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Fernando Schüler

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Samba de cartilha

  • Fernando SchülerPor Fernando Schüler
  • 27/02/2020 00:01
Alessandra Negrini no carnaval paulistano
Alessandra Negrini no carnaval paulistano| Foto:

O Cacique de Ramos teve de se explicar. O bloco desfila com fantasias de índio desde 1960, mas agora a coisa complicou. “Os pioneiros do bloco tinham nomes indígenas e eram ligados à umbanda.” Não entendi a relação com a umbanda. Possivelmente era um salvo-conduto. Alessandra Negrini também não escapou. Teve de se explicar e se saiu bastante bem. “A luta indígena é de todos nós, por isso tive a ousadia de me vestir assim.” Bingo. Em vez de pedir desculpas, um pouco de retórica política. Contra-ataque perfeito.

Curiosa essa invasão da retórica política sobre a indisciplina e a irreverência que sempre marcou (ao menos é isso que imaginávamos) nosso carnaval. Não se trata da sátira política (sempre bem-vinda, aliás), mas o seu contrário: o disciplinamento da sátira pela correção política.

O melhor disso foi a cartilha editada por um conselho da prefeitura de Belo Horizonte com orientações sobre o que os foliões deveriam evitar. Fantasias de índio, enfermeira sexy, a marchinha clássica de Lamartine Babo, touca com tranças, homem vestido de mulher. Esse último item com um requinte: nem de “noiva”.

Arriscamos terminar convertendo o país da transgressão e da antropofagia em uma nação puritana. Depois do ódio político, a chatice cultural

Talvez tenha sido nosso primeiro carnaval de cartilha, mas presumo que seja o primeiro de muitos.

Nessas coisas todas, o que me surpreende é o excesso de convicção. A certeza de que alguém tem o direito de mandar na vida dos outros. Antônio Risério chamou isso de “fascismo identitário” em seu livro recente. Fascismo, aqui, é o culto do dogma, a negação do diálogo, a sede de controle. Se o termo é adequado cada um pode julgar.

Vai aí uma marca do nosso tempo: a hiperpolitização do cotidiano. Jonathan Haidt trata do tema em seu The Coddling of the American Mind. A vigilância coletiva nos câmpi universitários, os safe spaces, a supressão da divergência e proteção a qualquer coisa que caiba sob o rótulo de ofensivo.

Parece evidente que as redes sociais têm muito a ver com isso. A conexão digital fez com que, subitamente, passássemos a viver juntos. Da multiplicidade que marca as grandes sociedades abertas, passamos a funcionar como uma comunidade. Comunidade de bisbilhoteiros e “reguladores da vida dos outros”, como escutei de um amigo professor tempos atrás.

Sobre a atual histeria identitária, Risério toca na questão central: como é possível que movimentos que iniciaram “como luta pelo reconhecimento do outro tenham terminado como uma luta que rejeita o outro, a diferença, a outridade”? Não vejo resposta simples a essa pergunta. Mas ela deve ser feita. De um movimento múltiplo e generoso, afirmativo de direitos, migramos a uma guerra mesquinha pelo disciplinamento do humor, pela correção da literatura, supressão de marchinhas, regulação de fantasias e festas populares.

Talvez tudo tenha saído um pouco de controle quando as guerras culturais invadiram o mundo da política e qualquer alegação de fragilidade tenha se tornado um caminho fácil para a virtude. Tudo feito à moda banal da radicalização e do exagero que marca a democracia atual.

Talvez tenha sido nosso primeiro carnaval de cartilha, mas presumo que seja o primeiro de muitos

Há muitos riscos aí. Um deles é a descredibilização dos temas de fato pertinentes à exclusão e o preconceito. Submeter a luta antirracista ao julgamento seletivo e à politização barata é perder de vista a seriedade dos temas que ela de fato envolve no dia a dia.

Há um elemento político: só quem tem ganhado, com a histeria identitária, é um certo direitismo conservador que declara guerra ao politicamente correto e passa a ser visto, por irônico que pareça, como libertador. Há muitos bons trabalhos de sociologia mostrando isso, infelizmente não aqui pelos trópicos.

No mais, arriscamos terminar convertendo o país da transgressão e da antropofagia em uma nação puritana. Depois do ódio político, a chatice cultural. Acabaríamos cantando hinos gospel no carnaval. Nesse dia bateria uma saudade, não tenho dúvidas, de algumas velhas marchinhas que deixamos para trás.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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Comentários [ 8 ]

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    Benedito

    ± 0 minutos

    Era uma vez um populista que pregava "nós"contra "eles" à partir de 1976 até os dias de hoje... deu nisso!!

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    Fernando Cavalcante

    ± 4 dias

    Muitos considerados de direita ou conservadores são, na verdade, independentes, libertários, e como já não suportavam a patrulha esquerdista, resolveram patrulha-los também, colocar um espelho à sua frente, medir forças, faze-los experimentar do mesmo. De resto, vale falar da proximidade entre as universidades e as escolas de samba cariocas (PSOL e criminalidade), expressa nas letras esquerdóídes das escolas de samba do RJ.

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    Ivan S Ruppell Jr

    ± 4 dias

    O colunista ignora, por esquecimento ou desconhecimento, ou por interesse que a patrulha das fantasias de Carnaval e suas marchinhas não ocorre, e nem cresce e avança no radicalismo e ódio assim conduzida pelos "gospel" ou pelos conservadores; mas sim, pelos progressistas, irmãos do pensador nas reflexões por um mundo libertário e desigual. Não há nada pior do que um sofisma irônico, pois ele agrava a Corrupção da verdade de seu propagador.

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    Vitor Chvidchenko

    ± 4 dias

    No mais, achei muito curioso - e até engraçado - o trocadilho (involuntário?) da última frase do texto: "Nesse dia BATERIA uma saudade, não tenho dúvidas, de algumas velhas marchinhas que deixamos para trás". Tudo a ver com Carnaval - Bateria, heheheh...

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    Vitor Chvidchenko

    ± 4 dias

    O ser humano está conseguindo destruir tudo que ele construiu ao longo desses milênios de civilização. Agora, até se divertir no Carnaval, vestir uma fantasia (sem nenhum tipo de propósito político), rir e contar piada está proibido.Nosso mundo está virando uma grande m** - e sob os aplausos de muita gente. Essa polarização radical que está acontecendo aqui no Brasil, nos EUA e em boa parte do resto do mundo também não está ajudando em nada - é até difícil saber até que ponto ela é causa, até que ponto ela é sintoma do que estamos vivendo (provavelmente, um pouco dos dois). Dois grupos radicais que se odeiam, super intolerantes e que sonham em eliminar totalmente o outro.No que isso vai dar?

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  • K

    Kaue

    ± 4 dias

    Acertou no “a guerra ideológica avançou no âmbito legislativo”. Quando isso acontece, leis são criadas para tolher o próximo de sua liberdade.

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  • A

    Admar Luiz

    ± 4 dias

    É isso, Fernando, teremos carnavais daqui pra frente como verdadeiras "festas gospeis". Como diria um gaúcho: barbaridade Tchê! É a praga do politicamente correto invadindo tudo. Na política, no humor, na literatura, e agora até no carnaval e no futebol. Credo! Mas, como diz o Ricardo Fiúza, essa porcaria vai implodir por si só.

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    1 Respostas
    • V

      Vitor Chvidchenko

      ± 4 dias

      Eu espero de verdade que seu prognóstico esteja certo. Eu, de minha parte, não estou tão otimista assim. Acho que a "chatização" da humanidade veio para ficar. Tempos sombrios.

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