i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

Fernando Schüler

Foto de perfil de Fernando Schüler
Ver perfil

Um espaço dedicado para debater o complexo cenário nacional atual

Os curadores do mundo

  • Fernando SchülerPor Fernando Schüler
  • 14/01/2021 00:01
big techs - vale do silício - trump - twitter - redes sociais
Gigantes do Vale do Silício expulsaram Trump das redes sociais.| Foto: Tomas Ulrich/Pixabay

Por um bom tempo alimentamos a ideia de que a internet e as redes sociais forjariam uma imensa ágora digital. Ainda lembro do Projeto Gwan, que conheci nos anos 1990, quando estudava em Barcelona. Tudo funcionava no sótão de um velho prédio no Bairro Gótico. A ideia era forjar música misturando sons de todo o planeta para ser transmitida em todos os meios, nas primeiras horas do ano 2000. A ideia era ótima. Bach se fundiria com o nosso samba de roda e todos dançaríamos de mãos dadas, durante um minuto, no que seria o primeiro ato da “sociedade civil mundial”.

Era isso que embalava a turma nas madrugadas frias de Barcelona, naquele sótão empoeirado e forrado de computadores. Na largada do novo milênio nada aconteceu e nunca mais ouvi falar daquela música. Mas as redes sociais explodiram e de algum modo mantiveram viva a ideia da ágora universal.

As redes funcionariam com base na neutralidade, no mais amplo pluralismo, e as regras não envolveriam discriminação de conteúdos. Viria daí diálogo e aproximação dos divergentes. O resultado, todos sabemos, foi o contrário. Em vez da aproximação veio a guerra digital. Mesmo assim se preservou a ideia de que as redes manteriam sua neutralidade. E resistiriam aos grupos difusos e cada vez mais fortes na opinião pública e nas empresas.

A liberdade, no ziguezague da história, vem sempre ganhando o jogo. Pode-se desligar uma conta, aqui e ali. Mas não se pode desligar o cérebro das pessoas, nem o seu direito de pensar com a própria cabeça

Intuo que chegamos a um ponto de virada. As redes parecem ter jogado a toalha. É o que sinalizam os desligamentos recentes. Eles envolvem um claro juízo político e vão muito além da punição que precisa ser feita, dentro da lei, para quem promove violência, morte, suicídio, ódio racial ou religioso e afins, seja de que lado político for.

As redes agiram assim porque podem. São empresas privadas, suas regras são vagas e passíveis de ampla interpretação. Um amigo tentou me convencer que deveríamos confiar na sua curadoria e “bom senso” e que cortar estas e não aquelas contas seria sempre o melhor para a civilização e para democracia. Não sei por que (talvez seja a idade), tornei-me cético demais para acreditar nessas coisas. Aliás, depois de anos lendo sobre as origens da liberdade de expressão, descobri que ela nasceu precisamente do ceticismo com a “verdade” e a infalibilidade de seus juízes.

É o sentido da frase desconfiada da chanceler Angela Merkel, dizendo “problemático” o banimento do presidente americano das redes e afirmando a liberdade de expressão como um “bem fundamental”, a ser disciplinado pela esfera pública, não por um punhado de empresas.

É provável que o caminho à frente seja o da segmentação. Políticas de exclusão incentivam o surgimento de novas redes. As empresas, é previsível, agirão para preservar seu quase monopólio, e o estrangulamento do Parler é mostra disso. No longo prazo, não creio que seja possível. Difícil imaginar três ou quatro empresas funcionando eternamente como curadoria do mundo.

Há algo inútil nisso tudo. Este tema já era discutido por John Milton na sua crítica à censura de livros, na Inglaterra do século 17. A liberdade corre como água e vai buscando novos caminhos. A forte migração para novas plataformas, como o Signal e o Telegram, é um sinal. Como disse a jornalista Elizabeth Brown, “os problemas e as ideias que animam as pessoas não vão embora, apenas vão para o subsolo”.

Doses crescentes de vigilância social para impor a verdade trazem o velho problema da ladeira escorregadia. É preciso continuamente fechar cada espaço que se abre. No fim você precisa de uma ilha cercada por tubarões para manter tudo sob controle. Não é assim que as coisas funcionam em nossas sociedades abertas.

A ideia das ágoras universais vai naufragando ao sabor da radicalização e intolerância de um mundo que elas ajudaram a criar. Talvez elas tenham sido, desde sempre, uma ideia fácil demais para um mundo complicado como o nosso.

A melhor aposta é a pluralidade de redes. A liberdade, no ziguezague da história, vem sempre ganhando o jogo. Pode-se desligar uma conta, aqui e ali. Mas não se pode desligar o cérebro das pessoas, nem o seu direito de pensar com a própria cabeça.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
10 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 10 ]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Política de Privacidade.

  • W

    wilmar scoz

    ± 1 horas

    A diversidade de redes é necessária. Assim a censura será quebrada. Não se pode ficar preso a grandes corporações que querem dominar e controlar o povo. O bom das redes é que ali as pessoas são naturais. Diferente das mídias convencionais em que tudo tem que ser segundo as idelogias dos dominadores e doutrinadores.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • M

      Marcelo Gurgel

      ± 2 horas

      Artigo sensacional. Se Deus quiser assim será.

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

      • J

        João Martins Donizete

        ± 3 horas

        Ótimo texto. Só não sei se essa moda de calar alguns, certo ou errado passe da esfera privada que já, por si só é uma censura, para a esfera pública que já é uma ideologia que já conhecemos. Portanto, sou cético. O medo de ser pego com as calças na mão é a eterna vigilância. E, pasmem, tem muitos ditos jornalistas (militantes) defendendo a "censura do bem". Piada? Antes fosse.

        Denunciar abuso

        A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

        Qual é o problema nesse comentário?

        Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

        Confira os Termos de Uso

        • A

          Amadorístico

          ± 5 horas

          Será que essas BigTechs bloquearam as contas por conta de algum juízo de valor de seus donos ou o fizeram por medo de uma punição do Congresso? Aposto mais na segunda hipótese, afinal elas foram vistas como responsáveis pela eleição de Trump e a radicalização das opções políticas. Tendo em vista o "ato final" do mandato deste ter sido uma ofensa histórica ao Legislativo (e, assim, facilmente vista como um excesso descabido que teria conseqüências) , elas trataram de agir de modo a não serem vistas como seus apoiadores. Creio que alguma espécie de "Instinto de sobrevivência" prevaleceu sobre quaisquer convicções que eles possam ou não ter.

          Denunciar abuso

          A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

          Qual é o problema nesse comentário?

          Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

          Confira os Termos de Uso

          • V

            Victor Ian

            ± 5 horas

            Muito bom isso

            Denunciar abuso

            A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

            Qual é o problema nesse comentário?

            Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

            Confira os Termos de Uso

            • B

              Bruno Santos Teles

              ± 5 horas

              é a natureza do ser humano, sempre foi assim, muito bem representado pelo arquétipo de Caim e Abel

              Denunciar abuso

              A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

              Qual é o problema nesse comentário?

              Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

              Confira os Termos de Uso

              • J

                jose rodorval ramalho

                ± 7 horas

                Sou mais cético. Dificilmente, conseguiremos alternativas às estratégias das Big Techs.

                Denunciar abuso

                A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

                Qual é o problema nesse comentário?

                Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

                Confira os Termos de Uso

                • P

                  Paulo Santos

                  ± 7 horas

                  Simples como Drumond São feitas por homens. Restam outros sistemas fora Do solar a colonizar. Ao acabarem todos só resta ao homem (estará equipado?) a difícil dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração experimentar colonizar humanizar o homem descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de conviver. ( Carlos Drumond de Andrad)

                  Denunciar abuso

                  A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

                  Qual é o problema nesse comentário?

                  Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

                  Confira os Termos de Uso

                  • D

                    Dra. Inês

                    ± 9 horas

                    O mundo é cíclico. "Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas por todo o tempo." Abraham Lincoln. Veremos a derrocada de algumas dessas empresas ou a mudança de paradigmas. Aguardemos. Excelente Texto!!!

                    Denunciar abuso

                    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

                    Qual é o problema nesse comentário?

                    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

                    Confira os Termos de Uso

                    • D

                      Daniel

                      ± 13 horas

                      Como diria a Rita Lee “...separe o joio do trigo, o Maquiavel do meu amigo...” Ser patrono da “verdade” implicaria neutralidade, imparcialidade entre outras coisas, para garantir que todas as “mentiras” independente de quem as proferisse fossem expurgadas. Ótimo texto.

                      Denunciar abuso

                      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

                      Qual é o problema nesse comentário?

                      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

                      Confira os Termos de Uso

                      Fim dos comentários.