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Foto de satélite mostra grupo de batalha em área de treino em Voronezh, Rússia, 19 de janeiro. Concentração de tropas russas na fronteira eleva temores de uma invasão à Ucrânia
Foto de satélite mostra grupo de batalha em área de treino em Voronezh, Rússia, 19 de janeiro. Concentração de tropas russas na fronteira eleva temores de uma invasão à Ucrânia| Foto: EFE/EPA/MAXAR TECHNOLOGIES

Existe um temor de uma invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia desde a anexação da Crimeia pelos russos, em 2014. A atual crise, com a concentração de tropas russas na fronteira entre os dois países, começou ainda em 2021, e já foi abordada aqui em nosso espaço. A coluna de hoje tenta não ser repetitiva em algumas questões já abordadas, então, a sugestão é de também ler alguns textos passados sobre as crises no espaço pós-soviético. A coluna de hoje vai abordar duas notícias recentes, de como o governo dos EUA têm municiado as forças armadas ucranianas. E o motivo do uso desse expediente.

As forças armadas ucranianas, hoje, estão melhor preparadas do que em 2014. Isso é um fato, especialmente no que concerne às suas forças terrestres. O país herdou uma imensa máquina militar da ex-União Soviética, em 1991, mas sem nenhuma condição de manter aquele gigante operacional. As duas décadas de boas relações com a Rússia e a falta de um inimigo claro em suas portas sequer justificava a manutenção de uma máquina militar ambiciosa. Como consequência, as forças armadas ucranianas minguaram. Navios foram vendidos como sucata, carros de combate foram sucateados para fornecerem peças, o treinamento foi defasado e a força aérea foi reduzida a uma fatia do que já foi.

Esse cenário, obviamente, mudou, mas não se resolve do dia para a noite. Novos armamentos são caros e dificilmente estão em “pronta entrega”. Comprar caças para sua força aérea não é como comprar um carro na concessionária, ao contrário do que alguns podem imaginar. Outra etapa demorada é o treinamento necessário para o domínio dos novos equipamentos. Uma maneira rápida e relativamente barata de “tapar o buraco”, então, é fornecer armamentos de operação simples e que podem ser utilizados individualmente, como lançadores de mísseis antitanque, mais corretamente chamados em português de anticarro.

Custo benefício

Um armamento que custa menos de US$ 200 mil, operado por dois militares, pode destruir um carro de combate que custa mais de US$ 3 milhões e que necessita de três ou quatro tripulantes. Uma relação “custo benefício” excelente, que torna os prospectos de uma invasão ainda mais custosos. Também diminuem possíveis críticas ou uma escalada de tensões, já que são equipamentos simples. Como colocou o secretário de Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, "trata-se de armas de capacidade de curto alcance e claramente defensivas; não são armamentos estratégicos e não representam uma ameaça para a Rússia; são para uso em autodefesa".

Essa é a razão para esse tipo de equipamento. Permitem mudar um cenário em curto prazo, sem grandes custos econômicos ou políticos. E é exatamente esse tipo de equipamento que os EUA estão fornecendo aos ucranianos. Nos últimos dias, diversos voos cargueiros foram do Reino Unido para a Ucrânia com carregamentos de mísseis antitanque e, ontem, dia 20 de janeiro, Estônia e Lituânia anunciaram que vão enviar o mesmo tipo de armamento para a Ucrânia. No fundo, entretanto, são envios feitos pelos EUA, em uma triangulação. E aqui entra o “jeitinho” encontrado pelos EUA para poder equipar as forças ucranianas.

A Ucrânia não é, oficialmente, uma aliada dos EUA. Ao menos não ainda. Por isso, uma exportação de armamentos pelos EUA para o país passaria por uma série de trâmites burocráticos e políticos. Correria até o risco de ser barrada em alguma comissão do Congresso, ou em um voto de plenário. Enviar o armamento via terceiros consegue contornar isso. Ainda assim, é necessária a aprovação do governo dos EUA. Qualquer país que opere armamento de origem dos EUA precisa da autorização de Washington para revender ou repassar, mesmo que sejam apenas peças ou algo obsoleto. Na prática, Washington autorizou a exportação de seu armamento para a Ucrânia, apenas não foi por uma via direta.

Triangulação

Existem outros dois ingredientes nesse “jeitinho”. Foi revelado no último dia 19 que, no mês passado, o governo dos EUA cedeu, via decisão executiva, US$ 200 milhões para “assistência de defesa” para a Ucrânia. Também em dezembro de 2021 o governo dos EUA conseguiu a autorização para a venda de mísseis antitanque para a Lituânia, em um total de US$ 125 milhões. Como a Lituânia é um país integrante da Otan, a burocracia de uma venda como essa é muito mais tranquila. Na prática, o que aconteceu foi que o governo Biden enviou o dinheiro para a Ucrânia comprar da Lituânia os mísseis que o mesmo governo Biden vendeu para a Lituânia.

Existe outro motivo para essa triangulação. Uma venda direta para a Ucrânia, além de enfrentar a política doméstica dos EUA e poder esbarrar em prazos, poderia desagradar a Rússia, independente dos “alertas” como o citado feito por Ben Wallace. E nenhum governo dos EUA, seja de Biden, seja de quem for, vai querer correr o risco de uma ruptura total com Moscou. Trata-se do único acordo de controle de armamentos nucleares que os EUA integram, os dois arsenais atômicos que estão em um patamar semelhante, em quantidade de ogivas e capacidade de ataque.

Se nem durante a Guerra Fria essa porta foi fechada, não seria agora. É muito simples e confortável advogar por essa ruptura total sentado no sofá, sem considerar a realidade estratégica dessa relação. Resta ver se a criativa solução da triangulação será suficiente, em um curto prazo, ou precisará ser expandida. Correndo o risco de colocar mais gasolina na fogueira. Por enquanto é um acerto da atual gestão de Washington, permitindo uma intervenção rápida e sem muitos custos, políticos ou econômicos.

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