i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

Fernando Schüler

Foto de perfil de Fernando Schüler
Ver perfil

Um espaço dedicado para debater o complexo cenário nacional atual

Segurança e liberdade

  • Fernando SchülerPor Fernando Schüler
  • 16/04/2020 00:01
Prefeitura de Salvador fiscaliza cumprimento das medidas de isolamento social em pontos comerciais: capital baiana decretou estado de emergência em 18 de março.
Prefeitura de Salvador fiscaliza cumprimento das medidas de isolamento social em pontos comerciais: capital baiana decretou estado de emergência em 18 de março.| Foto: Secom/Salvador/Fotos Públicas

Ainda me lembro da conversa com Zygmunt Bauman, junto com o amigo Mário Mazzilli, em sua velha casa de Leeds, na Inglaterra, alguns anos atrás. Os tempos eram outros, havia certo otimismo com a recuperação da crise, e o velho professor nos lembrou da dicotomia posta por Freud, em O Mal-Estar na Civilização, entre liberdade e segurança. Nunca se descobriu o equilíbrio perfeito entre os dois valores, disse ele, acrescentando desconfiar que o pêndulo havia girado em demasia na direção da liberdade. E que logo as pessoas demandariam (e já haviam sinais) mais segurança.

O momento parece ter chegado, professor Bauman, em circunstâncias que ninguém poderia prever ou desejar.

Demandas por segurança implicam, em graus variados, o apelo ao Estado. É natural. O Estado está aí para nos proteger precisamente em situações como a que vivemos. O risco é percebermos, no fim do dia, que novamente deixamos o pêndulo flutuar demais, dessa vez para o lado contrário.

Diria que o maior risco vem da retórica do novo conservadorismo iliberal. O apelo à quebra dos valores liberais, do direito de ir e vir à liberdade de expressão. Tudo parece perder um pouco do sentido diante do medo. Medo do vizinho no elevador, da perda do emprego, da morte. O medo hobbesiano. Foi isso que levou Adrian Vermeule, o jurista iliberal de Harvard, a fazer seu mais duro ataque ao liberalismo, em artigo recente, pregando entregar poder ao Estado sob o manto de um “legalismo iliberal que vá muito além do conservadorismo tradicional” e sua submissão às regras do Estado de Direito.

Demandas por segurança implicam, em graus variados, o apelo ao Estado. É natural

O avanço de ideias como as de Vermeule seria a pior consequência da crise. O pluralismo é uma marca de nossas sociedades abertas. A ideia de um Estado-príncipe regrando a vida a partir de uma concepção moral é uma tese pré-moderna, e seria fatal com o uso de tecnologias de controle digital hoje disponíveis.

A outra vertente fala da migração de uma era de “consenso neoliberal” para a reconstrução do Welfare State. A tese soa elegante, mas é feita de meias-verdades. O dito consenso neoliberal jamais foi propriamente um consenso, e o Welfare State de fato nunca saiu de cena. A última década, pós-crise de 2008, assistiu à ascensão de líderes de traço autoritário e populista (Orbán e Trump são apenas dois exemplos). É um erro situá-los em um consenso liberal.

Não se deve confundir um momento dramático, como o atual, com tendências sociais mais de longo prazo. Intuo que a questão sobre “mais Estado” logo será substituída por uma pergunta mais racional: de que tipo de Estado estamos mesmo falando? Não sei dar uma resposta ampla a esta pergunta, mas arrisco algumas ideias.

A primeira distingue o que são demandas legítimas por proteção e boa regulação daquilo que é essencialmente captura do Estado por setores organizados, no mercado político. Vale para nossos modelos de renúncia fiscal. Vale para o modelo aprovado nesta semana de apoio a estados e municípios, sem contrapartidas. A segunda reconhece que funções tradicionalmente desempenhadas pelo Estado podem ser executadas pelo mercado e sociedade civil. Da gestão de hospitais, no Brasil, a programas de transferência de renda, no Quênia. Tamanho não define a eficiência do Estado. Por fim, a superação da falsa oposição entre rigor fiscal e políticas sociais. Foi a irresponsabilidade fiscal o principal fator que nos levou aos 12% de desempregados com os quais entramos na pandemia.

O desafio é evitar velhos equívocos, como a oposição ingênua entre Estado e mercado, liberdade e justiça. A experiência moderna vai na direção inversa. O liberalismo foi domesticado e incorporou uma extensa agenda social, e a moderna social-democracia fez o mesmo com políticas de responsabilidade fiscal e reforma do Estado.

A crise oferece o tempo de repensar. Tempo de mexer no pêndulo e quem sabe chegar mais perto da Golden Rule imaginada pelo velho professor entre aqueles dois valores, que no fundo definem muito de nossa condição humana.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
4 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 4 ]

Máximo 700 caracteres [0]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Termos de Uso.

  • E

    Eduardo

    ± 6 dias

    É importante ressaltar que nenhum país chegou ao Welfare State sem antes implementar um severo liberalismo: livre-mercado, privatizações e pouca carga tributária para empresas, que ao frigir dos ovos é quem cria empregos. Portanto para o Brasil não há atalho.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • M

    Marcos eisenschlag

    ± 6 dias

    Nao e' de estranhar que alguem que participou do KBW ( uma especie de DOPS polonês) fazendo o serviço sujo para um governo stalinista repressor seja muito apegado a ideia de reduzir a liberdade em troca de "seguranca". E' mesmo como dizia Franklin: "Aqueles que trocam a liberdade pela segurança nao merecem a primeira e logo ficarao sem as duas"

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • J

    Joao F

    ± 6 dias

    Zygmunt Bauman foi oficial torturador do regime estalinista na Polônia, entre 1944 e 1954. Chegou a ser condecorado. Nunca pediu perdão por isso. E o liberal vem afirmar que o maior perigo é o conservadorismo. Se dependesse dos liberais, estaríamos todos falando Russo hoje em dia (https://www.irishtimes.com/opinion/postmodernism-made-me-do-it-a-world-without-blame-1.1201660) .

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • A

    André

    ± 6 dias

    Muito bom!

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]