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O presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk-yeol,  durante uma entrevista coletiva na Assembleia Nacional em Seul em 10 de março de 2022.
O presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk-yeol, durante uma entrevista coletiva na Assembleia Nacional em Seul em 10 de março de 2022.| Foto: EFE/EPA/KIM HONG-JI

O novo presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk-yeol, assumiu o cargo no último dia dez. Vencedor das eleições do dia nove de março, o projeto de governo do conservador Yoon era o prenúncio de mudança das relações do país com a república coreana ao norte, distanciando do diálogo e defendendo uma postura mais combativa. Seu discurso de posse, entretanto, mostrou outra possível faceta do novo mandatário sul-coreano.

Recapitulando brevemente as eleições e seus resultados, de um lado tínhamos, pelo então governista Partido Democrático, Lee Jae-myung, ex-governador da mais populosa província do país, Gyeonggi. O agora ex-presidente Moon Jae-in, eleito em 2017, não podia concorrer ao novo mandato. O Partido Democrático é a principal legenda de centro-esquerda da Coreia do Sul e, como tal, defende uma abordagem que dialogue com os vizinhos do norte.

Como já explicamos algumas vezes em nosso espaço, as relações inter-coreanas são uma das principais bandeiras políticas no país e uma marca da clivagem entre esquerda e direita. A esquerda defende uma abordagem mais pacífica, com uma eventual integração de comum acordo no futuro. Já a direita defende uma postura que priorize a segurança nacional, independente da visão sobre uma futura integração.

Quando abordamos as eleições coreanas no início do ano, foi feita uma analogia, com todos os problemas das analogias, de que o novo presidente Yoon Seok-youl seria uma espécie de “Sérgio Moro” sul-coreano. Um ex-Procurador Geral da república que ganhou destaque por casos envolvendo corrupção e cuja imagem é dividida entre admiradores de seu desempenho nesses casos e críticos do que seria uma politização do judiciário.

Como parte de sua campanha, afirmou que poderia solicitar a expansão da presença militar dos EUA no país, para balancear o programa nuclear norte-coreano, o que gerou críticas da China. Yoon venceu com 48,5% dos votos, contra 47,8% de Lee, com 77% do eleitorado presente. Em números absolutos, a diferença foi de menos de 250 mil votos, na mais apertada eleição da História sul-coreana.

Discurso de posse 

No discurso de posse, Yoon abordou diversos tópicos, inclusive temas que alguns poderiam julgar deslocados vindos de um candidato conservador, como as mudanças climáticas. Também criticou a “anti-intelectualidade” como um fenômeno responsável pelo desgaste político e social, como algo que “enfraquece a democracia”, defendendo o que chamou de “racionalidade”.

Interessante destacar que, em todos os momentos, como é tradição, o presidente fala em povo coreano e em Coreia, sem o designador geográfico “do Sul”. Além do fato de cada uma das repúblicas coreanas se enxergar como a única representante legítima, exista o fato de que, para os coreanos, embora existam essas duas repúblicas, existe apenas uma nação coreana, um único povo.

Por outro lado, a defesa da “racionalidade” de Yoon também foi vista como uma crítica ao que é comumente chamado de “cultura do cancelamento”. Yoon defendeu diversas bandeiras anti-feministas em sua campanha, em tópicos ainda sensíveis na sociedade, como o trabalho feminino e que o feminismo causava a baixa taxa de natalidade coreana. Também prometeu fechar o ministério de Igualdade de Gênero e da Família. Por essas declarações, ele recebeu muito apoio eleitoral dos idaenam, algo como o equivalente coreano dos incel, os "celibatários involuntários".

Yoon defendeu a liberdade política e econômica, que seriam bases da prosperidade, e afirmou que seu governo será um “defensor da liberdade”. Adicionou que a “liberdade segue as regras”, talvez uma crítica à invasão da Ucrânia pela Rússia. Também afirmou que será um presidente não apenas para os coreanos em seu país, mas também para os quase oito milhões de compatriotas que vivem no estrangeiro.

Após comentar sobre questões da agenda doméstica, como inflação, crescimento econômico e desenvolvimento tecnológico, Yoon falou especificamente da península coreana. Talvez tenha sido o tema que ele dedicou mais tempo de seu discurso, que teve pouco mais de quinze minutos. O novo presidente sul-coreano fez uma “proposta” ao estilo Donald Trump para a Coreia do Norte, com um possível acordo de desenvolvimento.

Paz e armas nucleares 

“A paz não é simplesmente evitar a guerra, a verdadeira paz é permitir que a liberdade e a prosperidade floresçam. A verdadeira paz é uma paz duradoura. A verdadeira paz é uma paz sustentável.”. Uma referência ao fato de que não existe um acordo de paz definitivo para a península coreana pós-guerra de 1953. Também não existe uma paz definitiva entre Rússia e Japão, relação bastante estremecida com a guerra na Ucrânia.

A relação com as relações russo-japonesas se dá pelo fato de que Yoon interligou a “paz na península coreana” com a “paz no nordeste da Ásia”, o que pode ser tanto uma referência ao status de Taiwan como também uma referência ao conflito congelado nas ilhas Curilas, entre Japão e Rússia. Yoon também colocou o programa nuclear norte-coreano como uma ameaça à segurança.

“Embora os programas de armas nucleares da Coreia do Norte sejam uma ameaça não apenas à nossa segurança e à do nordeste da Ásia, a porta para o diálogo permanecerá aberta para que possamos resolver pacificamente essa ameaça.”. Nesse trecho ocorre uma sinalização interessante, de que uma “porta de diálogo” permanecerá aberta entre as duas repúblicas coreanas.

Inclusive, entre a vitória eleitoral e a posse, Yoon afirmou que não existiam razões para não se reunir com Kim Jong-un. Em seu discurso, afirmou que “se a Coreia do Norte genuinamente aderir a um processo para completa desnuclearização, estamos preparados para trabalhar com a comunidade internacional para apresentar um plano audacioso que fortalecerá enormemente a economia da Coreia do Norte e melhorará a qualidade de vida de seu povo. A desnuclearização da Coreia do Norte contribuirá muito para trazer paz e prosperidade duradouras na Península Coreana e além.”.

É difícil avaliar algo que é um mero aceno, não se trata de uma proposta com substância e pontos concretos, mas trata-se de oferta interessante, ainda assim. À moda Trump, já que o ex-presidente dos EUA, quando de seu primeiro encontro com Kim Jong-un, fez uma oferta similar, a de desenvolvimento econômico e investimentos em troca da desnuclearização. A Coreia do Norte, entretanto, dificilmente aceitará um acordo desse tipo.

O governo norte-coreano vê suas armas nucleares como a garantia de sua soberania e integridade territorial. Somente aceitará negociá-las em troca de garantias de segurança, tanto políticas quanto econômicas. Yoon sabe disso, ao ponto que sua primeira agenda oficial como presidente foi um briefing de segurança em um bunker subterrâneo. Questões nucleares e de segurança certamente estarão na agenda no futuro previsível.

Internamente, o principal desafio do novo presidente é o fato de que, por pelo menos dois anos, ele não poderá contar com o apoio da maioria da Assembleia Nacional. O legislativo sul-coreano, de 300 assentos, é dominado pelas 167 cadeiras do PD, conquistadas na eleição de 2020. Soma-se ao fato de que ele começa o mandato com a menor taxa de confiança registrada por um novo presidente e tem-se a certeza de um início de governo bastante turbulento pelos próximos meses.

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