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Helicópteros içam bandeiras gigantes de Taiwan em voo sobre o centro de Taipei, durante ensaio que antecede a comemoração do Dia Nacional de Taiwan
Helicópteros içam bandeiras gigantes de Taiwan em voo sobre o centro de Taipei, durante ensaio que antecede a comemoração do Dia Nacional de Taiwan| Foto: EFE / RITCHIE B. TONGO

Caso uma hipotética Terceira Guerra Mundial comece nas próximas décadas, ela certamente começará no Mar do Sul da China. Ali é o foco de tensão das potências mundiais que podem fazer um conflito local tornar-se mundial, uma via essencial para o comércio mundial e onde abundam disputas fronteiriças. Na última quarta-feira, o ministro de Defesa de Taiwan, Chiu Kuo-cheng, jogou mais lenha na previsão dessa fogueira, afirmando que, em 2025, a China poderá invadir e dominar a ilha. Cabe vermos o que há de verdade e de interesses em uma declaração como essa.

Uma breve recapitulação. Na prática, existem duas Chinas. A República Popular da China, a China continental, terceiro maior país do mundo, com um regime do partido comunista local e cuja capital é Pequim. E a República da China, país insular, também chamada de Taiwan ou de Taipei, nome de sua capital. Por cerca de quatrocentos anos, ambos os territórios estavam unificados sob a China imperial, seja a dinastia Ming ou a dinastia Qing. Em 1895, após a Primeira Guerra Sino-Japonesa, Taiwan foi anexada pelo Japão, situação que durou até 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial.

Após a Segunda Guerra Mundial, com a derrota japonesa, é retomada a Guerra Civil Chinesa, iniciada em 1927, consequência de um racha entre as forças republicanas revolucionárias que derrubam a monarquia, em 1911. De um lado, o Kuomitang, o Partido Nacionalista de Chiang Kai-Shek, e, do outro, o Partido Comunista de Mao Tse-tung. A nova fase da guerra civil vai durar até 1949 e terminará com uma vitória comunista e o governo nacionalista do Kuomitang desloca sua capital para Taiwan. A queda de Taiwan, tida como mera questão de tempo, não vem.

Com o início da Guerra da Coreia, os EUA decidem deslocar forças para Taiwan e, em 1955, o Congresso dos EUA aprova a Resolução de Formosa, basicamente uma aliança militar. Desde então, perdura um impasse. Parte dessa situação é o fato de que ambas as repúblicas chinesas adotam uma política chamada de Uma China. Para a China comunista, Taiwan é uma província rebelde. Para Taiwan, o governo comunista é ilegítimo. E quem tem relações com um país, obrigatoriamente, não reconhece o outro, como já explicamos aqui antes. O ponto dessa recapitulação é lembrar de duas questões.

Laços e distâncias

Primeiro, a China continental e Taiwan não possuem um mesmo governo em tempos de paz nos últimos 126 anos. É necessário voltar ao final do século XIX para isso. Isso colabora para o debate interno de Taiwan sobre sua própria identidade. Na ilha existem duas grandes correntes políticas. A chamada Coalizão Verde, que defende a independência e uma identidade própria de Taiwan, e a Coalizão Azul, que defende o diálogo e a aproximação gradual entre as duas Chinas. Etnicamente, estamos falando da mesma população Han, com um rico passado em comum.

A ocupação japonesa, inclusive, fortaleceu o sentimento patriótico chinês em muitos pontos. Por outro lado, existe uma distância física e política que se torna mais difícil de ser superada a cada dia que passa. A segunda questão é que a cooperação militar entre EUA e Taiwan, embora limitada desde o reconhecimento de Pequim por Washington, em 1971, não é de hoje, nem mero capricho. É firmada por um tratado ratificado no Congresso, que sustenta legalmente as vendas de armas dos EUA para a ilha, que não são pequenas, mesmo que sob protestos de Pequim.

É esse então o cenário de 2021 e, muito provavelmente, o cenário em 2025, data citada pelo ministro taiwanês: duas repúblicas que se consideram a única representante legítima dos chineses, uma é uma superpotência mundial, a outra é um país com economia avançada e com laços com outra superpotência. Existe uma solução militar para essa crise? Sim, existe. Ela é provável? Não muito. Valeria a pena? Certamente não. E vamos responder cada um desses três itens. Sim, existe uma possível solução militar para essa crise, como praticamente para qualquer crise que envolva territórios.

A China tem expandido sua marinha e, hoje, possui uma capacidade de projeção de força inferior apenas à dos EUA. “Projeção de força” aqui é conseguir não apenas se defender, mas realizar operações militares de larga escala para além de seu território. Novos e modernos navios e submarinos, uma frota crescente de porta-aviões e de porta-helicópteros, navios de desembarque de doca, veículos anfíbios e vetores aéreos de longo alcance, tudo isso torna plausível um plano chinês de invadir Taiwan. Do outro lado, os esforços taiwaneses para rechaçar uma hipotética invasão são tão concretos quanto.

Cálculos e custos

A questão é que não se trata de videogame, de revisão de literatura militar ou da década de 1940. Existe um termo curioso na cultura dos EUA, os “armchair generals”, “generais de poltrona”, aqueles indivíduos que confundem vida real com videogame ou que acreditam que a leitura de um ou outro livro especializado faz deles um novo Napoleão. Para essas pessoas, é quase orgásmico especular uma invasão chinesa de Taiwan. Na vida real, entretanto, seria uma tarefa hercúlea, e os preparativos chineses seriam percebidos com meses de antecedência por satélites, não haveria a surpresa do Dia D.

A própria geografia de Taiwan favorece a defesa e suas forças armadas são preparadas justamente para resistir à uma invasão do continente, com vasto arsenal de mísseis anti-navio, minas terrestres e peças de artilharia. Centenas de milhares de combatentes morreriam, o risco do conflito envolver outras potências seria enorme e os prejuízos, de todo tipo, seriam imensuráveis. Taiwan possui uma população de quase trinta milhões de pessoas, em uma densidade demográfica maior que a de Florianópolis. É como se a capital catarinense fosse um país.

A capital, Taipei, seria a cidade com maior densidade urbana do Brasil. O leitor tente visualizar como seria ocupar um território como esse, com uma população idêntica à invasora, sendo quase impossível distinguir amigo do inimigo. Os japoneses, no final do século XIX, precisaram de seis meses e de vinte mil mortes para conseguir impor seu domínio. Uma invasão e ocupação traria prejuízos para a imagem chinesa, dentro e fora do país, e para a economia global, já que Taiwan é um polo essencial nas cadeias globais de produção de semicondutores.

Claro que esses três parágrafos são um mero resumo de algo abordado em uma infinidade de páginas de relatórios, jogos de guerra e análises feitas pelos atores envolvidos. O ponto é: uma invasão chinesa à Taiwan dificilmente valeria à pena, com custos maiores do que benesses, fazendo da empreitada bastante improvável. Note o leitor que são cálculos de interesse. Não de desejos ou possibilidades. É o mesmo tipo de cálculo que faz um ataque dos EUA contra a Coreia do Norte ser improvável: Seoul pagaria o preço, estando perto da fronteira e bem na linha de tiro.

Conveniência

O próprio Xi Jinping, em discurso de 18 de outubro de 2017 perante o Congresso do Partido Comunista, já avisou alguns desses pontos. Principalmente, que seriam chineses matando chineses, não uma guerra contra um inimigo demonizado e “bárbaro” como as guerras costumam ser retratadas pelos jingoístas. “O sangue é mais espesso que a água. Pessoas em ambos os lados do Estreito de Taiwan são irmãos e irmãs (...) Guiados pela convicção de que somos todos da mesma família, (...). Expandiremos os intercâmbios econômicos e culturais através do Estreito e a cooperação para benefícios mútuos.”

A China teria muito mais sucesso em cooptar, ou forçar negociações com, Taiwan. Por exemplo, utilizando sua crescente frota de submarinos para um eventual bloqueio das vias marítimas da ilha. “Oras Filipe, mas a China já disse que pode usar a saída militar”. Sim, o governo chinês disse isso em tempos recentes, incluindo incursões com dezenas de aviões militares em espaço aéreo taiwanês. Isso é uma forma de se mostrar assertiva na região, de reforçar a política de Uma China e, principalmente, de legitimar sua expansão militar, especialmente naval. A mesma coisa serve para o ministro da Defesa de Taiwan.

Bater os tambores de guerra é uma forma de garantir a própria função do ministro, que, ao  lembrar que um conflito pode estar no horizonte, justifica maiores orçamentos e maior cooperação, especialmente com os EUA. Washington também se interessa pela retórica bélica, pois ela legitima sua vasta presença militar na região. Ou seja, a retórica de conflito é conveniente para todos os envolvidos, para propaganda e para justificar seus gastos militares crescentes. Ao fim dos cálculos, entretanto, uma invasão chinesa de Taiwan pode muito mais ser uma consequência do que ser o início de uma guerra.

Existe apenas um cenário que pode invalidar todo esse raciocínio. Uma declaração de independência de Taiwan. Ou seja, o abandono da herança chinesa por Taiwan. Consequentemente, se declarar não mais uma “província rebelde” chinesa, mas um país separado, o que Kosovo é para a Sérvia. E isso não seria feito sem apoio explícito dos EUA, algo que não existe hoje, diga-se. Fora esse cenário, o discurso belicista é sedutor e atende vários interesses, mas não é aprovado nos cálculos de realidade fora dos videogames. Invadir Taiwan custaria caro demais na vida real. Para o mundo inteiro.

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