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Emmanuel Macron é o primeiro presidente da França reeleito desde Jacques Chirac, em 2002
Emmanuel Macron é o primeiro presidente da França reeleito desde Jacques Chirac, em 2002| Foto: EFE/EPA/Guillaume Horcajuelo

Emmanuel Macron foi reeleito presidente da França, o primeiro conquistador de um segundo mandato desde Jacques Chirac em 2002. No último domingo, dia 24 de abril, ocorreu o segundo turno das eleições presidenciais francesas, vencidas de maneira relativamente confortável por Macron. Mesmo vencedor, entretanto, Macron já terá algumas preocupações imediatas para o restante de 2022.

Primeiro, os resultados do pleito. O comparecimento eleitoral foi de 71,9% no segundo turno, um pouco menos do que os 73,6% presentes no primeiro, mas um comparecimento notável. Algumas pesquisas falavam em grande ausência eleitoral no segundo turno, especialmente por eleitores descontentes de Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, derrotado no primeiro turno.

Também ao contrário das pesquisas, Macron teve 58,5% dos votos do segundo turno, bastante acima das estimativas que giravam em torno de 55%. Marine Le Pen recebeu 41,4% dos votos e outros 8,5% dos votos foram brancos ou inválidos. Em números brutos, Macron dobrou seus votos entre um turno e outro, para um total de quase dezenove milhões. Le Pen teve cinco milhões de votos a mais.

A derrota de Le Pen

Segundo a boca de urna, dos eleitores de Mélenchon no primeiro turno, 42% votaram em Macron, 24% se absteve, 17% votou em branco ou nulo e outros 17% votaram em Le Pen. Esse é um dos fatores que explica a derrota de Le Pen. A candidata teve mais votos do que em 2017, tanto proporcionalmente quanto em números absolutos, mas, ainda assim, pouco conseguiu mobilizar um eleitorado além do seu habitual.

Isso também pode ser visto no fato de que Le Pen ficou “em terceiro” nas eleições, com menos votos do que as abstenções. Isso sem somar os votos brancos e nulos. Essa barreira é apenas um lado de uma mesma moeda, a da rejeição. Cerca de 40% dos eleitores de Macron no segundo turno afirmaram que sua principal motivação era impedir uma vitória de Le Pen.

O próprio Macron reconheceu isso em seu discurso de vitória. “Muitos franceses votaram em mim não porque apoiam minhas ideias, mas para derrotar as da extrema-direita. Quero agradecê-los e saber que tenho uma dívida com eles nos próximos anos”. Caso coloquemos os resultados eleitorais em uma linha do tempo, entretanto, a situação de Le Pen não é tão pessimista.

Ela teve o melhor resultado de uma candidatura de extrema direita na França, teve mais votos do que em 2017, enquanto Macron recebeu menos votos. Ou seja, caso Le Pen se mantenha “em campanha” para uma eventual nova candidatura, em 2027, a tendência é de diminuir sua rejeição. Macron não poderá ser candidato em 2027, já que a lei francesa permite apenas uma reeleição.

Novo gabinete

Se Macron pretende retornar ao cargo, será apenas em 2032. Um movimento personalista como o seu, que gira em torno de sua figura e de seu nome, dificilmente conseguirá ungir um sucessor com grandes chances. Será a chance de Le Pen, de Mélenchon ou da retomada de forças pelos partidos tradicionais. Anne Hidalgo, do Partido Socialista, por exemplo, terá os Jogos Olímpicos como sua vitrine.

De qualquer maneira, consagrar um eventual sucessor não é das preocupações imediatas de Macron. Primeiro, ele terá que formar seu novo gabinete. Jean Castex, o atual primeiro-ministro, entregou o cargo. Supostamente Castex teria recebido um pedido de ficar no cargo, mas insistiu na renúncia, resgatando a tradição da renúncia eleitoral, para permitir que o mandatário reeleito possa ter liberdade para formar um novo gabinete.

Formar um novo gabinete de ministros após vencer as eleições pode soar tarefa simples, mas esse desafio dialoga com o segundo desafio que Macron enfrentará ainda em 2022. Em junho ocorrerão as eleições legislativas francesas, para escolher 577 parlamentares, com possibilidade de segundo turno nos distritos eleitorais. Atualmente, o Em Marcha! de Macron possui 280 parlamentares.

Terceiro turno

Além de ser um número menor do que a metade, significa uma perda de 28 parlamentares em relação aos eleitos em 2017. Menos mal para Macron que os parlamentares que trocaram de partido foram para legendas aliadas de sua coalizão de maioria, mas o alerta amarelo já está ligado. Além de vencer as eleições presidenciais, Macron precisa vencer o “terceiro turno” com as eleições legislativas.

As últimas pesquisas para o pleito legislativo apontam algo como 340 assentos para a aliança de Macron, 90 para Le Pen, 50 para os Republicanos, de centro-direita, 35 para Mélenchon e 30 para o Partido Socialista, focando nos resultados principais. Considerando que a Frente Nacional de Le Pen possui apenas oito deputados atualmente, ela aumentaria sua bancada em mais de dez vezes.

Nesse cenário, Macron teria a maioria, sim, mas enfrentaria uma oposição maior e muito mais ferrenha, trabalhando para uma futura candidata presidencial. Assim, a formação de seu novo gabinete deve ser utilizada também como uma ferramenta eleitoral para junho, especialmente com acenos ao eleitorado de esquerda e de centro-direita. Uma espécie de “frente ampla” ministerial contra o partido de Le Pen.

Finalmente, a guerra na Ucrânia. Livre dos compromissos eleitorais, Macron pode tentar retomar o posto de principal liderança da Europa continental. E isso também possui um componente eleitoral, já que, no único debate do segundo turno, Macron conseguiu colocar a pecha de aliada de Putin em Le Pen. Manter um papel ativo nas negociações, então, pode ajudar a imagem de Macron, um acordo para a paz e também atingir sua adversária.

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