i

O Sua Leitura indica o quanto você está informado sobre um determinado assunto de acordo com a profundidade e contextualização dos conteúdos que você lê. Nosso time de editores credita 20, 40, 60, 80 ou 100 pontos a cada conteúdo – aqueles que mais ajudam na compreensão do momento do país recebem mais pontos. Ao longo do tempo, essa pontuação vai sendo reduzida, já que conteúdos mais novos tendem a ser também mais relevantes na compreensão do noticiário. Assim, a sua pontuação nesse sistema é dinâmica: aumenta quando você lê e diminui quando você deixa de se informar. Neste momento a pontuação está sendo feita somente em conteúdos relacionados ao governo federal.

Fechar
A matéria que você está lendo agora+0
Informação faz parte do exercício da cidadania. Aqui você vê quanto está bem informado sobre o que acontece no governo federal.
Que tal saber mais sobre esse assunto?

Filipe Figueiredo

Foto de perfil de Filipe Figueiredo
Ver perfil

Explicações para os principais acontecimentos da política internacional

Ernesto Araújo e os campos de extermínio nazistas

  • Por Filipe Figueiredo
  • 30/04/2020 23:14
Portão de entrada do antigo campo de concentração em Dachau, sul da Alemanha, com a inscrição “O trabalho liberta”
Portão de entrada do antigo campo de concentração em Dachau, sul da Alemanha, com a inscrição “O trabalho liberta”| Foto: Christof STACHE / AFP

Diversas organizações civis judaicas exigiram um pedido de desculpas do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, por ele ter comparado medidas de isolamento durante a pandemia do novo coronavírus com “campos de concentração nazistas”. O leitor certamente se deparou com notícias relatando o que ocorreu, assim como pode ler o texto original do chanceler, que criticava um texto do filósofo esloveno Slavoj Zizek. Araújo se defendeu dizendo que foi mal interpretado; a mesma argumentação de Zizek sobre o texto de Ernesto, curiosamente. Uma arenga, como se diz em algumas regiões do Brasil. Nada disso, entretanto, será o ponto deste texto, para trazer outra discussão, o verdadeiro problema da expressão “campos de concentração nazistas”.

O primeiro campo de concentração construído pela Alemanha nazista foi o de Dachau, em 1933, usando a estrutura de uma antiga fábrica. Localizado na Baviera, inicialmente era para opositores políticos do regime ou “elementos indesejados” da sociedade: comunistas, homossexuais, testemunhas de Jeová, dentre outros. Uma grande prisão, incluindo aí tortura, péssimas condições, violência cotidiana e terror psicológico. Progressivamente ele foi expandido para incluir campos de trabalhos forçados e também recebeu outros tipos de pessoas, desde criminosos comuns até estrangeiros de países ocupados pelos nazistas. O campo funcionou até abril de 1945 e, segundo o site de seu memorial, recebeu um total de cerca de 188 mil prisioneiros; desses, cerca de 41 mil morreram sob custódia.

Existiram outros 28 complexos de campos de concentração similares ao de Dachau, incluindo alas prisionais, campos de trabalhos de forçados, fábricas, tortura e morte. Se Dachau foi o primeiro, o último estabelecido foi o de Kistarcsa, na Hungria, em 1944, já nos estertores do derrotado Reich. Muitos desses campos eram em território alemão. O maior campo de concentração foi o de Buchenwald, construído em 1937, na região de Weimar; ali, 300 mil pessoas foram presas e 56 mil morreram. Assassinadas, por subnutrição, por doenças, por trabalho até a total exaustão. A lista de 28 complexos pode ser debatida, já que campos menores, muitas vezes apenas para trânsito, também existiram. O número total pode superar 60 campos.

Extermínio, não concentração

Alguns leitores podem ter estranhado a coluna dizer que o maior campo de concentração foi o de Buchenwald. “Oras, e Auschwitz?”. Esse é o ponto. Auschwitz era o maior dos complexos, com dezenas de campos menores e três grandes campos. Auschwitz III-Monowitz, um campo de trabalhos forçados para fábricas da IG Farben. E os campos de Auschwitz e de Auschwitz II-Birkenau, que não eram “meros” campos de concentração. Eram campos de extermínio. Uma particularidade nazista, algo completamente único, sem paralelo em outro lugar até nossos dias. Os campos de extermínio colocam a violência do nazismo como algo singular, a maior expressão da “banalidade do mal”, termo da filósofa alemã Hannah Arendt quando de sua cobertura do julgamento de Eichmann em Jerusalém.

Ela, enquanto reporta e analisa o comportamento de um dos arquitetos do Holocausto judeu em seu julgamento, aponta que o nazismo direcionou uma imensa máquina burocrática, em que “se cumpriam ordens” com extrema eficiência, para o extermínio de pessoas em escala industrial. Uma linha de montagem da morte. Em Auschwitz, no total, foram cerca de 1.300.000 prisioneiros; desses, ao menos 1.100.000 pessoas foram exterminadas, a maioria de judeus. São números só menos assustadores do que a máquina que foi implementada para esse extermínio. Cronogramas de trens, de quantidades de pessoas, turnos de guardas, inspeções, um gigantesco aparato voltado para a aniquilação de pessoas por sua etnia, sua religião, sua orientação sexual.

Existiram apenas sete campos de extermínio. Além de Auschwitz, os campos de Chelmno, Belzec, Sobibor, Treblinka e Majdanek eram construídos e operados pela Alemanha no território da Polônia ocupada; em Treblinka, cerca de 800 mil pessoas foram mortas em apenas 14 meses de funcionamento. Soma-se na lista o caso particular do campo de Jasenovac, na atual Croácia, operado pelo regime fascista local da Ustaše, fantoches do Eixo. A maioria de suas vítimas foi de sérvios étnicos, mas judeus, roma e outras pessoas também foram mortas ali. Esses sete campos particulares não podem ser colocados como “campos de concentração”, e daí origina-se o debate em torno das palavras usadas pelo chanceler Ernesto Araújo.

Ao comparar medidas de quarentena com “campos de concentração nazistas”, Ernesto Araújo acabou ofendendo muitas pessoas pois ligou uma restrição de movimento de uma pessoa em sua própria casa com um extermínio sistemático de pessoas levadas à força para um campo. E não se trata de julgar o texto em si do chanceler, mas a precisão histórica. Se o leitor ouvir ou ler a expressão “campos de concentração nazistas”, provavelmente vai pensar imediatamente em cenas de Auschwitz, nos crematórios enormes, na linha de trem que desemboca direto no portão do campo. Mesmo que o autor da expressão queira se referir apenas ao ato de restringir a mobilidade, de confinar pessoas ou até mesmo uma colônia penal.

Relativização na História

Repete-se, desvinculado do caso específico do chanceler, esse colunista não tem como saber o que o chanceler quis dizer, ou deixou de querer. O fato é que a comparação soará ofensiva para muitas pessoas por parecer que diminui os atos da violência nazista, uma violência que estava longe da barbárie de turbas ensandecidas, mas era extremamente organizada, fria e metódica. E, de fato, esse termo é muitas vezes utilizado para relativizar ou diminuir o caráter único do extermínio promovido pelo nazismo. “Ah, mas em tal lugar ou tal época também teve campo de concentração!”. Ainda na década de 1860, os confederados construíram um campo de concentração na Guerra Civil dos EUA, cujas fotos chocantes podem ser vistas na série documental do brilhante Ken Burns.

Britânicos construíram campos de concentração nas guerras contra os bôeres, na África do Sul. O Império Alemão confinou os sobreviventes do genocídio herero em campos na atual Namíbia. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo dos EUA prendeu grande parte de sua população de origem nipônica em campos de concentração. O ator George Takei, o Sulu de Jornada nas Estrelas, cresceu em um deles. Tivemos campos de concentração até no Brasil, muito ignorados, como os do Ceará na década de 1930, para impedir que refugiados da seca do sertão chegassem nas cidades maiores, como Fortaleza.

Campos de trabalhos forçados ou colônias penais também não são algo relativamente novo. A Austrália foi colonizada pelos britânicos como uma colônia penal. O império russo ocupou a Sibéria com colônias penais de trabalho forçado, as katorga, inclusive para dissidentes políticos. Posteriormente, as katorga foram ampliadas pela União Soviética sob a agência Gulag; a propagação dos campos foi tão grande que inspirou o nome da obra seminal de Alexander Soljenítsin, Arquipélago Gulag, como um conjunto de ilhas distribuídas pelos Urais e pela Sibéria. E também não se trata de uma prática que ficou em um passado distante. Até 1996, por exemplo, a África do Sul tinha uma colônia penal política, a Robben Island, onde esteve Mandela.

Hoje, em 2020, fatia considerável da população masculina muçulmana uigur no oeste da China está confinada em “Centros de educação e formação vocacional”, um eufemismo para uma prática apontada por 22 países como um campo de concentração. Mesmo com todos esses exemplos, históricos e contemporâneos, onde muitas pessoas sofreram, morreram e tiveram seus mais básicos direitos solapados, nada se compara ao extermínio de pessoas em escala industrial realizado pela Alemanha nazista. Provavelmente, se falássemos “campos de extermínio nazistas”, além de ser conceitualmente mais preciso, algumas comparações sensíveis não seriam feitas.

10 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]

Receba Nossas Notícias

Receba nossas newsletters

Ao se cadastrar em nossas newsletters, você concorda com os nossos Termos de Uso.

Receba nossas notícias no celular

WhatsApp: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.

Comentários [ 10 ]

Máximo 700 caracteres [0]

O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Consulte a nossa página de Dúvidas Frequentes e Termos de Uso.

  • A

    Amilcar Andrade

    ± 0 minutos

    caro Felipe .Deve ser duro para vc encontrar assunto que seja digno de publicar. Um texto pobre sem nexo comparando alho com bugalhos ,me lembrou a nossa Dilma .alou muito e não disse nada

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • R

    Rildo Fausto Kops Neto

    ± 3 horas

    Duas coisas: 1 - A finalidade toda do texto foi realmente apontar que a fala do Ministro foi insensível? Sei lá quantos parágrafos para isso? 2 - A máquina nazista, tida como "única" em vários aspectos pelo autor, historicamente não foi "única" em número de mortes - Stálin e Mao que o digam, pois deixaram Hitler, como se diz, "comendo poeira". P.S.: lembrar (aprender) que o comunismo matou mais (muito mais) que o nazismo não é proteger este, mas condenar aquele (e ambos).

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • M

    Maria Fatima de Moura

    ± 5 dias

    É uma comparação pesada. Entretanto o isolamento social tornou-se uma imposição por verdadeiros ditadores. Só não conseguiram totalmente esse isolamento porque o povo brasileiro sempre tem um comportamento diferente do resto do mundo.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • Z

    Zulimar Marrara

    ± 6 dias

    Foi muito bom rememorar toda esta maldade. Fico fortalecida para continuar a luta pela liberdade e solidariedade.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • A

    A.R.ALVES

    ± 6 dias

    Penso que os políticos brasileiros (esquerda, direita ou centro) deveriam lavar suas bocas imundas com ácido sulfúrico antes de comparar pessoas, entidades ou locais com conceito e atos implementados pelo nazismo. Essas falácias diminuem e ridicularizam a monstruosidade praticada pelos nazistas, e pior aumenta ainda mais o sofrimento de suas vítimas diretas ou indiretas!!

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • A

    ANTONIO

    ± 6 dias

    Ernesto Araújo está corretíssimo em sua comparação. As duas únicas diferenças entre o isolamento social atual e os campos de concentração nazistas da II Guerra é que hoje nós temos Netflix e a Terra está plana.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • W

    WILSON ZETI

    ± 6 dias

    O Ernesto é a Dilma de barba.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • M

    Marcos eisenschlag

    ± 6 dias

    Ernesto Araujo se utiizou de uma hiperbole, somente em nossa sociedade doente pelo politicamente correto alguem pode se sentir ofendido por isso. Filipe, infelizmente tenho que discordar de voce, existem sim fatos tao atrozes quanto os campos de exterminio. Procure pela Unit 731 japonesa e voce vera que a imaginacao humana para a perversidade pode ser ilimitada. O que mais surpreende e' convivermos HOJE, em 2020 com isso, por exemplo com a colheita de orgaos de prisioneiros chineses nos tais campos de "reeducacao" que foi denunciado pelo Ministerio da Saude israelense.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    1 Respostas
    • ± 6 dias

      Olá Marcos, a unidade 731 foi algo hediondo, mas ainda assim é algo diferente dos campos de extermínio nazista. O mais aproximado seria comparar com os programas de experimentação em humanos, cujo nome mais infame é o de Mengele. Um abraço e obrigado pela leitura,

      Denunciar abuso

      A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

      Qual é o problema nesse comentário?

      Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

      Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

  • M

    MCuritiba

    ± 6 dias

    Eu acho que está todo mundo pirando. Ninguém mais sabe o que é certo ou errado. Quem está certo ou errado. Aquele áudio to "Eu estou ficando louco, vai trabalhar, fica em casa, bate palma pra um, bate panela pra outro..." nunca foi tão atual depois desse tempo todo de quarentena.

    Denunciar abuso

    A sua denúncia nos ajuda a melhorar a comunidade.

    Qual é o problema nesse comentário?

    Obrigado! Um moderador da comunidade foi avisado sobre a denúncia. Iremos avaliar se existe alguma violação aos Termos de Uso e tomar as medidas necessárias.

    Confira os Termos de Uso

    • Máximo 700 caracteres [0]

Fim dos comentários.