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O brasileiro Sérgio Vieira de Mello em reunião da ONU em Nova Iorque, julho de 2003
O brasileiro Sérgio Vieira de Mello em reunião da ONU em Nova Iorque, julho de 2003| Foto: Reprodução / Mark Garten / ONU

Sérgio Vieira de Mello é um nome que não possui o devido reconhecimento no Brasil. E isso ocorre por vários motivos, não se trata aqui de apontar dedos específicos ou exigir que todos conheçam a biografia de alguém, numa osmose mágica de conhecimento. Um dos motivos, por exemplo, é o fato dele não ter sido um diplomata do Itamaraty, um funcionário do Estado brasileiro, mas um funcionário técnico da Organização das Nações Unidas; isso é alvo de frequente confusão, mas sem preciosismos de nomenclatura. O novo filme Sergio, estrelado por Wagner Moura, pode ajudar na mudança desse reconhecimento, mas um aspecto, talvez importante, tenha ficado de lado na obra.

O “talvez importante” se dá pelo fato de ser algo importante na visão desse colunista, focado na política internacional; talvez não tenha o mesmo peso pensando no lado dos produtores e criadores do filme. A obra conta um pouco da vida de Sérgio Vieira de Mello e as circunstâncias de sua morte, em um atentado à bomba contra o Canal Hotel em Bagdá, no Iraque, em 19 de agosto de 2003; além do brasileiro, outras 21 pessoas morreram. O local servia de sede iraquiana da ONU desde 1998 e, após a invasão do Iraque pelos EUA, tornou-se também sede da Missão de Assistência das Nações Unidas para o Iraque, capitaneada por Sérgio, como ele gostava de ser chamado.

Genocídio no Timor Leste

O filme diz que um dos motivos para Sérgio ter sido indicado ao posto, e pressionado para aceitar, é que “a Casa Branca gosta de você” pelo trabalho realizado por ele no Timor Leste. No caso, o governo de Bush filho. Sérgio Vieira de Mello liderou a Administração Transitória das Nações Unidas em Timor Leste entre 1999 e 2002. Ele governou o território com amplos poderes, com um mandato substancial do Conselho de Segurança da ONU. O Timor Leste, um país lusófono como o Brasil, declarou sua independência de Portugal em 1975; no mesmo ano, foi invadido e anexado pela Indonésia, sob a ditadura de Suharto. A ocupação durou 24 anos.

Nesse período, a população timorense foi alvo de um genocídio que passou décadas esquecido, sob a conveniência da Guerra Fria. Entre 150 e 300 mil timorenses foram mortos, até 30% da população pré-ocupação. Em 1991, início de uma década decisiva para os direitos humanos e a cooperação internacional, o exército indonésio realizou um massacre durante um cortejo fúnebre. Cerca de 250 pessoas morreram, incluindo um padre católico e dois jornalistas estrangeiros. Foi o início de uma campanha de pressão internacional para que o governo indonésio reconhecesse a independência do Timor ou, ao menos, desse mais autonomia aos timorenses.

Essa campanha era conduzida em três frentes. O sacerdote católico timorense Carlos Filipe Ximenes Belo, denunciando a violência e as violações de direitos humanos da ocupação; o então “ministro de relações exteriores informal” José Ramos-Horta, que passou décadas pressionando e articulando com atores internacionais; e Xanana Gusmão, líder do grupo armado Forças Armadas da Libertação Nacional de Timor Leste, a FALINTIL. Ramos-Horta e Xanana Gusmão foram presidentes e primeiros-ministros do país nas décadas recentes. Além disso, Ramos-Horta e Ximenes Belo dividiram o Nobel da Paz, em 1996. Em 1999, finalmente, foi realizado um referendo de independência no Timor Leste.

Oficialmente, o voto foi “solicitado” pelo governo indonésio, por livre e espontânea pressão. O referendo foi organizado pela ONU e 78,5% dos votantes optaram pela independência. O que deveria ser um final feliz transformou-se no início de mais um capítulo, um bastante trágico. As autoridades internacionais chegaram, realizaram o voto e foram embora. O povo timorense ficou legado à própria sorte em um primeiro momento. Como consequência oficial do referendo, as autoridades indonésias ordenaram o desmonte de todos os serviços e infraestrutura da região, tratado como propriedade indonésia. Abastecimento de luz, de água potável, tudo foi afetado ou destruído. Em represália não-oficial ao voto, ocorreu uma onda de violência e destruição.

Forças da ONU

O exército indonésio “lavou as mãos” para tudo isso, não era mais com eles. Nos bastidores, muitos militares também participaram da violência e forneceram armas às milícias pró-Indonésia que realizaram assassinatos, linchamentos, saques, vandalismo, violência sexual em larga escala. O território foi transformado em terra rasada. Era necessária uma resposta mais firme, que veio, no curto prazo, com decisiva colaboração australiana. A Força Internacional Timor Leste (INTERFET), no auge, teve mais de uma dezena de militares de diversos países, incluindo o Brasil. A maior parte, e o comando, entretanto, eram de australianos, que empregaram também armamento pesado.

Passados cinco meses, a situação estava mais tranquila. A força militar se retirou. Era hora do governo de transição, da “construção de um país”, com Sérgio Vieira de Mello como governante do Timor Leste, até que o novo país tivesse bases mais sólidas por onde caminhar. Só que a violência, embora menor, não foi dissipada. Diversas milícias ainda agiam no território. Meses depois da retirada da INTERFET, no dia 24 de julho de 2000, um soldado neozelandês chamado Leonard Manning foi morto. Sérgio estava numa encruzilhada, sabendo que, naquele momento, a imagem da ONU estava afetada pelos fracassos dos anos anteriores na década de 1990.

De um lado, o fracasso na Somália, de uma pesada intervenção militar, uma missão de “peace enforcement”, liderada pelos EUA e com contingentes de vários países, como o Paquistão. A missão resultou em centenas de mortos, perda de prestígio da ONU, desgaste para o governo Bill Clinton e a Somália continuou em guerra civil. Os eventos do filme Falcão Negro em Perigo fazem parte desse contexto, caso seja um exemplo familiar ao leitor. Do outro lado, os genocídios na Bósnia e em Ruanda. O massacre de Srebrenica, em 1995, custou a vida de oito mil bósnios, sob o olhar omisso de tropas neerlandesas. Já em Ruanda, o genocídio não foi contido por tropas belgas e francesas.

Inclusive, Sérgio Vieira de Mello esteve na Bósnia, quando foi alvo de ataques e quando pediu ações mais firmes do componente militar da missão. Sérgio também sabia que duas coisas foram comuns a todos esses três episódios citados. Uma é que os soldados sob mandato da ONU agiam muitas vezes em situações incertas. Ou extrapolavam para o conflito aberto, ou para omissão, por receio de falhar nas regras de engajamento. Se um soldado só pode atirar para se defender, então, talvez seja melhor não atirar. Enquanto isso, inocentes morrem em sua frente. A outra coisa comum aos três episódios: a ONU que ficou com a culpa e com a imagem manchada.

Não importava se investigações posteriores apontaram negligência do comandante local do contingente do exército dos Países Baixos, a culpa do genocídio da Bósnia era “da ONU”. O governo belga e suas ligações um tanto quanto suspeitas com os executores do genocídio em Ruanda? Não importa tanto, a culpa é “da ONU”. Como já explicado algumas vezes aqui, “a ONU” não existe, ela é fruto da vontade dos Estados. E, nesses casos, servia de escudo para a imagem desses mesmos Estados. Sérgio Vieira de Mello, um funcionário de carreira da ONU, não estava disposto na repetição desse cenário. Além disso, a desacreditada Indonésia não tinha muito como protestar.

Abraçador de árvores

Ele então toma uma decisão inédita, a de autorizar tropas da ONU sob um administrador civil a atirarem primeiro. E, se necessário, com força letal. Teve que dobrar os representantes em Nova Iorque para conseguir isso, e os convenceu. Fortaleceu o contingente de policiamento da missão. “Optamos por não seguir a abordagem habitual e clássica das forças de manutenção da paz: sofrer provocações, receber tiros, sofrer baixas e não responder com força suficiente, não atirar para matar. A ONU já havia feito isso antes e não repetiremos isso aqui.”. Segundo sua biografia escrita por Samantha Power, ele chegou a passar as tropas em revista, para melhorar o moral dos soldados.

Uma de suas primeiras ações como administrador, no que concerne a estrutura timorense, foi criar uma academia de polícia, onde agentes de segurança estrangeiros ensinariam os novos policiais timorenses. Claro que não são apenas essas ações de Sérgio Vieira de Mello que explicam o sucesso de seus anos no Timor Leste, mas, ao mesmo tempo, elas são componente vital para a compreensão do que ele conseguiu. E são a origem da admiração que Bush tinha por ele. Segundo o mesmo livro citado, o uso sábio da força fez com que o governo dos EUA não visse nele um “tree-hugger”, um abraçador de árvores, expressão depreciativa para pessoas idealistas em demasia, especialmente ecologistas.

Infelizmente, esse componente ficou de fora do filme. Alguns podem até ficar com a impressão de que Sérgio Vieira de Mello fosse um mero idealista, um abraçador de árvores, alguém que dispensou segurança no Iraque (outro exagero da ficção). O filme também mostra ele falando grosso com o enviado dos EUA para o Iraque, quando ele diz que ele estava ali para arrumar a bagunça que Washington fez com a invasão; coisa que, diga-se, ele provavelmente disse com palavras ainda mais duras. Sérgio Vieira de Mello teve um impacto enorme nas pessoas ao seu redor, sabia os ideais que o motivavam e o que pretendia conseguir. Inclusive, proteger pessoas inocentes, de qualquer nacionalidade.

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