado por alguns tuítes feitos anos atrás (o primeiro deles em 2015), mas tudo curiosamente apresentado como "no exato momento" em que ocorrem as mobilizações antirracistas.

E por fim, a pretensão de verdade. Pinker era acusado de "deturpar" fatos. Na cultura do cancelamento não há a ideia de "divergência". Ele poderia ter apenas uma outra visão ou simplesmente estar sugerindo a leitura de um artigo no The New York Times. O jogo é: eu sei o que você deveria ter dito e as palavras que você deveria ter usado. E sei porque tem uma multidão do lado de cá que vai fazer você entender isso.

No final não funcionou. A LSA disse que não iria cancelar Pinker e que não era sua missão "controlar a opinião de seus membros". Pinker se deu bem. Não fosse um cara renomado talvez fosse demitido ou coisa pior, como tantos outros.

Há quem veja nas técnicas de cancelamento uma saudável "supervisão" da sociedade sobre os indivíduos (para que andem na linha, imagino). A tese seria a mesma que sustenta a lógica do derrubamento de estátuas: dado que haja uma multidão (do lado "certo", obviamente) disposta a jogar alguma coisa no lixo, é justo que ela seja jogada.

O cancelamento não tem a ver com justiça, mas com poder. Em regra, é feito para causar dano moral e profissional ao divergente. Pede-se à universidade que o descontrate, à TV que o demita, ao jornal que não o publique e ao evento que o "desconvide".

Essa lógica virou feijão com arroz no mundo público. Contra ela se formou um grupo de intelectuais que vão de Noam Chomsky a Deirdre McCloskey. Publicaram um documento curto que vai direto ao ponto: "editores são demitidos por publicar artigos controversos; jornalistas são impedidos de escrever sobre certos temas; professores são investigados por citar obras de literatura em sala de aula".

No final, sugerem que "precisamos de uma cultura que deixe espaço para experimentação, riscos e até erros". Não vai rolar, pensei. A lógica do cancelamento é feita exatamente para que você não arrisque. Diga apenas o que pode ser dito. E o erro é uma impossibilidade, dado que há sempre uma "intenção" e algo indesculpavelmente grave em tudo que é dito.

Difícil não perceber como tudo isto é uma reedição da antiga lógica da "patrulha". Ela apenas ganhou escala. E não é feita pelo Estado ou pela direção do partido, mas pela multidão. A multidão patrulheira. Suas armas são a difamação e a pressão econômica.

Há dois riscos envolvidos nisso tudo. O primeiro é a distração sobre aquilo que realmente importa combater. O segundo é o cultivo da conformidade e do medo na cultura pública. Medo dos temas que não devem ser tratados, dos livros ou dos dados que não se deve citar e das perguntas que não devem ser feitas.

Talvez seja um ponto onde Pinker errou. O teórico que gosta de mostrar, com uma infinidade de dados, que o mundo sempre melhora talvez precise reconhecer que, ao menos em um aspecto –bastante sombrio– estamos piorando.

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Comentários [ 8 ]

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  • L

    Luis_GonzagaBR

    ± 1 minutos

    Essa "cultura do cancelamento" não é novidade... Faz-me lembrar de um episódio ocorrido a milênios, onde uma turba incitada por alguns "mentores" gritou "Crucifica-o! Crucifica-o"... Mudaram-se os tempos, os meios e os mentores, mas os propósitos e o caráter dos envolvidos permanece intacto!

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    • E

      Edeluz Maria Taborda Ribas Alves

      ± 2 dias

      Realmente hoje em dia pensar virou defeito.

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      • C

        Carlos Pinaffi

        ± 2 dias

        O “ Indivíduo “ e seu sagrado direito de opinião estão sendo atacados por massas de manobra (inocentes ?) , daqueles que defendem o coletivismo e o fim dos direitos individuais Felizmente conservadores e democratas de verdade estão reagindo por toda parte , inclusive aqui em terras tupiniquins assoladas pelo ataque dos STF da vida... Abraços

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        • R

          Roberto Roesel

          ± 4 dias

          Gosto muito dos textos do Fernando. Enquanto a maioria dos analistas políticos logo depois da eleição de Bolsonaro ficavam usando réguas do passado para medir o futuro, ele foi um dos primeiro a perceber que um fenômeno novo acontecia e tecia análise que nos levava a reflexão. Mais um excelente texto. Parabéns Fernando! Belo texto!

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          • D

            d'Amortan

            ± 4 dias

            Parece a Revolução Francesa, criaram um monstro e, depois, a fera fugiu da jaula e não souberam mais o que fazer com ela. Acontece, em nossos dias, que vários nomes progressistas proeminentes vão começar a ser cancelados por não serem suficientemente revolucionários para cumprir as pautas de grupos barulhentos; após isso, a confusão será instaurada, vão começar a expulsar brancos (vários dos grandes nomes progressistas são brancos) de todos os lugares de destaque, jornais, revistas, moda, esportes, etc., depois a elite progressista não saberá mais o que fazer, entrarão em desespero quando se derem conta de que a coisa foi "longe demais".

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            • S

              SILVIO MACIEL ROCHA

              ± 4 dias

              O OBSCURANTISMO ASSOMBRANDO.

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              • A

                Antonio Marcos Martins de Andrade

                ± 4 dias

                Perfeito.... O Mundo anda para trás com isso. Perde a capacidade de evoluir e aprender. Trevas provocadas por uma agenda identitária. Criaram um monstro e não sabem mais o que fazer com isso.

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