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Pesquisadores trabalham em um laboratório do Instituto Wuhan de Virologia (WIV) em Wuhan, província de Hubei, China, 23 de fevereiro de 2017: China não autoriza acesso a seus laboratórios
Pesquisadores trabalham em um laboratório do Instituto Wuhan de Virologia (WIV) em Wuhan, província de Hubei, China, 23 de fevereiro de 2017: China não autoriza acesso a seus laboratórios| Foto: EFE/EPA/PASTOR HOU

A invasão russa da Ucrânia continua e hoje, terça-feira, teremos uma nova rodada de negociações na cidade de Gomel, em Belarus. As delegações de Rússia e Ucrânia vão se encontrar para, aparentemente, concretizar a possibilidade de uma reunião direta entre Putin e Zelensky, os respectivos presidentes. Enquanto aguardamos os eventuais resultados do encontro, incluindo aí a possibilidade de não haver resultado, é interessante olharmos para uma troca de acusações ocorrida na semana passada, sobre o uso de armas químicas, envolvendo EUA, Rússia e uma parte muito interessada nisso tudo, a China.

A situação começou a escalar no dia 8 de março. O governo russo, via Maria Zakharova, porta-voz do ministério das Relações Exteriores, afirmou que possuem documentos supostamente comprovando que existem laboratórios ucranianos para o desenvolvimento de “componentes de armas químicas”. Esses laboratórios seriam, segundo a Rússia, operados em conjunto pela Ucrânia e pelos EUA, e teriam amostras de “elementos letais”, como cólera e antraz.

Ainda segundo a Rússia, agora pelo seu ministério da Defesa, o material biológico teria sido destruído antes da chegada de tropas russas, supostamente por uma orientação dos EUA. Segundo Igor Konashenkov, porta-voz do ministério, a “destruição em caráter de emergência” teria ocorrido no dia 24 de fevereiro e incluiria diversos patógenos. No mesmo dia 8 de março, Victoria Nuland, subsecretária de Estado dos EUA, participou de uma sessão no Senado de seu país.

Respondendo perguntas dos senadores, ela afirmou que "a Ucrânia tem instalações de pesquisa biológica”, que “estamos bastante preocupados que as forças russas possam estar tentando obter o controle" dessas instalações e que “estamos trabalhando com os ucranianos sobre como eles podem evitar que qualquer um desses materiais de pesquisa caia nas mãos das forças russas”. Ela também negou que a Ucrânia estaria desenvolvendo armas biológicas.

Confirmação das acusações?

Ou seja, teríamos, no mesmo dia, uma acusação russa que seria “comprovada” pela “confissão” de Nuland? Não exatamente. Primeiro, é importante frisar que as declarações de Victoria Nuland foram públicas e perante uma sessão do Senado. A diplomata é cercada de polêmicas sobre suas funções na Ucrânia na última década, isso é um fato. Ainda assim, a importância de destacar o caráter público dessas declarações se dá pelo tratamento por parte da mídia e de perfis em redes sociais, afirmando que foram declarações “vazadas”, que era algo “secreto” ou que foi uma “confissão”.

Isso é feito seja por sensacionalismo ou para reforçar o viés de confirmação típico de teóricos de conspiração, que precisam tratar tudo como “a verdade escondida”, não é esse o caso, foram declarações públicas. Ainda assim, o governo dos EUA negou as acusações russas em ao menos duas circunstâncias diferentes. A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, afirmou que as acusações russas são “um óbvio estratagema para justificar” o uso “de armas químicas ou biológicas” ou “criar uma operação de 'bandeira falsa' com elas.”.

A própria Nuland classificou as acusações russas dessa maneira em sua audiência no Senado, afirmando que era uma “clássica técnica russa de culpar o outro pelo que eles mesmos planejam fazer”. Psaki também listou diversos casos do suspeito uso de armas químicas pela Rússia, como no assassinato de opositores, ou por aliados russos, como pelo governo sírio de Bashar al-Assad. Já o Pentágono foi mais esclarecedor em sua nota. Acusou a Rússia de “desinformação” e afirma que os EUA são parceiros da Ucrânia, desde 2005, na administração de laboratórios químicos e biológicos herdados da União Soviética.

Segundo a nota, agências dos EUA colaboram com fundos e expertise para gerenciar os materiais, incluindo o “descarte adequado” de substâncias. A nota cita parcerias similares com o Cazaquistão como exemplos. De fato, o governo dos EUA colaborou com autoridades cazaques para adquirir ou descartar toneladas de urânio enriquecido, diversos patógenos e também materiais para armas químicas. O Cazaquistão, com sua baixa densidade populacional e localidades remotas, era o local onde eram realizados muitos desses experimentos e pesquisas. A mesma racionalidade do governo EUA para instalar esses locais em regiões como Nevada.

Já no dia nove, o ministério da Defesa russo retomou as acusações. O mesmo Igor Konashenkov afirmou que milícias nacionalistas ucranianas teriam movido oitenta toneladas de amoníaco para a cidade de Zolochiv, perto de Kharkov, e supostamente pretendiam usar o material contra cidades russas nas regiões separatistas do leste. No último dia treze, Jake Sullivan, conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, disse em entrevista que o governo em Washington está “preocupado” com um possível uso de armas químicas pela Rússia, e que o país já teria transmitido “alertas” sobre essa possibilidade para Moscou.

Em suma, a Rússia acusa os EUA de financiar ou colaborar com laboratórios ucranianos para o desenvolvimento ou manufatura de armamento químico e biológico, supostamente para serem utilizados contra russos. Já o governo dos EUA nega essa possibilidade, afirma que a colaboração se dá para evitar acidentes ou proliferação e que é a Rússia que pretende utilizar esse tipo de armamento, com Moscou “preparando o terreno” para esse uso e a culpabilização dos ucranianos.

China e o coronavírus

Já diz o clichê que “numa guerra, a primeira morte é a verdade”. O mais interessante, talvez, não seja especular sobre a troca de acusações, mas observar a postura da China durante esse episódio. Ainda no dia oito de março, o porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês, Zhao Lijian, afirmou que “os EUA possuem 336 laboratórios biológicos em trinta países sob seu controle, incluindo 26 apenas na Ucrânia. Precisam prestar contas de suas atividades militares biológicas, domésticas e no exterior, e se submeter à supervisão multilateral”.

A China não está apenas apoiando sua aliada Rússia. O recado chinês é mais abrangente que isso. Desde o governo Trump, Washington pressiona para que uma missão da Organização Mundial de Saúde tenha grande autoridade para investigar a origem da pandemia do coronavírus. Isso incluiria acesso ao laboratório de virologia de Wuhan. O que a China está fazendo é lembrar aos EUA do princípio da reciprocidade do Direito Internacional.

Se querem acesso aos laboratórios chineses, precisariam também “prestar contas”, nos termos do porta-voz, sobre seus próprios laboratórios. Curiosamente, muito provavelmente é justamente por essa postura dos EUA que a revisão dos poderes da OMS não avançou, como já comentado em nosso espaço. Apesar da retórica dos EUA sobre maior autoridade para a OMS, não deixa de ser apenas retórica. Por uma série de motivos, Washington negligencia e recusa a colaboração em várias pautas na cooperação multilateral. Por exemplo, o país não é parte do Tribunal Penal Internacional.

Em relação a armamentos estratégicos, também não é parte da maioria dos tratados sobre armamentos nucleares, como o Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares, que não é ratificado pelos EUA. Nesse caso, o foco dos EUA é a cooperação bilateral com a Rússia, já que são os dois únicos países com arsenais de nível similar. Principalmente, os governos dos EUA são contra acordos que permitam inspeções surpresa no país. Mesmo signatário da Convenção contra Tortura, por exemplo, não adotaram o protocolo adicional, que permite inspeções em prisões e instituições de custódia.

E o governo chinês sabe disso, daí a conveniência da situação de troca de acusações na Ucrânia para os chineses, já que os EUA não aceitariam a supervisão de seus laboratórios. É claro que esse cenário pode mudar e um acordo pode ser encontrado. Isso também faz parte do recado chinês, de colocar um “preço” na cooperação. Claro que, em perspectivas científicas e sanitárias, essas são péssimas notícias, mas, no fundo, se trata de política, quando o interesse é a regra.

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